Al-Ghazali e Guilherme de Ockham e a destruição da sociedade Islâmica e Cristã

Certos filósofos possuem tamanha influência para a destruição da ordem em algumas sociedades que poucas pessoas conhecem. São às vezes pouco divulgados justamente para que filósofos modernos não se vejam influenciados por personagens que viveram em uma época tão caluniada como a Idade Média. Os dois eram defensores de um irracionalismo e de uma Teologia em que Deus é tão poderoso, que poderia alterar toda a realidade, se quisesse.

O primeiro filósofo a ser analisado é Al-Ghazali. Durante séculos a civilização islâmica se beneficiou do contato com a filosofia grega que havia sido traduzida pelos cristãos da Síria. Platão, Aristóteles e outros muito influenciaram a teologia e filosofia do islã, produzindo gênios como Ibn-Sina( Avicena), que uniram o Corão ao pensamento helenístico.

Essa era da razão no mundo muçulmano durou até o século XI, quando surgiu o filósofo que iria acabar com a filosofia racional do islã e lançá-la no misticismo e um conservadorismo irracional.

Al-Ghazali foi quem acabou com a filosofia islâmica de base helenística, pois como um místico, ele desconfiava da razão e pregava um Deus imanente que tudo abraçava no mundo, não restando espaço para uma ciência natural; o que sobrava era apenas uma sociedade em que o Corão era o centro de tudo, não permitindo mais a reflexão filosófica racional. Lançou a filosofia islâmica numa gnose do sufismo, onde passa-se a desconfiar da razão humana e a acreditar em uma vontade arbitrária de um Deus todo -poderoso. No século XII, Averróis, o último grande filósofo muçulmano ainda tentou salvar a filosofia e escreveu um livro refutando Al-Ghazali, mas o livro acabou sendo queimado em praça pública, e os seguidores de Ghazali foram os vencedores.

***

No ocidente católico, a combinação da filosofia grega com a patrística, a filosofia islâmica e judaica, resultou na filosofia que iria juntar para sempre a fé e a razão: a escolástica. Essa teologia que foi a combinação de vários pensamentos das religiões monoteístas com o gregos teve seu auge com São Tomás de Aquino no século XIII. Só que a filosofia de São Tomás não foi aceita de imediato, pelo contrário, foi combatida por utilizar excessivamente a razão e Aristóteles em sua obra máxima, a Suma Teológica.

No século XIV, Guilherme de Ockham iria se levantar contra a filosofia de São Tomás, porque ao contrário de Tomás, Guilherme de Ockham não achava que a razão e a filosofia podiam provar a existência de Deus, somente a fé. A teologia de Ockham é confusa, de forma que Deus poderia transformar o pecado em algo com mérito e permitido, se quisesse. Mas existe um ponto em que Ockham se diferenciou de Al-Ghazali e de certa forma salvou o ocidente de cair em um imobilismo do tipo islâmico.

Ockham era defensor radical dos particulares e da ciência experimental, e também da sepraração entre filosofia e teologia, e entre fé e razão. Nesse caso, ao invés de mergulhar o ocidente em um misticismo como queria Mestre Eckhart ( e Al Ghazali), Ockham lançou o ocidente em uma paixão pela razão e pela ciência experimental, negando qualquer valor à especulação teológica e ao conhecimento teórico. Sua teologia era irracional, mas sua filosofia era defensora fanática da razão e do conhecimento prático.

Isso marcou o fim da sociedade medieval e sua teologia racional. Muito antes de Kant, a Metafísica tornou-se impossível graças a Ockham. A religião torna-se com esse filósofo apenas uma questão de crença muito antes de Lutero. A razão não pode mais ser associada a uma questão racional quando se trata de acreditar em Deus e seguir a religião católica.

***

Vimos como a filosofia pode alterar todo o curso de uma civilização; que certas escolhas são fatais, mas que algumas ideias absurdas podem até gerar uma sociedade que aparentemente dá certo. Tanto o islã atual como o nosso ocidente secular são considerados por seus membros como algo desejável. Mesmo que na gênese dessas sociedades o irracionalismo tenha sido o primeiro motor, as pessoas não estão dispostas a questionar as suas próprias origens. Cabe ao filósofo mostrar as origens e questioná-las para que tenhamos uma visão mais crítica a respeito de nosso mundo.

 

Fonte: Etienne Gilson, A Filosofia na Idade Média.

              F.J.Thonnard, Compêndio de história da filosofia.

A época de ouro da civilização islâmica e a causa de sua queda

Qual foi a causa da época mais brilhante da civilização islâmica e o porquê da sua queda e declínio? Vou tentar analisar nesse artigo.

Durante mais de 400 anos, a civilização árabe-muçulmana foi a dominante do mundo em termos de filosofia e ciência. A doutrina inicial do islã favorecia a ciência e as artes. Grandes obras da arquitetura como a cúpula da Rocha e a mesquita de Córdoba são os símbolos dessa era de grande prosperidade islâmica. Nas ciências e na filosofia, os árabes se apoderaram da ciência grega traduzida pelos cristãos sírios. Obras de Aristóteles, Ptolomeu e Galeno foram estudadas por essa jovem civilização com muita paixão e liberdade.

Uma grande influência para o movimento de fusão do pensamento do Corão com a ciência e filosofia grega foi a do movimento da escola islâmica de pensamento  chamada de Mu’tazila, que permitiu o islã construir uma civilização muito tolerante e aberta ao pensamento antigo. Mas o período mais florescente do islã vai além dessa escola.

Hospitais, escolas, mesquitas e Madrassas( a versão islâmica das universidades) foram construídos pelo império império Omíada e Abássida. Grandes nomes surgiram no campo da medicina, filosofia, astronomia, óptica e matemática. Podemos citar alguns deles:

Matemática: Al-Khwarizmi, que foi o responsável pela adoção pelos árabes dos algarismos Hindus. Sua obra de álgebra seria a mais importante durante a idade Média. De seu nome se originaram as palavras algarismo e álgebra.

Filosofia: Ibn Sina( Avicena). Médico de origem persa, escreveu a obra de medicina mais importante para a Idade Média Cristã, o chamado canôn de medicina. Foi também filósofo muito influenciado por Aristóteles e depois influenciou a filosofia escolástica.

Medicina: Al-Razi(Rhazés). Foi o médico mais famoso da Idade Média. De origem persa, escreveu diversas obras de medicina, inclusive sendo o primeiro a diferenciar a catapora do sarampo. Era também um químico avançado para o seu tempo. É um dos grandes nomes da ciência de todos os tempos.

Astronomia: Al Kindi e Alfraganus. Muito influenciados por Ptolomeu e sua obra Almagesto, escreveram  diversas obras de astronomia e óptica e tratados sobre o astrolábio.

Óptica: Aqui talvez esteja o maior nome da ciência islâmica da época:Ibn Al-Haitham, conhecido no ocidente como Alhazen. foi um dos primeiros a estabelecer o método científico. Sua obra Kitab al-Manazir ( livro de Óptica) foi muito importante para cientistas como Roger Bacon e os inventores dos óculos na Europa Medieval. Escreveu sobre sobre a  Luz das estrelas e da Lua, a natureza das sombras e diversos outros livros sobre Óptica que chegariam até Kepler.

Era uma civilização apaixonada pela escrita, medicina, matemática e filosofia. O que deu errado? Primeiro, eu creio, é que a civilização muçulmana não tem um intérprete oficial da sua religião e livro sagrado. O que no início foi uma vantagem enquanto os progressistas dominavam, tornou-se uma armadilha fatal quando surgiram os mais conservadores e reacionários, não tendo o islã uma autoridade central que pudesse mediar esse conflito.

Alguns dizem que esses grandes personagens citados não eram verdadeiramente muçulmanos mas eu não acredito nisso. Entre os cristãos muitos se diziam católicos ou protestantes mesmo não sendo, mas ninguém fica discutindo isso. O Corão é um livro completo, que trata de vários assuntos desde a religão até a política. No caos do início da Idade Média, essa ordem estabelecida pelo Corão foi uma grande vantagem para o islã em um mundo em que a desordem governava; também ajudou a grande riqueza dos impérios omíadas e Abássida, esse último em que reinou o lendário governante Harun al-Rashid.

Essa riqueza muçulmana era baseada em algo que havia praticamente desaparecido da Europa da alta Idade Média: o comércio, que na época dos Abássidas ia da Espanha até a Índia e China.

Por que houve a decadência da civilização Árabe?

Na minha opinião o livre exame do Corão foi a causa da decadência do islã. Quando movimentos conservadores tomaram de assalto a civilização árabe, não havia quem fosse uma autoridade central para defender a interpretação que garantisse a liberdade de pensamento e a Onipotência de Allah que não interferisse a produção da filosofia e ciência. Os conservadores como Al-Ghazali pregavam um Deus imanente que penetrava em todos os conhecimentos humanos tornando toda a investigação inútil. Foi o apego às tradições e o desejo de uma sociedade esclerosadamente conservadora que resultaram na decadência do islã. Se nós já sabemos tudo, temos a tradição, para quê avançarmos mais? Não é parecido com alguns pensadores de nosso tempo aqui mesmo no Brasil?

Podemos creditar ao filósofo Al-Ghazali a proeza da destruição de uma civilização que era progressista e com um grau muito bom de tolerância. Al-Ghazali rejeitava todo o conhecimento dos filósofos e dizia que os islâmicos deveriam voltar às origens, ou seja, tornarem-se conservadores e apegados à uma falsa tradição. Ele era do tipo que apontava o dedo  para os que julgava inovadores e os denunciava em sua obra.

Escolhas filosóficas erradas podem ser catastróficas para o destino das civilizações e países. A Europa Medieval soube escapar dessa armadilha pois nunca houve alguém para denunciar a filosofia antiga, e depois no renascimento, apesar da denúncia inútil dos papas, a filosofia seguiu seu caminho sem ser molestada. Os que queriam o progresso sempre foram os vencedores. O desafio agora é saber não cair na armadilha conservadora em termos de filosofia e moral. Se não prestarmos atenção, podemos estar nos condenando a uma sociedade paralisada, cheia de injustiças e com a crença de um Deus que tudo se ocupa, nada restando ao homem fazer.