Resenha: O Amor e o Ocidente, de Denis de Rougemont

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Denis de Rougemont acreditava que o casamento vivia uma crise (no início do século XX) sem precedentes. Para ele, essa crise teria tido início séculos antes, e em seu livro O Amor e o Ocidente ele pretende apontar os culpados por ela.

Sua tese é sobre a antítese amor e paixão. O casamento, no Ocidente, teria funcionado relativamente bem ao menos até o século XII, pois até aquele momento estaria protegido sob as bênçãos do Ágape cristão. Para quem ler esta obra, essas minhas palavras não ficarão tão óbvias assim, pois o autor não nos explica como o casamento teria funcionado anteriormente. Temos a impressão que o auge desta instituição teria sido na Alta Idade Média, especificamente nos séculos VIII, IX e X, que reconhecidamente foi uma época de grande elevação moral, ao menos é que posso deduzir das ideias do autor. [Read more…]

Resenha: Político, de Platão

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Um dos grandes momentos da filosofia de Platão é a busca por uma definição do sofista, do político e do filósofo. Platão jamais escreveu um diálogo chamado de Filósofo, isso porque a definição de filósofo está já contida dentro do diálogo Sofista. No Político, o grande filósofo ateniense deseja ter um entendimento a quem caberia a arte de governar, o que permite uma articulação com seu diálogo A República. [Read more…]

A Marcha do Golpe em 2014

GOLPE MILITAR DE 1964 NO BRASIL- RESUMO_

Essa marcha pela família com Deus não passa de golpismo e histerismo. Qualquer tentativa de justificar uma revolta contra o governo por suas supostas simpatias pelo comunismo é puro reacionarismo. Não há por parte de Dilma qualquer ação que tenha como objetivo revolucionar as leis e ao Estado de direito. Eric Voegelin julgava necessário um golpe apenas quando o governante dizia-se enviado da História. John Rawls reconhecia que mesmo quando o presidente formula leis aparentemente injustas, a parte da população que se sente incomodada com tais leis não pode, por conta própria, dar início a uma revolução contra o governo. Para que uma marcha com essa intenção fosse válida, seus representantes teriam que demonstrar que Dilma está implantando uma real ditadura no Brasil, e já respondo que isso não é possível. O fantasma de um Terror Vermelho foi a desculpa que Hitler usou para tomar o poder na Alemanha, e com isso arrastou milhões de iludidos para o partido nazista- inclusive parte das igrejas católica e protestante. Percebo que muitos daqueles que aderiram ao medo do governo  petista no fundo não toleram uma população que vota em quem os desagrada, e acabam por demonstrar uma inegável nostalgia do governo militar. Esse governo funesto que dominou o Brasil por 21 anos foi o responsável por torturas, pelo aumento da violência, da favelização, pela destruição da escola pública (sim, os militares foram aqueles que formularam a tragédia educacional do Brasil); que não investiram nada nas universidades nem em escolas técnicas e que, por último,  deixaram um legado inflacionário e de endividamento que só agora foi controlado. Quem apoia essa marcha -que é golpista- tem a obrigação de provar que o governo atual não merece mais ser obedecido e justificar, filosoficamente e pelas leis, que ele merece ser derrubado. Se não for assim, que declarem abertamente que o que estão fazendo não é o mesmo processo revolucionário que julgam estar combatendo, apenas que o seu tem um lema diferente.

 

 A que vemos naquele que odeia em lugar de amar aquilo que julga ser nobre e bom, ao mesmo tempo que ama e acarinha o que julga ser mau e injusto. Essa falta de harmonia entre os sentimentos de dor e prazer e o discernimento racional é, eu o sustento, a extrema forma da ignorância e também a maior porque é pertinente à maior parte da alma, ou seja, aquela que sente dor e prazer, correspondente à massa populacional do Estado. Assim sempre que essa parte se opõe ao que por natureza são os princípios reguladores ( conhecimento, opinião ou razão), chamo essa condição de estultícia seja num Estado ( quando as massas desobedecem aos governantes e as leis), seja num indivíduo ( quando os nobres elementos racionais que existem na alma não produzem nenhum bom efeito, mas precisamente o contrário). todas estas eu teria na conta das mais discordantes formas de ignorância, seja no Estado ou no indivíduo, e não a ignorância do artesão, se é que me entendeis, estrangeiros.” (Platão, As Leis)

Resenha: Prometeu Acorrentado, de Ésquilo

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“Foi em sua juventude – a saúde estava queimando seu sangue e seus poderes cresciam dia a dia.

Então a arrogância de Prometeu falou completamente a Epimeteu, seu amigo e irmão:

Sejamos diferentes dos muitos que estão na multidão geral. Pois, se seguirmos nosso costume no exemplo comum, seremos uma recompensa comum e nunca seremos sanguinários e profundos.”

Carl Spitteler, Prometheus und Epimetheus (tradução nossa a partir do original alemão)

Es war in seiner Jugendzeit – Gesundheit rotete sein Blut und taglich wuchsen seine Krafte – . 
Da sprach Prometheus Obermutes voll zu Epi metheus seinem Freund und Bruder: 
Auf lass uns anders werden, als die Vielen, die da wimmein in dem allgemeinen HaufenI 
Denn so wir nach gemeinem Beispiel richten unsern Brauch, so werden wir gemeinen Lohnes sein und werden nimmer sptiren adeliges Gluck und seelenvolle

Carl Spitteler, Prometheus und Epimetheus (tradução nossa a partir do original alemão)
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A Tentativa de Imanentizar o Eschaton, por Eric Voegelin

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O filósofo alemão Eric Voegelin criou essa expressão na sua obra Nova Ciência da Política (Editora Universidade de Brasília, 1982). Na edição brasileira da Universidade de Brasília, ela é mencionada na página 92, no capítulo “gnosticismo- a natureza da modernidade”. Voegelin escreve: “o homem e a humanidade agora têm sua realização, mas ela está além da natureza. Mais uma vez, nesse caso, não há um eidos da história, porque a sobrenatureza escatológica não é uma natureza no sentido filosófico e imanente. Portanto, o problema do eidos na história só se põe quando a realização transcendental cristã é imanentizada. Contudo, tal hipótese imanentista do eschaton é uma falácia teórica. As coisas não são coisas, nem possuem essência, em virtude de uma declaração arbitrária. O curso da história como um todo não é objeto da experiência; a história não possui um eidos, e isso porque seu curso se estende ao futuro desconhecido. Assim, o significado da história é uma ilusão; e esse eidos ilusório é criado ao se tratar um símbolo de fé como se fosse uma proposição relativa a um objeto da experiência imanente.” [Read more…]

Resenha de A Nova Ciência da Política, de Eric Voegelin

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A Nova Ciência da Política, do filósofo alemão Eric Voegelin, toma como inspiração para seu título a obra de Giambattista Vico, Ciência Nova. Voegelin possuía um conhecimento monumental sobre a história do pensamento político não somente do Ocidente, mas também do Oriente. Admiro bastante este livro, mas não posso concordar com algumas conclusões às quais ele chega no final. Voegelin soube muito bem perceber todo o aspecto metafísico e cósmico das diferentes ideias políticas dos povos em todas as civilizações. Considero impressionante sua interpretação da simbologia e do impacto que tiveram, no Ocidente, das invasões mongóis e das campanhas de Tamerlão. Como ele mesmo viu, Weber soube detectar a influência do protestantismo no desenvolvimento do capitalismo, e o mesmo reuniu um enorme material sobre as diversas religiões do mundo; só que Weber não soube avançar para uma época fundamental da história do Ocidente, que foi a Idade Média, pois assim sua tese sobre o capitalismo seria refutada. Em minha opinião, Voegelin repetiu o erro, porém de forma diferente. Ele, ao invés de levar o argumento até às últimas consequências, introduz o tema do gnosticismo para desviar o foco do Cristianismo. A tese dele, que vai bem até certo momento, termina por descarrilar no fim. [Read more…]