Resenha: São Tomás de Aquino-Comentário à Ética a Nicômaco

Commentary on Aristotle Nicomachean Ethics

A Ética de Aristóteles, assim como outras das suas principais obras como a Política, a Metafísica etc, foram comentadas no final da vida de São Tomás. Lamentando que esse livro ainda não tenha uma tradução para a língua portuguesa, tive que lê-lo na versão inglesa da Aristotelian Commentary Series, da Dumb Ox Books. A Ética a Nicômaco fica ainda mais clara quando a estudamos com os comentários do maior teólogo da Igreja. Ninguém precisa temer que São Tomás misture teologia com filosofia nesse livro porque ele é muito fiel a Aristóteles durante todo o livro, só corrigindo o filósofo grego em algumas pequenas passagens. Em seus comentários, São Tomás ajuda a tornar mais claros os conceitos aristotélicos sobre diversos temas. Como já havia lido a Ética duas vezes antes dessa versão, achei surpreendente como o pensamento de Aristóteles ficou mais límpido e verdadeiro com a ajuda de São Tomás. Não há críticas às passagens originais do filósofo grego fazendo um contraponto a elas com elementos da Bíblia. A Ética a Nicômaco serviu desde então como a base da ética ocidental junto com a moral da Bíblia e dos Evangelhos.

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Resenha: Édipo Rei, de Sófocles

Oedipus_and_the_Sphinx

Édipo Rei é a peça que simboliza toda a beleza e a força do teatro grego da Antiguidade. Diversas interpretações dessa tragédia foram feitas, uma delas virou um dos símbolos da psicanálise, como o famoso Complexo de Édipo. Aristóteles em sua Poética considerou o personagem principal como uma representação do meio de produzir terror e compaixão. Édipo Rei pode ser analisado segundo as ideias de Aristóteles na Poética.

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Um pensamento de São Tomás de Aquino sobre a razão e o intelecto

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Na questão 51, artigo 2, do volume IV da Suma Teológica, São Tomás pergunta se existem hábitos causados por atos. Ele responde que sim, existem hábitos causados pelos hábitos. A razão é que “os atos multiplicados geram na potência passiva e movida uma quantidade que se chama hábito. Desse modo é que os hábitos das virtudes morais são causados nas potências apetitivas, enquanto movidas pela razão, da mesma forma como os hábitos das ciências são causados no intelecto, enquanto este é movido pelas proposições primeiras”.

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Análise do poema de Camões ” Transforma-se o amador na cousa amada”

Eros e Psique 2

Transforma-se o amador na cousa amada,
por virtude do muito imaginar;
não tenho, logo, mais que desejar,
pois em mim tenho a parte desejada.

Se nela está minha alma transformada,
que mais deseja o corpo de alcançar?
Em si somente pode descansar,
pois consigo tal alma está ligada.

Mas esta linda e pura semidéia,
que, como um acidente em seu sujeito,
assim como a alma minha se conforma,

está no pensamento como idéia:
[e] o vivo e puro amor de que sou feito,
como a matéria simples busca a forma. [Read more...]

A Vida Contemplativa ( Bios Theoretikos ) como a Suprema Felicidade em Aristóteles

vida contemplativa

A vida contemplativa sempre foi vista pela igreja católica como sendo superior à vida ativa; isso até a revolução do século XVI destruir essa noção do trabalho do intelecto como possuindo um valor maior do que a técnica. Hoje em dia nossa sociedade despreza as disciplinas de humanas como a filosofia, a história, a pedagogia e as letras. Isso é um grande erro porque aparentemente esses estudos não perecem ter maior importância em um mundo de técnicos e engenheiros, no entanto, como demonstrou Otto Maria Carpeaux, quando um ditador toma o poder, a primeira coisa que ele faz é dominar a filosofia e a história nas universidades, deixando a engenharia e as ciências biológicas mais ou menos intocadas.

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A Natureza da Physei Dikaion em Aristóteles

Aristoteles

Essa discussão a respeito do que é justo por natureza se encontra no livro V da Ética a Nicômaco (1134 a). Nesse ponto, Aristóteles trata do que é justo de maneira geral e o  que é justo politicamente. Ele estabelece uma distinção entre esses dois modos de justiça. O que é justo incondicionalmente não é a mesmo que o justo politicamente, porque nesse último caso a justiça só pode ser alcançada entre homens iguais e livres, de forma que entre os desiguais não pode haver uma justiça política, mas somente em sentido especial, de acordo com Aristóteles. Na visão política do filósofo grego, não é possível que um homem governe, mas a lei, porque diferente dessa forma só pode nascer a tirania. A justiça política não existe na relação entre senhor e escravo e de um pai para filho, porém, Aristóteles reconhece que possa existir um tipo de justiça na relação entre marido e mulher, mas não a justiça política.

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Resenha da Ética a Nicômaco de Aristóteles

Etica a Nicomaco

Quando passei a me interessar por filosofia, esse foi um dos primeiros livros que li, junto com as confissões de Santo Agostinho. A Ética a Nicômaco é uma das bases da nossa civilização, e foi muito utilizada por São Tomás de Aquino na sua Suma Teológica.

Aristóteles tinha como objetivo ao elaborar a sua ética  formar o homem magnânimo, ou maduro ( Spoudaios). Esse homem que atingiu um nível em que permite que ele esteja acima das críticas e difamações do qual é alvo. O homem maduro é aquele que vive uma vida teórica, ou contemplativa ( Bios Theoretikos), da mesma forma que sabe usar seus bens para ajudar aos amigos, de maneira que seu dinheiro seja utilizado sem excesso, ao mesmo tempo em que evita-se a avareza.

O Estagirita não conhecia a virtude teologal da caridade, mas o ideal de seu homem magnânimo chegou perto disso. Outra virtude que esse homem precisa ter é a de possuir amigos, sem o qual é impossível ser feliz e que também torna muito difícil a prática da virtude. Amigos são necessários para que nossa inteligência funcione melhor, e também para que tenhamos um companheiro nos momentos de adversidade. A vida sem amigos torna nossos bens e conhecimento em algo estéril, porque o homem na concepção aristotélica é um animal político ( Zoon Politikon), e aquele que vive sozinho para o filósofo grego só pode ser um deus ou um animal.

Platão não elaborou uma ética como Aristóteles, portanto, o estagirita nos fornece um guia mais seguro de como devemos agir. E como devem ser nossas ações, segundo Aristóteles? A resposta é que o homem deve buscar o meio termo em sua vida prática. Por exemplo: a coragem é o meio-termo entre a covardia e a temeridade, pois que o verdadeiro homem deve naturalmente temer a desonra, a desgraça da mulher e dos filhos, assim como a prisão e os castigos corporais. Mas a covardia também é um erro grave, porque devemos estar preparados para enfrentar as adversidades da vida, e também utilizarmos nossas forças para defendermos nossa nação, família e amigos.

Aristóteles chegou perto da virtude cristã da esperança, porque diz que o homem deve suportar as inevitáveis desgraças que nos ocorrem. O suicídio é fortemente condenado pelo filósofo grego como um ato que vai contra a vida em comunidade, e um desprezo à cidade. Aristóteles diz que um homem naturalmente deseja o seu próprio bem, e não pode ser injusto consigo mesmo, portanto o suicídio é uma afronta aos outros homens da Pólis, pelo fato de que o desesperado em sua mente rejeita o auxílio que a comunidade poderia lhe oferecer. São Tomás de Aquino vai utilizar esse mesmo argumento contra o suicídio, apenas acrescentando que isso é um pecado contra Deus.

Nós então chegamos à grande questão: é possível o homem ser feliz nesse mundo, e qual é o tipo de vida que mais proporciona a felicidade aos homens? Aristóteles, sem conhecer a vida futura e o pecado original, diz que sim, podemos ser felizes nesse mundo, para isso devemos ter saúde, um mínimo de bens, já que o homem sem dinheiro não pode exercer a virtude com o próximo, e também amigos. A vida mais feliz para os homens é a vida contemplativa ( Bios Theoretikos), que Aristóteles considera como a mais desejada pelos deuses. A contemplação da verdade é o ponto máximo que o homem pode atingir nesse mundo. Sem conhecer à revelação cristã, Aristóteles foi o filósofo que mais se aproximou da ética do Cristianismo, e seu ideal de que a contemplação de Deus é aquilo que o homem mais pode desejar em sua curta existência.

São Tomás de Aquino-Comentário à Ética a Nicômaco

A Ética de Aristóteles, assim como outras das suas principais obras como a Política, a Metafísica etc, foram comentadas no final da vida de São Tomás. Lamentando que esse livro ainda não tenha uma tradução para a língua portuguesa, tive que lê-lo na versão inglesa da Aristotelian Commentary Series, da Dumb Ox Books. A Ética a Nicômaco fica ainda mais clara quando a estudamos com os comentários do maior teólogo da Igreja. Ninguém precisa temer que São Tomás misture teologia com filosofia nesse livro porque ele é muito fiel a Aristóteles durante todo o livro, só corrigindo o filósofo grego em algumas pequenas passagens. Em seus comentários, São Tomás ajuda a tornar mais claros os conceitos aristotélicos sobre diversos temas. Como já havia lido a Ética duas vezes antes dessa versão, achei surpreendente como o pensamento de Aristóteles ficou mais límpido e verdadeiro com a ajuda de São Tomás. Não há críticas às passagens originais do filósofo grego fazendo um contraponto a elas com elementos da Bíblia. A Ética a Nicômaco serviu desde então como a base da ética ocidental junto com a moral da Bíblia e dos Evangelhos.

Um livro como esse deveria ter uma tradução em nosso país e também seria tema obrigatório em aulas de filosofia tanto no ensino médio como na universidade. Aristóteles ensina ao homem como tornar-se um homem de verdade, ou seja, aquele que controla os extremos de seus impulsos e age buscando o meio-termo. Apesar de reconhecer que os homens já venham com características de justiça e de bondade formados desde a sua infância, Aristóteles crê que a virtude possa e deva ser ensinada aos jovens para que cresçam no caminho da verdade. Com a ajuda do estudo da filosofia e da ciência política, um homem adulto saudável pode ser formado. Dessa maneira, o homem adulto busca a felicidade, mas na maioria das vezes a confunde com a acumulação de riquezas e poder, isso quando não cai em enormes vícios, pois identifica a felicidade com prazeres do corpo. A filosofia de Aristóteles define desde o princípio que a felicidade é adquirida pelo homem não como um bem que venha diretamente de Deus, ” mas que vem até o homem pela virtude e exercício, mesmo assim teria que ser julgada como algo divina. Porque a recompensa e o fim da virtude é aparentemente a mais excelente, divina e abençoada”(1099b14-18). Um homem só pode ser feliz com um mínimo de bens materiais ( não precisa ser rico, mas também não deve ser pobre), daí que Aristóteles diga em sua Política que o objetivo do governante ao criar uma cidade feliz seja a de ter uma maioria da população na classe-média. O homem também precisa ter amigos na justa medida, uma vez que somente aduladores são amigos de todos, no entanto não pode viver solitário, pois essa é uma vida considerada bestial pelo filósofo grego. Ter saúde física e não possuir nenhum filho, parente ou amigo caído em desgraça também é um requisito para a felicidade. Para o homem que governa, o estudo da alma humana é necessário, porque “nós chamamos virtude àquilo que é próprio não do corpo mas da alma. Dessa forma, nós dizemos que a felicidade é uma atividade da alma”. Aristóteles acredita que o governante precisa saber ciência política- que é mais importante que a medicina- para estudar e curar a alma da população(1102a13-23). A virtude moral é causada pelo hábito e deve ser colocada em prática. Uma filosofia moral puramente teórica produz homens com almas doentias(1105b12-18). Toda a Ética de Aristóteles busca formar o homem magnânimo ( SPOUDAIOS), que é aquele que se julga merecedor dos maiores bens. Diz Aristóteles: ” Mas o homem magnânimo digno dos maiores bens seria o melhor. Desde que a melhor pessoa é digna de grandes coisas, a melhor de todas  será digna do que há de melhor. Dessa forma, a pessoa magnânima deverá ser verdadeiramente boa”. O homem que deverá no final do livro viver uma vida verdadeiramente feliz, que é a vida teórica, também deverá possuir virtudes intelectuais como a prudência e a sabedoria. O homem sábio, diz Aristóteles, ” deve saber não apenas as conclusões tiradas dos princípios, mas deve declarar a verdade a respeito dos princípios. Então a sabedoria será uma combinação de entendimento e ciência”( 1141a16-19). Diz São Tomás em seu comentário que esse homem deve agir como um filósofo que sabe “que como as noções comuns são conhecidas, os princípios das demonstrações são claros. Então a preocupação desse homem é de argumentar contra aqueles que negam os princípios, como é evidente no quarto livro da Metafísica”. O homem que possui todas essas qualidades enumeradas por Aristóteles pode alcançar o verdadeiro estado de felicidade nessa vida que é a de viver uma vida teórica ( BIOS THEORETIKOS). Como diz São Tomás em seu comentário, a vida do intelecto é a melhor. Uma vida de prazeres corporais é indigna do homem, pois o corpo não pode alcançar a compreensão das coisas divinas, uma vez que isso só pode ser feito pelo intelecto. Aristóteles acreditava que o intelecto não é divino em si mesmo, mas que é a coisa mais divina no ser humano. A contemplação, diz Aristóteles, não é afetada pela fadiga do corpo da mesma forma que uma vida ativa, portanto o homem pode perseverar mais na atividade contemplativa mais do em qualquer outra. São Tomás diz : “na contemplação da verdade a filosofia oferece prazeres maravilhosos tanto em pureza quanto em permanência. A pureza desses prazeres são percebidas nisso: eles lidam com objetos imateriais; sua permanência naqueles objetos não são passíveis de mudança.” Para terminar essa resenha, cito mais um comentário de São Tomás a respeito da felicidade que o homem pode alcançar em vida através da contemplação da verdade. Segue o comentário:” mas é evidente que somente na contemplação da verdade( que o homem pode alcançar a felicidade), que é amada em si mesma e não por outra coisa. De fato, a contemplação da verdade não adiciona nada ao homem fora a si mesmo, mas a atividade externa assegura ao homem maiores ou menores benefícios além da ação como , por exemplo, honra ou os favores de outros; isso não é adquirido pelo filósofo através de sua contemplação, exceto incidentalmente, contanto que ele comunique a outros a verdade contemplada- algo que é agora uma parte de atividade externa. Dessa maneira é óbvio que a felicidade consiste na contemplação acima de tudo.”

Resenha da Política de Aristóteles

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A Política é a obra clássica para os conservadores, como é, no geral, a filosofia de Aristóteles. Mesmo que não acredite que suas ideias políticas foram criadas, como as de Platão, para que fossem colocadas em prática, nelas podemos vislumbrar muito do conservadorismo de Aristóteles. Como é comum em sua filosofia, ele sempre começa criticando as ideias dos outros para, a partir de aí, fazer uma tabula rasa e oferecer suas próprias ideias “superiores”. A polêmica principal é com Sócrates e a República de Platão. Aristóteles é anti-igualitário por excelência, e como ele toma Sócrates ao pé da letra, fica mais confortável para ele “refutar” suas ideias. Aristóteles parece muito incomodado com a igualdade entre homens e mulheres que permeia a filosofia de Platão. Se na República a escravidão desaparece, e volta (amenizada) nas Leis, Aristóteles a endossa com paixão. Todas essas opiniões, mesmo que não possam ser exageradas, revelam por detrás seu método indutivo. As impressões dos sentidos, as tradições e o senso comum, desprezados pela epistemologia platônica, têm muita força em Aristóteles. Para ele, como historicamente as mulheres forma declaradas inferiores, os escravos sempre existiram, e a relação entre os sexos parece assemelhar-se à dos animais, logo, portanto, cabe ao filósofo aceitar tudo isso. A Política de Aristóteles é, na verdade, um contraponto à República platônica inclusive com seu programa de educação colocado no final, que na verdade é muito inferior e bem menos detalhado que o de Platão.

Se o filósofo ateniense dizia que a cidade ideal deveria preocupar-se menos com o número de seus habitantes do que com uma limitação da propriedade privada, Aristóteles toma o caminho inverso, o que tem um sentido mais liberal/conservador moderno. A propriedade não deve ser limitada, mas a população, sim. Aristóteles afirma que o aborto deve existir para garantir uma população sadia e estabilizada. Suas ideias políticas são explicitamente hostis à mulher e aos escravos. Nada que seja diferente do que diz um Paulo, na Bíblia, mas é flagrantemente ultrapassado creio que até para os ouvidos dos platônicos de seu tempo, quiçá agora. Entretanto, como toma como base o senso comum, é bem parecido com a visão católica medieval de que alguns já nasceram para a servidão, enquanto outros para a oração. O feudalismo encontrou em Aristóteles um grande aliado, e ele, junto à redescoberta do Direito Romano, foram os responsáveis pela degradação dos direitos da mulher a partir do século XIII em diante. A historiadora francesa Régine Pernoud percebeu isso muito bem.

Aristóteles coloca como base de seu pensamento político e econômico sua busca pelo meio-termo tal como em sua Ética. A cidade deve buscar que a classe média floresça, porque a pobreza é fonte do mal e da revolução. A cidade deve ter um tamanho limitado e permitir que a vida teórica surja, pois, como sabemos, em sua Ética, Aristóteles afirma que a contemplação é fim último do ser humano. Aristóteles é hostil à Ideia de Bem como existe em Platão, por isso, como ele não acredita na igualdade entre os seres humanos, também não pode aceitar um Bem transcendental. Em sua cidade, cada homem deve buscar aquilo que lhe agrada e, em termos políticos, cada qual é como um bloco de pequenas ideais e motivações que, colocadas lado a lado, ajudam a formar o pensamento político da cidade. Isto é reflexo de sua teoria do conhecimento que vê na ciência a capacidade do homem de ajuntar blocos de informações que a natureza fornece. Obviamente, Aristóteles não crê que a exista um Bem que esteja acima de tudo. Em uma passagem traduzida por nós a partir do original em grego, esta opinião aristotélica pode ser aplicada à política:

πάντες άνθροποι τοΰ είδέναι όρέγονται φΰσει ερειδή ή γνώσις τελειότης έστί τής ψνχεης, κάϑολου της άπλως γιγνωσκύσης, μαλλον δέ της λογικες, καί τάυτης έστι μαλλον ης θεωρία τό θέλος, πασα δέ τέλειοτης εκαστου το εκάστου άγαθόν έν δέ τώ αγαϑω εκαστον έχει το είναί τε σώζεσϑαι, δία τουτο καϑολου επηγαγεν οτι παητες ανθροποι του ειδεναι όρέγονται φύσει.

“Todos os homens por natureza desejam saber” Aristóteles

Ou porque a perfeição está na alma, ou nada vem a ser conhecido, e isso provavelmente não é lógico, pois esta é a teoria extrema, uma vez que o bem de cada coisa está identificada em cada uma delas, e não pode ter tolhido do homem a busca do que sua natureza cobiça.

Alexandre de Afrodísias, Comentário à Metafísica de Aristóteles

Por isso também nosso filósofo devota tanto tempo em discussões sobre a arte de ganhar dinheiro e sobre o comércio. Quem já leu o Capital, de Karl Marx, sabe como o filósofo alemão viu em Aristóteles seu precurssor. Aristóteles, porém, dificilmente pode ser tomado como um antecessor de Marx não somente por seu conservadorismo, como também por sua epistemologia que vê na potência a fonte do mal. Por isso sua cidade, assim como sua epistemologia, não se preocupa com uma adequação para gerar ciência, mas para conservar, acumular dados e garantir uma ociosidade contemplativa. É um objetivo bem totalmente antiplatônico. Além do mais, a preocupação com o privado gerou uma atomização da sociedade em níveis alarmantes. Hoje, em nossa civilização, mesmo com incríveis misérias e uma grande urgência em debatermos sobre o bem comum, pessoas fazem filas para comprar os produtos mais estúpidos que se possa imaginar, enquanto ao lado alguém passa necessidades. No tempo de Platão, quando este tentou ensinar sobre o Bem fora de sua Academia, a população, no mais puro espírito filisteu de que somente o que é útil é bom, desprezou abertamente a aula de Platão porque esta versava sobre os bens transcendentais, e não sobre dinheiro ou prazeres.

Aristóteles jamais conseguiu compreender as conquistas de Alexandre. A cidade por ele imaginada é fechada em si mesma e hostil às influências estrangeiras. Trata-se de uma cidade que busca fornecer meios para que alguns obtenham um ócio contemplativo. Platão, pelo contrário, sabia que a História seguiria sua marcha. Seu modelo tal como explicado em seu diálogo Parmênides, da busca da unidade na multiplicidade, que foi colocado em prática pelas conquistas macedônias, e deu origem à cidade de Alexandria, para onde afluíram gregos, persas, judeus e muitos outros. É o império mundial de vários povos. Para concluir, podemos ver como até mesmo o princípio de não-contradição de Aristóteles influenciou sua política. Ele não pode admitir, pois trata-se de uma contradição, que uma coisa possa ser boa, ao mesmo tempo ruim. Para Platão, a democracia era a pior forma de governo entre as melhores; entretanto, entre as formas degeneradas de governo, a democracia era a que oferecia menos perigo. Aristóteles não consegue compreender isso.

Sobre a visão da cidade no Islamismo veja https://felipepimenta.com/2013/08/12/as-caracteristicas-da-polis-madina-no-isla-a-visao-de-al-farabi/