Resenha: Prometeu e Epimeteu, de Carl Spitteler

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“Foi em sua juventude – a saúde estava queimando seu sangue e seus poderes cresciam dia a dia .

Então a arrogância de Prometeu falou completamente a Epimeteu, seu amigo e irmão:

Sejamos diferentes dos muitos que estão na multidão geral.

Pois, se seguirmos nosso costume no exemplo comum, seremos uma recompensa comum e nunca seremos sanguinários e profundos.”

Carl Spitteler, Prometheus und Epimetheus (tradução nossa a partir do original em alemão)

Es war in seiner Jugendzeit – Gesundheit rotete sein Blut und taglich wuchsen seine Krafte – .

Da sprach Prometheus Obermutes voll zu Epimetheus seinem Freund und Bruder:

Auf lass uns anders werden, als die Vielen, die da wimmein in dem allgemeinen HaufenI

Denn so wir nach gemeinem Beispiel richten unsern Brauch, so werden wir gemeinen Lohnes sein und werden nimmer sptiren adeliges Gluck und seelenvolle.

Talvez este romance do ganhador do prêmio Nobel Carl Spitteler não seja tão conhecido nos dias atuais, mas garanto que vale a pena a sua leitura. Jung muito se inspirou nele para escrever seu livro Tipos Psicológicos.

A epígrafe citada é o começo do livro. Prometeu tem um grande orgulho de sua própria personalidade. Tem tamanha confiança que rejeita a proposta do próprio Deus para ser o governante do mundo. Prometeu sabe o que é melhor para si mais do que Deus e seus anjos. Recusa o poder porque em troca teria de abdicar de sua personalidade. Talvez tivesse que diluir seus valores em um inconsciente coletivo. Pensar como a maioria.

Seu irmão mais fraco, Epimeteu, escuta a conversa de Prometeu com Deus e se oferece para o papel de governante. Ele quer uma personalidade nova. Por causa de seu orgulho, e mesmo que tivesse aceito a tarefa imposta por Deus, Prometeu já estava amaldiçoado e banido da glória futura. Estava julgado.

A partir daquele momento vive como Caim, vagabundo pelas florestas, enquanto seu irmão reina. Obviamente a escolha feita por Deus revela-se desastrosa. O reino é atacado e a inconsciência de Epimeteu leva a todos à ruína. Spitteler resume em uma fábula o que é a humanidade. Para os governos, instituições e para a sociedade no geral, parece ser requerido que a psique do indivíduo entre em um certo estado de letargia. Quem mantém-se alerta precisa refugiar-se para não perder a própria alma. Mais do que Deus ou os homens, cabe ao indivíduo saber o que é melhor para si.

O contraste entre consciência e inconsciência é bem resumido por Schopenhauer nestas linhas:

“Uma era de ouro da inocência, o paraíso dos tolos, é uma noção que é estúpida e sem significado, e por esta razão verdadeira não é digna de nenhum respeito. O primeiro criminoso e assassino, Caim, que adquiriu o conhecimento da culpa, e através da culpa adquiriu o conhecimento da virtude pelo arrependimento, e assim veio a compreender o significado da vida, é uma figura trágica mais significativa, e quase mais respeitável do que todos os idiotas inocentes do mundo reunidos.”

Arthur Schopenhauer, Ethical Reflections

 

Epimeteu é um desses idiotas inocentes. O conhecimento de si traz uma luz própria que não costuma ser muito tolerada. Epimeteu pode ter sempre à mão a desculpa de que, no fundo, a consciência não é dele e que foi Deus quem o colocou ali. Já Prometeu terá sempre o consolo e, mais do que isso, a fortaleza da própria alma à qual foi fiel.

No momento do desastre, no qual o povo todo em está em estado de sono e à beira da destruição, Prometeu é o único que está em estado de alerta. Sabe o que fazer. Caberia à sociedade compreender as palavras apócrifas atribuídas a Cristo que são: “homem, se sabes o que fazes és um abençoado; mas se não sabes, és um maldito e transgressor da Lei.” Não é mais possível que a humanidade apele para a ignorância quando o desastre chega. Mas mesmo Deus é inconsciente, assim parece pensar Spitteler. Jung também havia demonstrado este lado de sonambulismo da Divindade em seu Resposta a Jó.

Prometeu, então, realiza dois atos surpreendentes: primeiro, salva o Filho de Deus que iria ser sacrificado pelo povo; depois, perdoa seu irmão, Epimeteu.

Antes de arriscar-se para salvar o Filho de Deus das mãos da turba ensandecida, Prometeu recebe a promessa de sua alma:

“- Acontecerá, se te matarem, que eu beijarei a tua boca lívida e te amarei eternamente.”

“Depois de alguns instantes de estupor de toda aquela gente, os clamores redobraram, a indignação não conheceu mais limites, os berros e ameaças e lamentos não cessavam.

– Assim, tu o quiseste: nossos inimigos irritados vão enfrentar-nos com ódio, e o nosso sangue correrá.

Mas Prometeu revidou, lançando-lhes um olhar de asco:

– E haverá nada mais belo neste mundo do que a face irritada de um inimigo? E para que temos nós sangue senão para derramá-lo?

E a essas palavras e queixas deles se fizeram mais tocantes:

-Não é por causa de nós! É por causa de nossos inocentes filhos, por causa dos corpos sagrados de nossas brancas esposas.

Mas então a cólera de Prometeu chegou ao auge:

– Não são de modo nenhum corpos sagrados, não são brancas esposas: são as vossas mulheres, e portanto tão infames quanto vós, e os inocentes filhos já se mancharam ao contato de vossa imundície.”

Carl Spitteler, Prometeu e Epimeteu, tradução de Manuel Bandeira, Editora Delta, 1963

Prometeu ressurge da floresta porque manteve sua personalidade intacta e foi-lhe oferecido a capacidade de lutar. Entretanto, Deus parece não ter perdoado Epimeteu, e fica bastante surpreso que Prometeu o tenha feito. Grande ironia! O revolucionário demonstra sua superioridade também na capacidade de perdoar. Perdoar e elevar-se acima da opinião do mundo. Assim diz Prometeu:

-Que nos importa o juízo de Deus e dos homens? São estranhos que nada podem fazer para a bem-aventurança ou danação do nosso mundo interior!

Este é o processo de individuação que Jung experimentou no seu Livro Vermelho. O Prometeu de Spitteler é uma imagem de Cristo que soube levar até o fim seu sacrifício. Foi abandonado, teve dúvidas, foi tentado, mas sua ressurreição foi ganhar a mais alta consciência.

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