Resenha: Precarious Japan, de Anne Allison

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A humanidade dispõe de uma grande biblioteca com títulos que explicam o fim das grandes civilizações da Antiguidade, e mesmo no século XX, Oswald Spengler escreveu sobre a decadência do Ocidente. Mas como seria um livro sobre a progressiva perda de esperança e uma drástica queda da natalidade de uma nação contemporânea? Anne Allison, uma professora de antropologia cultural estadunidense, revela em seu livro Precarious Japan um cenário dramático para este país, que já foi uma potência militar agressiva, e que até duas décadas atrás era uma potência industrial em expansão.

Não é fácil determinar qual seria a causa principal deste desencanto da população japonesa. Por causa disto, Allison analisa especialmente o que aconteceu após o estouro da bolha no ano de 1991, que é o começo da década perdida. De fato, o livro está concentrado neste grave problema econômico do crescente avanço do neoliberalismo daquela época, que pôs fim a um dos pilares da sociedade japonesa que era a garantia de emprego do pós-guerra, que permitia que somente os homens trabalhassem, e tivessem a certeza de que dificilmente seriam demitidos. Sociedade com um machismo arraigado, as mulheres eram excluídas do mercado de trabalho, mas o salário do pai de família e sua estabilidade permitiam este estado de coisas. Havia uma grande rede de relacionamentos entre as famílias, empresas e funcionários; a educação sempre foi de qualidade, mas àquela época ainda havia motivos para que os estudantes tivessem nível superior. Havia uma certeza de vir a ter um bom emprego.

O Japão se beneficiou com a grande facilidade de crédito e de comércio exterior do período pós-guerra. Cresceu de maneira impressionante. Povo com admirável capacidade para o trabalho e disciplina, atingiu níveis de informatização e de robótica inigualáveis; mas uma hora o preço foi cobrado. Um aspecto não abordado pela autora é que foram os Estados Unidos o maior responsável por esta crise econômica. Até o fim dos anos 1980, o Japão podia exportar com grande facilidade seus produtos eletrônicos de alto valor agregado para os EUA; porém, no momento em que isso foi dificultado por razões estratégicas, por uma política de redução de déficit comercial por parte dos EUA, foi como se o Japão tivesse puxado o freio de mão. Quase toda sua economia estava voltada para o exterior, portanto, o impacto foi muito grande. Nos dias atuais, os EUA tentam fazer o mesmo com a China, mas não sabemos qual vai ser o resultado…

A autora foi a vários ambientes das cidades japonesas, entrevistando diversas pessoas das mais afetadas por esta crise, e tenta apoiar-se no pensamento de Karl Marx e de alguns sociólogos para entender o que se passa no Japão. De Marx, o principal é o uso do conceito de alienação para caracterizar a relação do japonês com o trabalho. Está convencida de que é mais uma das crises do capitalismo. Mas por que ali o impacto foi maior do que em outros países? Talvez porque a sociedade japonesa tenha uma estranha (para os ocidentais) noção de honra e de vergonha pessoal, aliado a um individualismo extremo, cujo resultado são índices de suicídio chocantes. O capitalismo talvez tenha ajudado a piorar o quadro. Então o capitalismo seria um ingrediente a mais em uma nação doente ou foi ele a causa da desgraça? Bom, se pensarmos que o Japão tem uma história milenar, e nunca passou por crise semelhante, o capitalismo pode muito bem ser o responsável. Allison questiona o porquê de países como a China e a Coreia do Sul não experimentarem uma crise semelhante? Talvez seja fácil de responder: Porque ambos os países não alcançaram o nível de desenvolvimento japonês, mas é questão de tempo para que a Coreia passe pelo mesmo processo. Na China, o envelhecimento da população cresce com rapidez…

Destaco o que aparece pela primeira vez na história humana, que é um povo recusar-se deliberadamente a ter filhos. Este é o sintoma mais agudo da crise japonesa. A autora entrevista jovens homens e mulheres japoneses e o que fica evidente é que eles não possuem mais fé nem esperança no futuro. As desgraças do capitalismo japonês são imediatas demais e bloqueiam qualquer otimismo. Até 1991 o Japão, talvez muitos deles não saibam, não viviam um capitalismo pleno, pois o emprego era garantido. Desde então, sua verdadeira face apareceu. O setor público é pequeno, as universidades promovem a formatura de futuros desempregados, e grande parte dos contratos de trabalho é temporário. Mesmo quem está trabalhando ganha muito pouco para pagar os aluguéis astronômicos das metrópoles japonesas.

O Japão é um país pacífico, com quase nenhuma violência como temos no Brasil. Ao lermos o livro notamos que o tipo de violência existente no Japão divide-se em duas partes: a invisibilidade dos milhares de idosos que vivem e morrem sozinhos sem serem percebidos pela massa, e a frieza de um país que tem grande facilidade em mobilizar-se para reconstruir uma ponte que caiu, mas que ignora de maneira aberta o mendigo da esquina. Qualquer um que não se encaixe neste capitalismo extremo é um inútil, que é excluído de modo muitas vezes implacável. Até mesmo a ética oriental, que dá grande valor aos idosos, é deixada de lado, pois o idoso passa a ter medo de dar trabalho tanto para o Estado, que é mínimo, quanto para seus descendentes, e o resultado é uma avalanche de idosos que morrem e só são descobertos em suas casas muito tempo depois.

O que vemos a partir do estudo de Anne Allison é que o Japão entrou em um processo de entropia dificilmente reversível. O fator mais importante para o crescimento econômico de um país é a expansão de sua população. A fé no futuro não deve entrar no cálculo dos economistas, mas julgo que ela é muito importante. Claro que se o país já está com baixa natalidade, sua produção pode ser direcionada para as exportações, só que outras nações também pensam o mesmo, e bastou que os EUA dessem um basta às facilidades comerciais do Japão para que o desastre acontecesse. No livro, os japoneses apenas trabalham, mas não sabem aonde querem chegar; não existem pausas, nem reflexão.  Tudo é acelerado. Como ter filhos em um lugar assim? Se você exibir fraqueza, é provável que fique só. Nem o Estado nem sua família irão ajudar. Que espécie de ética é esta? Aqui a autora poderia ter também encaixado Marx na questão da redução da jornada de trabalho.

Lembrando que o livro é concentrado na década de 2000. Não podíamos imaginar que, dez anos depois, o Brasil iria juntar-se ao Japão nesta loucura. Sem nem de longe termos o mesmo desenvolvimento, preparamo-nos para aprovar as mesmas leis que promovem esta espécie de capitalismo canibal. Nossa população está num estágio de envelhecimento assustador, e ter filhos está virando uma aventura. Apesar de tudo, ainda resta no Japão, como o livro demonstra, resquícios da antiga ética de valorização da comunidade e do respeito ao próximo. O Brasil nunca teve isso. A combinação de baixo crescimento econômico, com taxa de natalidade decrescente e envelhecimento populacional, é a própria definição da entropia. É mortal; marca o fim de uma nação. O Japão escreveu sua história. Por que o Brasil escolheu  tomar este rumo?

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