Por que Laocoonte não grita?

Schopenhauer Laocoonte

Esse é um tema apaixonante, relacionado a uma das mais famosas esculturas gregas da antiguidade. É sobre a escultura de Laocoonte e seus filhos sendo devorados por serpentes marinhas. A questão filosófica que se coloca é: Por que Laocoonte não está gritando em sua representação na escultura? Johann Joachim Winckelmann escreveu que Laocoonte não podia gritar porque era um estóico, e que o fato dele agir conforme à natureza, era contrário à sua dignidade. Para ele, Laocoonte não grita pois é um mártir.

Gotthold Ephraim Lessing discorda de seu compatriota Winckelmann.Ele atribui o fato do personagem não gritar a um fato puramente estético, ou seja, um princípio artístico impede que o escultor reproduza o grito em sua obra. Outro fator seria que um ato passageiro não ficaria bem reproduzido em uma escultura, que é permanente e imóvel.

Arthur Schopenhauer critica à opinião dos dois outros filósofos, e propõe uma nova explicação. Para o filósofo idealista alemão, uma escultura não suporta a reprodução exata do grito, pois isso estaria fora de seu domínio. Laocoonte, na poesia e no teatro necessariamente deveria gritar, porque essas artes devem estimular à imaginação do leitor/espectador. Como o escultor não pode imitar o som do grito, teve que sugerir a expressão de dor no movimento do corpo e da face.

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Meu comentário

Na verdade, as três opiniões se complementam. A escultura não poderia mesmo reproduzir o grito, mas o autor sugere a dor pela expressão do rosto de Laocoonte. Pode ser que o personagem realmente tenha como filosofia de vida suportar a dor e o sofrimento, por isso não abre a boca para gritar. A opinião de Schopenhauer também está certa, porque na poesia, que pretende influenciar as emoções do leitor, Laocoonte realmente precisa gritar. No teatro, isso é indispensável, já que no teatro as emoções estão mais estimuladas do que em uma visão de uma escultura. É realmente estimulante pensar que Laocoonte fosse um estóico que suportava a dor por um ideal mais alto, mas essas são apenas especulações.

Essas três opiniões foram tiradas da obra de Schopenhauer O Mundo Como Vontade e Representação.

Lenin na Usina Putilov

 

 

Essa é uma pintura de Isaak Brodsky, um dos representantes do realismo socialista. A cena se passa na usina de Putilov em 1917, quando Lenin fez ali um discurso para os trabalhadores em greve. A pintura reproduz bem a sujeira das chaminés e também o poder de atração dos discursos de Lenin. Esse foi um dos grandes acontecimentos da revolução de 1917.

A Anunciação, de Van Eyck (1434)

Um dos quadros mais belos de Van Eyck, a Anunciação tem todos aqueles detalhes realistas que Michelangelo tanto iria criticar na arte flamenga ( Ver Huizinga). A riqueza da roupa do anjo Gabriel é espantosa, assim como o detalhe das cenas bíblicas pintadas no chão. As figuras são desproporcionais ao tamanho da igreja, e a cena transmite muita fé, como o mundo do fim da Idade Média ainda exibia.

A arquitetura da igreja é Gótica. A cena exibe muita exuberância nas roupas do Anjo Gabriel e da Virgem Maria. Em frente à Virgem está um Missal. Essa reprodução dos personagens sagrados lendo um Evangelho ou um missal era algo que Van Eyck costumava fazer em suas pinturas.

São Tomás de Aquino diz que os alguns anjos são enviados a serviço e que isso procede do governo divino, já que o anjo está agindo em nome de Deus. O anjo quando age, não faz como o ser humano que perde sua capacidade contemplativa ao se ocupar de coisas exteriores, mas regula suas ações exteriores pela operação intelectual, segundo São Tomás. Ele ainda cita São Gregório, que dizia que “os anjos não saem para fora de modo a se privarem das alegrias da contemplação interior”.

Os anjos nos servem, segundo São Tomás, não porque sejamos superiores a eles, mas porque todo aquele que adere a Deus, torna-se um só espírito com Ele, por isso é superior a toda criatura.

Psyché, de Bouguereau

 

A alma, o objeto de estudo da psicologia foi muito bem reproduzida nessa pintura de Bouguereau, no qual uma mulher jovem e muito bonita está olhando para o alto, e com as mãos no peito, simbolizando recato. A beleza da alma humana é representada nessa pintura.

São Tomás de Aquino reproduz o pensamento de Santo Agostinho que dizia que a alma contém a mente, o conhecimento e o amor, que estão nela essencialmente.  Santo Agostinho acrescenta que a memória, a inteligência e a vontade são uma só vida, um só espírito e uma só essência.São Tomás nega que a essência da alma seja sua potência, porque a potência e o ato dividem o ente e qualquer gênero de ente, sendo preciso que um e outro se refiram ao mesmo gênero, de forma que se o ato não pertence ao gênero substância, a potência não pode pertencer a esse gênero. A operação da alma não se encontra no gênero substância, pois somente em Deus sua operação é sua substância, de forma que a potência divina é a essência mesma de Deus.

Que a essência da alma não seja sua potência também pode ser visto na alma, pois esta é ato. A alma enquanto forma não é um ato ordenado para um ato superior, mas é o termo último da geração. Se ela está em potência para outro ato, isso não lhe cabe por sua essência, enquanto é uma forma, mas por sua potência. A alma enquanto sujeito de sua potência é o ato primeiro, ordenada para  um ato segundo. Aquilo que tem a alma não está sempre em ato nas operações vitais. A definição da alma ( Psyché) diz que ela é um ato de um corpo tendo a vida em potência. A potência, portanto, não exclui a alma. A essência da alma não é a sua potência. Nada está em potência com relação a um ato.

A Canção dos Anjos, de Bouguereau

O quadro de Bouguereau mostra a Virgem Maria com seu Filho Jesus dormindo em seu colo enquanto ouve a música tocada por três anjos. A pintura reproduz a tranquilidade e a santidade da mãe e seu filho e das figuras angélicas. Os anjos parecem querer se certificarem de que o menino está realmente dormindo.

São Tomás de Aquino diz que os anjos conhecem os pensamentos dos homens em seu efeito. Esse pensamento pode ser conhecido não só pelo ato exterior,mas também pela mudança de fisionomia. Os anjos percebem de maneira mais sutil estas mudanças corporais ocultas. No entanto, os pensamentos do coração e as afecções da vontade só Deus pode conhecer. O anjo conhece o movimento do apetite sensitivo e as apreensões da fantasia do homem, mas não conhece o que está na vontade e no pensamento.

Parece ser essa capacidade do anjo de saber o pensamento do homem em seu efeito que os anjos estão buscando saber olhando para a fisionomia de Cristo ainda criança.

A Análise do Quadro O Casamento dos Arnolfini, de Van Eyck

Um dos quadros mais interessantes, complexos e Belos que a arte ocidental produziu, O Casamento dos Arnolfini é a primeira representação íntima da vida burguesa na arte cristã. Van Eyck representa o papel de testemunha junto com um amigo, de um casamento realizado no ano de 1434 na região da Bélgica por um casal Italiano, apesar de que, como percebeu Huizinga, os Arnolfini possuem expressões bem pouco italianas.

Van Eyck era um mestre em reproduzir cenas íntimas da vida na Europa do fim da Idade Média. Ele também fez uma pintura que retratava o nu em uma cena de banho que hoje está perdida.

Vamos à análise da pintura:

O casal era muito rico, pelas roupas usadas que pertenciam à burguesia do norte da Europa. Arnolfini olha confiante para as testemunhas, enquanto sua esposa olha delicadamente ( outros poderiam dizer de maneira submissa) para o marido.

O cão, de uma raça hoje extinta, representa a fidelidade para os medievais, que adoravam símbolos e alegorias.

O vermelho é o símbolo da união sexual do casal.

As laranjas podem simbolizar o paraíso perdido, ou seja, o pecado original.

O verde do vestido da mulher representa a fertilidade desejada ao casal.

A única vela acesa representa o olho de Deus, que tudo vê.

O espelho reflete o casal, Van Eyck e outra pessoa não identificada. Em volta do espelho podemos ver pequenas cenas da vida de Cristo.

O imenso rosário é um símbolo de fé da esposa que deveria ser devota.

O fato de Arnolfini estar do lado da janela aberta representa a obrigação do homem de ir trabalhar fora para sustentar a casa.

A mulher não está grávida como pode parecer, mas é um efeito do vestido comum na época. Essa cerimônia privada era comum na Idade Média, não sendo exigida como depois no concílio de Trento que fosse na presença de um padre e na Igreja.

O quadro transborda de realismo como era comum na pintura flamenga da época, da qual Van Eyck era um dos maiores representantes. Toda a graça do sacramento católico do matrimônio está reproduzida nesse quadro. A técnica do reflexo do espelho seria uma inovação que seria muito imitada na arte ocidental posterior, é só ver o caso de Velázquez.

Essa cena representa o início da família burguesa, em que a vida de casal entre o marido e mulher passa a ser valorizada. A privacidade e a vida íntima passam a ser vistas como uma conquista do casal, e a civilização ocidental passará a declarar esses valores como uma das bases do núcleo familiar e da psicologia do homem e da mulher.

Se você reparar nos quadros anteriores de cenas íntimas de casamento na Idade Média, o contraste é óbvio. Geralmente, nessas cenas dos séculos anteriores, o casal tinha que ser visto em seu leito pelo padre e pelos membros da família em sua vida íntima. Já no século XV, é dado início ao processo de aburguesamento da vida privada. Foi a burguesia que valorizou o casamento e o núcleo da família como sendo formado pelo  pai, mãe e filhos somente. O método antigo da família da Alta Idade Média, em que a família tinha incontáveis filhos, que depois eram distribuídos aos familiares mais distantes para serem criados foi o modelo até o século XIII. Se nós repararmos, esse modelo de família existia até pouco tempo no interior do Brasil. A família burguesa demorou a se impor entre as camadas mais pobres.

O que fez com que as  famílias mais pobres formassem uma família igual à da burguesia foi simplesmente a invenção da pílula anticoncepcional. A burguesia foi quem impulsionou a educação e a infância ( ver Neil Postman). Como a burguesia teve um desenvolvimento notável nos países protestantes, especialmente na Inglaterra, foi nesses países em que a vida privada, a riqueza pessoal, a proteção da criança até o início da idade adulta e a alfabetização das massas teve um fantástico florescimento. Nos países católicos, por causa da manutenção da população no analfabetismo e em uma vida solta ( ver Max Weber), em que o casal não tinha a escolha de poder dar educação e proteger uma família que fosse unida, o resultado acabou sendo, por incrível que pareça, a diminuição da natalidade na França, e na ploriferação dos bastardos na Itália e nos países da América Latina.

Como Marx sabia, a burguesia tinha um papel revolucionário na história. Foi o que ela fez com a família, de forma que promoveu a infância, a educação e a restrição de uma vida dominada pelos instintos.

Poucas pinturas são tão burguesas como essa, e representam tão bem o ideal de vida do casal na parte final da  Idade Média. Tornou-se uma das pinturas mais famosas do mundo e é o símbolo de uma civilização.