Resenha: A Imagem Proibida- Uma História Intelectual da Iconoclastia, de Alain Besançon

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Considero a estética um dos temas mais apaixonantes da filosofia, e a história da arte no mundo ocidental -e de como ela pôde desenvolver-se apesar da proibição bíblica- um tema especialmente rico em alguns desdobramentos. Geralmente ouvimos muito essa palavra “iconoclastia”, mas poucos sabem o que ela representa exatamente, e as consequências que ela gerou para algumas das grandes civilizações. O livro de Alain Besançon A Imagem Proibida- Uma História intelectual da Iconoclastia é uma ótima referência para o estudo do movimento iconoclasta, desde algumas ideias anteriores à famosa revolta em Bizâncio, até seus reflexos nos dias atuais. [Read more…]

Resenha: A era de T.S.Eliot, de Russell Kirk

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T.S. Eliot não foi somente um dos grandes poetas do século XX e da língua inglesa, mas também um conservador no melhor sentido da palavra e um ser humano excepcional. Sua história é narrada por um dos expoentes do conservadorismo norte-americano, Russell Kirk, que além de conhecer profundamente a obra do poeta, também conheceu Eliot pessoalmente. Isso garante ao livro uma grande sinceridade tanto nos elogios como igualmente na defesa que o autor faz das crenças de Eliot contra os ataques da esquerda política. [Read more…]

Resenha: Curso de Estética- O Sistema das Artes, de G.W.F.Hegel

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O curso de Estética oferecido por Hegel na Universidade de Berlim no fim de sua vida transformou-se em referência para quem quer estudar esse tema. Aqui nessa edição da Martins Fontes, o curso está dividido em duas partes: a primeira é o Belo na Arte; a segunda, para a qual estou fazendo essa resenha, tem o título de O Sistema das Artes. Esses dois livros não foram escritos pessoalmente por Hegel, mas foram seus alunos que tomaram nota de suas aulas e depois transformaram em livro. Isso explica o porquê da linguagem ser bem mais acessível do que a dos outros livros desse filósofo. [Read more…]

Resenha do filme A Guerra do Fogo ( 1981), de Jean-Jacques Annaud

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A guerra do fogo é um filme único em termos de fotografia e estética. Não me lembro de nenhum filme que seja parecido com esse. Assisti A Guerra do Fogo quando estava na quinta e na sexta série, isso há mais de 20 anos. Lembro-me que todos nós ficamos constrangidos e, ao mesmo tempo achamos graça em uma cena logo no início em que um jovem Neanderthal vê uma mulher de quatro lavando a roupa em um rio e corre desesperadamente para fazer sexo com ela.

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Resenha de Crime e Castigo, de Dostoiévski

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Crime e Castigo é um dos maiores romances da história e tem como uma característica o fato de ser um livro que reproduz a angústia psicológica de um personagem que desde o início já sabemos ser um assassino. O estilo de Dostoiévski é inconfundível, já que ele reproduz os pensamentos e as dúvidas mais íntimas dos personagens. O romance começa narrando a história de Raskólnikov, um estudante que vive de aluguel em um pequeno apartamento, no qual ele tem cada vez mais dificuldade em honrar seu compromisso . Raskólnikov ganha dinheiro fazendo pequenas traduções, no entanto, vive à beira da miséria. Como é um jovem muito neurótico e introspectivo,o estudante ( na verdade ex-estudante) durante seus vários momentos ociosos formula uma tese que pensa ser original: homens como César e Napoleão foram responsáveis por milhares de mortes, entretanto, foram considerados pela história como grandes heróis e conquistadores. Por que Raskólnikov pensa dessa maneira? Porque ele se vê oprimido pela velha- que no livro simboliza o capitalismo  devastador que  Dostoiévski tanto odiava.

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Resenha da Introdução às Artes do Belo, de Etienne Gilson

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A Arte e a Filosofia
O excelente filósofo tomista Étienne Gilson propõe o que é filosofar sobre a arte. O que é uma coisa bela? Uma condição obrigatória é de que o objeto seja inteiro, que não falte nele nenhuma parte, ou seja, que ele seja perfeito. Ele é perfeito na medida em que é em ato e não apenas em potência. Belo para Gilson é aquilo que Santo Agostinho denomina de Claritas( o brilho) que retêm o olhar e aumenta a percepção da beleza.

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Gilson escolhe dois nomes para simbolizar a concepção ocidental de mundo: Platão, o qual Gilson considera que vivemos em uma era de antes e depois da filosofia platônica, e Nietzsche, que iniciou uma revolução contra o universo na qual não há lugar mais para o homem. Nietzsche representa a revolta contra o mundo cristão e platônico, pois Nietzsche quer fazer do homem senão vontade, liberdade e poder. Para Gilson, Nietzsche quer se libertar do ÁNTHROPOS THEORETIKÓS, o homem contemplativo.

Depois de a pintura ter alcançado o auge no fim da idade média e no renascimento, com uma perfeita imitação da natureza, o que restou de tais conquistas, pergunta Gilson. O homem moderno revoltou-se contra essa concepção, e fez-se um Demiurgo, que contrário ao de Platão, não precisa de modelos inteligíveis e racionais para criar a sua arte.

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Gilson discutirá ainda a distância que existe entre a filosofia e a arte. Ele alerta que essa distância é perigosa pois um homem que se engana sobre si mesmo pode muito bem enganar-se sobre Deus.
O cristianismo irá influenciar muito a arte com a sua noção de criação. Para Platão, o Demiurgo não é um o mais importante na sua filosofia, mas a Ideia do bem que nada faz. O primeiro motor de Aristóteles também nada cria.

Durante séculos o cristianismo buscou conciliar a sua visão de criação com a filosofia grega. Só conseguiria isso no século XIII, com Santo Tomás de Aquino e sua filosofia, em que Deus exerce sua atividade criadora a todo momento.

Creio que faltou nessa obra de Gilson um aprofundamento maior sobre essa revolta da arte moderna contra a ideia cristã de criação e sua noção de uma arte que buscasse a transcendência. Faltou também um maior destaque à escolástica e sua estética. Santo Tomás de Aquino foi citado poucas vezes, o que me decepcionou um pouco. Mas Gilson foi um dos maiores divulgadores da filosofia Tomista e por isso vale a pena comprar esse livro.

Análise das Pinturas de Bruegel

Bruegel

A beleza das paisagens e da vida camponesa
Sabe-se pouco sobre a vida de Pieter Bruegel, mas a genialidade e beleza de seus quadros é indiscutível.

Vamos analisar alguns de seus principais quadros.

 

 

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A torre de babel é de um detalhamento assombroso. Podemos ver os operários trabalhando e os guindastes erguendo as pedras da construção, que nos dá uma amostra da tecnologia da época.  “Nesses quadros, Bruegel mostra as obras de construção não como um acontecimento longínquo, mas como um empreendimento contemporâneo. O fato da pintura retratar a Torre perto de um rio é porque Brugel sabia que o transporte de grandes mercadorias como as pedras eram feitas por via fluvial. A Torre é o símbolo cristão de orgulho.”¹

 

 

 

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Brincadeiras de crianças nos mostra como era ser criança na época do Renascimento. Ali estão representados diversos brinquedos da época, mas as crianças são pintadas como mini-adultos, como era a visão daquela civilização.” Crianças não eram tidas como importantes para a arte ocidental nem para o pensamento ocidental.”Podemos interpretar esta obra como um aviso para que os adultos não desperdicem a vida como se fosse uma brincadeira de criança.”²

Uma outra interprtação é que esse quadro demonstre um início de preocupação pela criança. A infância nasce com o surgimento dos livros impressos, pois esse fato gerou a necessidade de uma educação em um ambiente escolar para as crianças do período, segundo Neil Postman em sua obra O Desaparecimento da Infância. Como na Idade Média não havia separação entre o mundo adulto e o mundo infantil, com o surgimento do livro impresso e da escola, o despertar da criança foi possível.

 

 

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Os provérbios holandeses é o seu quadro mais famoso. São mais de 100 provérbios ali representados e pintados como uma técnica que impressiona. Na Idade Média, boa parte da educação popular era feita pela memorização de provérbios, já que as escolas eram raras. ” A maior parte dos provérbios retratados por Bruegel reproduz cenas de atitudes insensatas, e demonstram o olhar céptico do pintor sobre seus contemporâneos.”³

 

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Em o triunfo da morte a paisagem é desolada; a morte segue seu caminho levando embora com ela todos os personagens da paisagem. Ninguém consegue escapar dela. No tempo em que Bruegel vivia, a vida era muito instável e a morte poderia vir a qualquer momento. ” No século de Bruegel, explorou-se a superfície da Terra, desenhou-se um novo mapa do céu, estudou-se o corpo humano e catalogou-se o mundo animal e vegetal. Apesar de todos esses avanços científicos, os homens daquela época também acreditavam que os demônios também faziam parte da natureza.Atribuíam fenômenos celestes, malformações, doenças e epidemias à influência do Diabo. O século XVI foi o século da caça às bruxas.” 4

 

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O seu quadro recenseamento em Belém retrata as figuras bíblicas da virgem Maria e São José que passam quase despercebidas. Ao fundo as crianças brincam na neve com um pião e um trenó. Maria, vestida de túnica azul, com José à frente, caminham em uma paisagem rural. ” Aparentemente a cena não parece de um recenseamento, mas sim a de cobrança de impostos. A águia de duas cabeças dos Habsburgos, que aparece sobre o brasão ao lado da janela, mostra por conta de quem se agia.”5

 

 

 

Caçadores na neve

 

Na sua linda pintura os caçadores na neve são exibidas figuras de preto, o que dá um contraste magnífico com o branco da neve. “As sombras faltam, o Sol já se pôs ou está mascarado por uma espessa camada de nuvens. A neve cobre o solo e a vegetação rasteira, em último plano erguem-se os cumes gelados. Duas cores frias dominam o quadro, o branco da neve e o verde azulado pálido do céu e do gelo. Tudo o que é vivo é representado por uma cor escura, o que reforça a ideia de desolação.” 6 Nessa pintura alguns cientistas puderam ter a prova do início de uma pequena idade do gelo que começou no século XVI.

Peter Bruegel, A Ceifa do Feno, c. 1565

 

 

 

 

Bruegel foi um grande pintor dos meses e estações do ano. Em a ceifa, podemos ver a colheita do trigo, com alguns homens e mulheres comendo e outros dormindo. O dia está claro e a paisagem exibe tranquilidade.” Aqui a gama de tons é mais rica. O branco só é usado para o cavalo e as roupas. Para representar o verão, Bruegel desenha uma paisagem variada com colinas e vales. Ele serve-se de personagens para caracterizar as estações: os caçadores fatigados, de ombros caídos, voltam as costas ao espectador- três jovens apanhadoras de ervas caminham em um passo alegre sob o olhar de quem vê o quadro. Se juntarmos o grupo das mulheres e dos transportadores de cestos, somos quase tentados a pensar em uma figura de dança.”7

Pieter-Bruegel-The-Elder-The-Gloomy-Day

 

 

 

 

Essa tranquilidade está ausente no seu quadro O Dia Sombrio. O inverno chegou, as nuvens são ameaçadoras e o mar está agitado.” Esse mês representa o carnaval em Fevereiro. Dois homens cortam e atam em feixes os rebentos de salgueiros, uma atividade típica do inverno. Um deles usa uma coroa de papel, que alude à festa da Epifania.”8

 

Casamento

 

 

A vida camponesa é mostrada em A Ceia de Casamento, que é um dos primeiros quadros que mostram pessoas comuns comendo com uma volúpia que era evitada nos quadros da época. Na Idade Média, a comida era tida como algo de uma importância que o homem moderno não consegue imaginar. Os banquetes eram tidos como um um acontecimento que todos tinham que participar. Os alimentos eram escassos em uma época de fome. Crianças e adultos se misturam nessa cena. A crescente separação entre o mundo infantil e o mundo adulto ainda levaria séculos para se impor entre os camponeses.

Bruegel sofreu óbvia influência de Hieronymus Bosch. Nos quadros desses dois artistas a ordem do universo e da natureza são invertidas e nada parece ser o que é. O mundo parece dominado pelo mal, a morte e o Diabo. Em termos de beleza, técnica e originalidade, eu creio que Bosch foi um pintor superior. Esses dois pintores são para quem gosta como eu desse mundo do fim da idade média e seus costumes e mentalidades.

Fonte: Bruegel- Obra completa de pintura.  Rose Marie e Rainer Hagen. Taschen, 1995

1. pág 17.

2. pág 33.

3. pág 34.

4. pág 39.

5. pág 47.

6. pág 63.

7. Ibid

8.pág 65.

Resenha de A Metafísica do Belo, de Schopenhauer

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Um verdadeiro curso de estética
A metafísica do belo compreende as aulas que Schopenhauer deu na universidade de Berlim em 1820, na mesma época em que Hegel dava aulas nessa universidade. As aulas ministradas por Schopenhauer ficavam com as salas de aula vazias, por causa disso ele desistiu de seguir carreira universitária desde então.

Schopenhauer parte do idealismo de Platão e Kant, considerados por Schopenhauer os dois maiores filósofos do ocidente. No idealismo de Platão, um cavalo que estivesse diante de nós não possuiria uma existência verdadeira, mas apenas um constante vir-a-ser. Somente a ideia daquele animal, que nunca veio-a-ser ,é o que importa. Portanto, é indiferente se o cavalo que temos diante de nós é esse cavalo ou seu ancestral que viveu séculos atrás. Unicamente a ideia do cavalo é objeto do conhecimento real. Para Kant, esse cavalo é apenas um fenômeno em relação ao nosso conhecimento e nunca a coisa-em-si.
Uma grande diferença entre Schopenhauer e Hegel é que Hegel é o filósofo da história, e Schopenhauer é a-histórico, pois para Schopenhauer a história é somente a forma casual do fenômeno da ideia. A história nada cria de novo e os papéis que os seres humanos exercem são sempre os mesmos. Não haveria assim um objeto final da história.

A satisfação estética para Schopenhauer é o estado do puro conhecimento destituído de vontade, que é o único que pode nos fornecer um exemplo da possibilidade de uma existência que não consiste no querer. É através da supressão do querer que o mundo pode ser redimido. A impressão do sublime pode ser despertada em locais onde a paisagem não fornece à vontade nenhum meio de se manifestar. É nessa ocasião que o sujeito pode contemplar a ideia. O homem nessa ocasião poderá sentir-se angustiado pelo pensamento de que um dia irá desaparecer. Mas Schopenhauer nos diz que essa é uma aparência enganosa, pois o mundo existe apenas na nossa representação. A grandeza do mundo e sua existência repousa na nossa consciência.

É tarefa da filosofia tornar claro que somos uma única e mesma coisa com o mundo: “ todas essas criações em sua totalidade são eu, e fora de mim não existe ser algum” ( Upanixade). Depois de dizer que todas as coisas são belas e demonstrar um otimismo prático, que muito recusam-se a reconhecer em sua filosofia, Schopenhauer reabilita a poesia e demonstra sua importância para a filosofia, criticando a famosa intolerância de Platão nesse assunto.

Schopenhauer discute o valor e a beleza de diversas artes como a arquitetura, no qual ele defende a arquitetura grega e critica a gótica, opinião essa na qual eu discordo pois considero a arquitetura gótica como a mais bela que existe; depois ele analisa a jardinagem, a pintura, que ele vê como a mais bela e correta a arte flamenga, criticando somente essa arte quando alguns pintores reproduzem imagens de comidas e bebidas diversas, pois isso produziria um desejo ou vontade no espectador.

Por fim, existe a música, considerada por Schopenhauer a melhor de todas as artes, pois assim como a filosofia, a música permite a alma penetrar na essência do mundo. Para quem gosta de estética e quer conhecer outras visões sobre a arte, recomendo o curso de estética: o belo na arte ,de Hegel, assim como a introdução às artes do belo, de Etienne Gilson.

Resenha do livro Arte e Beleza na Estética Medieval, de Umberto Eco

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A Beleza da Idade Média
Para começar, eu recomendo que se leia esse livro junto com o Outono da Idade Média, de Huizinga. Eco cita Huizinga que demonstra que os medievais convertiam rapidamente o sentimento do Belo com a pura e simples alegria de viver. O Belo deveria coincidir com o bom e o verdadeiro. Uma das crenças mais fortes da Idade Média era a da beleza e bondade do mundo e de todos os seres. A imagem do universo é cheia de luz. Os medievais baseavam-se no livro do Gênesis e o da Sabedoria.

Eco diz que a metafísica medieval irá refutar o gnosticismo demonstrando que a unidade, verdade e bondade não são valores acidentais, mas são inerentes ao ser em nível metafísico. Disso resultará que toda a coisa que existe é verdadeira e boa.

A escola de Chartres dirá que a natureza e não o número é que rege este mundo. Alain de Lille cantará:

Ó filha de Deus e mãe das coisas,
que manténs unidos e tornas estável o mundo,
gema para os homens, espelho para os mortais,
luz do mundo.
Paz, amor, virtude, governo, poder,
ordem, lei, fim, caminho, guia, origem,
vida, luz, esplendor, forma, figura,
regra do mundo.

O livro destaca uma das características mais notáveis da arte medieval: o gosto pela luz. Isso fará nascer a catedral gótica e seus magníficos vitrais e irá gerar uma das mais espetaculares invenções medievais: os óculos. Dirá Suger sobre a sua obra: ” e o que uma luz nova inunda, brilha como nobre obra”.

As grandes maravilhas da idade média, como suas catedrais românicas e góticas, suas cidades e pequenas vilas, sua arte e sua escultura, nos maravilham até hoje. A idade média produziu uma beleza e uma estética que eu considero a mais bela de todos os tempos. Tudo nos fala de fé, esperança, amor a Deus e combate ao mal, nos lembrando sempre que quem não combater irá se perder. A poesia medieval nos deixa o Lauda Sion, o Stabat Mater e o Dies Irae, e sua arquitetura criará cidades como York e Carcassone.

O alegorismo artístico de Van Eyck, os vitrais e das esculturas como o belo Deus de Amiens podem ser representadas novamente pela poesia de Alain de Lille:

Toda a criatura do mundo,
como se fosse livro ou pintura,
é para nós como um espelho.
Da nossa vida, da nossa morte,
da nossa condição, da nossa sorte,
fiel signo.

Essa beleza da idade média que nos atrai atá hoje é devido à sua proporção, como nos diz São Tomás: ” o belo consiste na devida proporção, pois nosso sentidos deleitam-se nas coisas bem proporcionadas”. O sentido como qualquer outra faculdade cognoscitiva é uma espécie de proporção. Três coisas são requeridas para serem consideradas belas segundo São Tomás: integridade, harmonia e clareza ou esplendor.

Por que Laocoonte não grita?

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Esse é um tema apaixonante, relacionado a uma das mais famosas esculturas gregas da antiguidade. É sobre a escultura de Laocoonte e seus filhos sendo devorados por serpentes marinhas. A questão filosófica que se coloca é: Por que Laocoonte não está gritando em sua representação na escultura? Johann Joachim Winckelmann escreveu que Laocoonte não podia gritar porque era um estóico, e que o fato dele agir conforme à natureza, era contrário à sua dignidade. Para ele, Laocoonte não grita pois é um mártir.

Gotthold Ephraim Lessing discorda de seu compatriota Winckelmann.Ele atribui o fato do personagem não gritar a um fato puramente estético, ou seja, um princípio artístico impede que o escultor reproduza o grito em sua obra. Outro fator seria que um ato passageiro não ficaria bem reproduzido em uma escultura, que é permanente e imóvel.

Arthur Schopenhauer critica à opinião dos dois outros filósofos, e propõe uma nova explicação. Para o filósofo idealista alemão, uma escultura não suporta a reprodução exata do grito, pois isso estaria fora de seu domínio. Laocoonte, na poesia e no teatro necessariamente deveria gritar, porque essas artes devem estimular à imaginação do leitor/espectador. Como o escultor não pode imitar o som do grito, teve que sugerir a expressão de dor no movimento do corpo e da face.

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Meu comentário

Na verdade, as três opiniões se complementam. A escultura não poderia mesmo reproduzir o grito, mas o autor sugere a dor pela expressão do rosto de Laocoonte. Pode ser que o personagem realmente tenha como filosofia de vida suportar a dor e o sofrimento, por isso não abre a boca para gritar. A opinião de Schopenhauer também está certa, porque na poesia, que pretende influenciar as emoções do leitor, Laocoonte realmente precisa gritar. No teatro, isso é indispensável, já que no teatro as emoções estão mais estimuladas do que em uma visão de uma escultura. É realmente estimulante pensar que Laocoonte fosse um estóico que suportava a dor por um ideal mais alto, mas essas são apenas especulações.

Essas três opiniões foram tiradas da obra de Schopenhauer O Mundo Como Vontade e Representação.