Resenha: O Amor e o Ocidente, de Denis de Rougemont

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Denis de Rougemont acreditava que o casamento vivia uma crise (no início do século XX) sem precedentes. Para ele, essa crise teria tido início séculos antes, e em seu livro O Amor e o Ocidente ele pretende apontar os culpados por ela.

Sua tese é sobre a antítese amor e paixão. O casamento, no Ocidente, teria funcionado relativamente bem ao menos até o século XII, pois até aquele momento estaria protegido sob as bênçãos do Ágape cristão. Para quem ler esta obra, essas minhas palavras não ficarão tão óbvias assim, pois o autor não nos explica como o casamento teria funcionado anteriormente. Temos a impressão que o auge desta instituição teria sido na Alta Idade Média, especificamente nos séculos VIII, IX e X, que reconhecidamente foi uma época de grande elevação moral, ao menos é que posso deduzir das ideias do autor. [Read more…]

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Resenha: Político, de Platão

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Um dos grandes momentos da filosofia de Platão é a busca por uma definição do sofista, do político e do filósofo. Platão jamais escreveu um diálogo chamado de Filósofo, isso porque a definição de filósofo está já contida dentro do diálogo Sofista. No Político, o grande filósofo ateniense deseja ter um entendimento a quem caberia a arte de governar, o que permite uma articulação com seu diálogo A República. [Read more…]

Resenha: História das ideias políticas- Volume I, de Eric Voegelin

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Desde a Queda do homem toda filosofia ou teoria política pode visar apenas atenuar os efeitos da maldade e do egoísmo intrínseco à Humanidade. Essa foi a sábia conclusão a que chegou o pensamento cristão desde a Era Patrística. Toda solução política não é definitiva e está sujeita ao desastre pela própria imperfeição dos homens e mulheres. Mesmo Platão já havia fracassado em sua atividade política, e em seu diálogo A República fica claro que todo o filósofo deve exercer a política e a atividade educativa para ensinar ao povo o Bem contemplado após sua libertação da caverna. Isso implica que ele deverá enfrentar a incompreensão da sociedade e manterá sua alma tranquila para um possível sacrifício da sua própria vida por parte de quem tem o poder. Foi o que aconteceu com Sócrates. [Read more…]

Resenha: Ordem e História- Em busca da Ordem, de Eric Voegelin

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Último volume da grandiosa série Ordem e História, Em Busca da Ordem é um livro incompleto, pois Eric Voegelin morreu antes de terminá-lo. Ele pretendia terminar seu estudo da consciência e do simbolismo de algumas civilizações neste livro; junto a essa tarefa também está sua apreciação final da filosofia platônica e um estudo sobre Hegel. A História, para ele, é um movimento e um contramovimento entre o divino e o humano. A constante busca pela verdade pelas diversas civilizações e religiões sempre foi seu objeto de estudo. Voegelin reconhece que nossa experiência atual sobre os antigos símbolos da ordem está em declínio, e ele acredita que a busca pela verdade só terá valor se estiver harmonizada a partir de uma evocação pneumática da ordem a partir da desordem. Voegelin crê que aquele que busca a verdade deve buscar a ordem no tempo externo para que ele seja impelido a essa mesma ordem pela realidade divina fora do tempo. [Read more…]

A Marcha do Golpe em 2014

GOLPE MILITAR DE 1964 NO BRASIL- RESUMO_

Essa marcha pela família com Deus não passa de golpismo e histerismo. Qualquer tentativa de justificar uma revolta contra o governo por suas supostas simpatias pelo comunismo é puro reacionarismo. Não há por parte de Dilma qualquer ação que tenha como objetivo revolucionar as leis e ao Estado de direito. Eric Voegelin julgava necessário um golpe apenas quando o governante dizia-se enviado da História. John Rawls reconhecia que mesmo quando o presidente formula leis aparentemente injustas, a parte da população que se sente incomodada com tais leis não pode, por conta própria, dar início a uma revolução contra o governo. Para que uma marcha com essa intenção fosse válida, seus representantes teriam que demonstrar que Dilma está implantando uma real ditadura no Brasil, e já respondo que isso não é possível. O fantasma de um Terror Vermelho foi a desculpa que Hitler usou para tomar o poder na Alemanha, e com isso arrastou milhões de iludidos para o partido nazista- inclusive parte das igrejas católica e protestante. Percebo que muitos daqueles que aderiram ao medo do governo  petista no fundo não toleram uma população que vota em quem os desagrada, e acabam por demonstrar uma inegável nostalgia do governo militar. Esse governo funesto que dominou o Brasil por 21 anos foi o responsável por torturas, pelo aumento da violência, da favelização, pela destruição da escola pública (sim, os militares foram aqueles que formularam a tragédia educacional do Brasil); que não investiram nada nas universidades nem em escolas técnicas e que, por último,  deixaram um legado inflacionário e de endividamento que só agora foi controlado. Quem apoia essa marcha -que é golpista- tem a obrigação de provar que o governo atual não merece mais ser obedecido e justificar, filosoficamente e pelas leis, que ele merece ser derrubado. Se não for assim, que declarem abertamente que o que estão fazendo não é o mesmo processo revolucionário que julgam estar combatendo, apenas que o seu tem um lema diferente.

 

 A que vemos naquele que odeia em lugar de amar aquilo que julga ser nobre e bom, ao mesmo tempo que ama e acarinha o que julga ser mau e injusto. Essa falta de harmonia entre os sentimentos de dor e prazer e o discernimento racional é, eu o sustento, a extrema forma da ignorância e também a maior porque é pertinente à maior parte da alma, ou seja, aquela que sente dor e prazer, correspondente à massa populacional do Estado. Assim sempre que essa parte se opõe ao que por natureza são os princípios reguladores ( conhecimento, opinião ou razão), chamo essa condição de estultícia seja num Estado ( quando as massas desobedecem aos governantes e as leis), seja num indivíduo ( quando os nobres elementos racionais que existem na alma não produzem nenhum bom efeito, mas precisamente o contrário). todas estas eu teria na conta das mais discordantes formas de ignorância, seja no Estado ou no indivíduo, e não a ignorância do artesão, se é que me entendeis, estrangeiros.” (Platão, As Leis)

Resenha: Prometeu Acorrentado, de Ésquilo

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“Foi em sua juventude – a saúde estava queimando seu sangue e seus poderes cresciam dia a dia.

Então a arrogância de Prometeu falou completamente a Epimeteu, seu amigo e irmão:

Sejamos diferentes dos muitos que estão na multidão geral. Pois, se seguirmos nosso costume no exemplo comum, seremos uma recompensa comum e nunca seremos sanguinários e profundos.”

Carl Spitteler, Prometheus und Epimetheus (tradução nossa a partir do original alemão)

Es war in seiner Jugendzeit – Gesundheit rotete sein Blut und taglich wuchsen seine Krafte – . 
Da sprach Prometheus Obermutes voll zu Epi metheus seinem Freund und Bruder: 
Auf lass uns anders werden, als die Vielen, die da wimmein in dem allgemeinen HaufenI 
Denn so wir nach gemeinem Beispiel richten unsern Brauch, so werden wir gemeinen Lohnes sein und werden nimmer sptiren adeliges Gluck und seelenvolle

Carl Spitteler, Prometheus und Epimetheus (tradução nossa a partir do original alemão)
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Resenha: A Era Ecumênica, de Eric Voegelin

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A Era Ecumênica é o volume mais difícil de ser compreendido de toda a série Ordem e História. O filósofo Eric Voegelin teve que rever a sequência da história da Ordem na Antiguidade pois novos temas se apresentaram. Como nos três primeiros livros da série havia um estudo de Israel e do mundo grego, em a Era Ecumênica, Voegelin apresenta-nos às civilizações do ecúmeno, que viriam a suceder às civilizações cosmológicas do Egito e da Babilônia. Os novos impérios ecumênicos da Pérsia, de Alexandre e de Roma vão fundar um novo tipo de império mundial que vai incluir novas religiões, conhecimentos geográficos e trazer um desafio aos filósofos e fundadores de religiões que, a partir desse momento, vão esforçar-se por incluir em seus sistemas toda a humanidade. São citados como exemplos dessa mentalidade ecumênica os profetas Mani e Maomé. Ambos tinham a visão de que o que vinha anteriormente a eles era válido, porém estava destinado a apenas uma parte da humanidade. Mani e Maomé viriam, portanto, como mensageiros destinados a levar sua mensagem a todo globo, seja por meio de incansáveis viagens, como no caso de Mani, seja por meio da expansão violenta, como foi no caso de Maomé. A base do pensamento de Voegelin nesse livro é o conceito do Apeiron (ἄπειρον) de Anaximandro, que o filósofo alemão vê refletido na obra de Heródoto já na Antiguidade. Heródoto escreve em sua História que Creso deu um conselho a Ciro, imperador persa, ” que existe no mundo uma roda dos assuntos humanos que, girando, não permite que o mesmo homem prospere para sempre”. O ἄπειρον , nas palavras de Voegelin, promove a tensão da vida e da morte. . Platão escreve nas Leis que o mundo atual é resultado de catástrofes cósmicas nas quais apenas uns poucos sobreviveram. O filósofo grego rejeita nesse diálogo a proposta de Protágoras de que o homem é a medida de todas as coisas, e escreve em seu lugar que “Deus é o verdadeiro governante dos seres humanos que possuem nous“. O nous ( inteligência) é muito citado por Voegelin em todas as suas obras, porque ele foi considerado  um filósofo da consciência O nous e o Apeiron são vistos como um modo de equilibrar-se a imortalidade e a mortalidade. Nas palavras de Voegelin ” o ser humano somente pode imortalizar-se quando aceita o fardo apeirôntico da mortalidade”. Quando Platão colocou o centro da realidade na revelação do nous, terminou por aproximar-se do Logos cristão. Essa é a verdadeira vida da razão, segundo Eric Voegelin.  Em a Era Ecumênica, Eric Voegelin não deixa de fazer suas recorrentes e importantes críticas a Comte, Hegel e Marx. O motivo é que todos esses três pensadores acreditavam que a história tinha o seu fim no tempo deles. Hegel, principalmente, acreditava que era o único homem e que a história acabava nele. Todos eles eram imanentizadores e inimigos da transcendência. Marx queria pegar a história em suas mãos e transformá-la, mesmo sabendo que isso teria um custo enorme de sangue humano. Como demonstrou Voegelin, o fim do mundo (Eschaton) sempre foi uma tentação ao longo do pensamento cristão, que atormentou pessoas como São Paulo e Joaquim de Fiore. O que podemos entender desse livro extremamente difícil, é que todos os impérios cosmológicos ou ecumênicos estão destinados à destruição. Toda a tentativa de deter a história e o ἄπειρον terminarão em fracasso- isso quando não produzirem extermínio em massa. Voegelin não fala sobre isso no livro, mas com a passagem dos séculos e dos impérios, o que permanece é o nous, a revelação e o mistério da Encarnação de Cristo.

 

Resenha: O Mundo da Pólis, de Eric Voegelin

O Mundo da Pólis

A série Ordem e História de Eric Voegelin é bastante desafiadora para quem a lê. Depois de haver analisado Israel em seu primeiro volume, Voegelin faz um estudo sobre alguns personagens que ajudaram a definir a mentalidade grega. Ele primeiro escreve sobre os poetas Homero e Hesíodo, que representam uma primeira fase do pensamento grego, que é o mítico. Eu particularmente achei o estudo sobre Hesíodo mais interessante. A parte sobre Homero pode ser complementada com a opinião de Giambattista Vico em sua Ciência Nova. Sobre o poeta grego, Voegelin escreve em detalhes a respeito da personalidade de Aquiles como definida por Homero. A parte seguinte fala sobre o amor entre Páris e Helena, visto pelo filósofo alemão como o início da desordem. Páris está cego pelo domínio em sua alma do Eros, sendo essa uma das metáforas utilizadas por Homero para demonstrar a presença do mal. Isso vai fazer com que Homero passe a ensinar aos gregos que o mal está no homem, e não nos deuses. Como define Voegelin: ” é o homem, e não os deuses, o responsável pelo mal. Na prática, esse hábito é perigoso para a ordem social. Os delitos serão mais facilmente cometidos caso se possa transferir a responsabilidade aos deuses. Historicamente, uma ordem civilizacional está em declínio e irá perecer se esse hábito obtiver aceitação geral.”

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Resenha: Israel e a Revelação, de Eric Voegelin

Israel e a Revelação

Primeiro livro da série Ordem e História, Israel e a Revelação faz uma avaliação das civilizações do Oriente próximo e do Egito através de seus símbolos cosmológicos. Todos esses povos possuíam uma elaborada mitologia que garantia a ordem de sua sociedade na figura de seu governante, seja na Assíria ou no Egito.

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Resenha do livro Anamnese, de Eric Voegelin

Anamnese

Anamnese é um livro muito rico e exuberante, que exige do leitor um vasto conhecimento filosófico e histórico. O título do livro vem do grego, sendo um conceito criado por Platão, que significa trazer à memória o conhecimento perdido. Voegelin parece ser ao mesmo tempo um filósofo da história e um filósofo da consciência. O livro é dividido em capítulos que aparentemente não estão relacionados, pois em um é apresentada a crítica do autor à fenomenologia de Husserl, em outro uma discussão sobre a historiogênesis dos mitos egípcios, sumérios, gregos e israelitas. Em um desses capítulos está o título do livro, porque nessa parte Voegelin relembra acontecimentos de sua infância que ajudaram a formar sua consciência.

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