Resenha: From Aristotle to Darwin and Back Again, de Étienne Gilson

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A verdadeira missão da Filosofia: o pensamento sobre o próprio pensamento e o questionamento das razões da ciência.

Poucos filósofos ou intelectuais possuem a coragem de questionar a assim chamada Teoria da Evolução que, mais do que simplesmente uma hipótese científica (ou pseudocientífica), virou já um dogma religioso. Louvemos, portanto, a bravura do filósofo francês Étienne Gilson, que escreveu esse livro numa época em que tal dogma era ainda mais inquestionável. [Read more…]

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Resenha: Dante e a Filosofia, de Étienne Gilson

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A Divina Comédia de Dante Alighieri é o maior e mais belo poema já escrito, e, desde que o li há muitos anos, considero-o meu livro favorito. Quem o lê sabe que é um livro muito complexo e cheio de referências à filosofia e à teologia. Várias passagens até são explicadas nas versões da Comédia que lemos, mas a maior parte das sutilezas e polêmicas de Dante é ignorada. O livro Dante e a Filosofia de Étienne Gilson vai muito além de explicações sobre a Divina Comédia especificamente, mas faz um estudo amplo sobre as ideias políticas e filosóficas do poeta florentino. O livro de Gilson é antigo, mas não está datado e continua a ser uma referência para o estudo de Dante. [Read more…]

A Filosofia, a ideia de liberdade e o problema do Mal

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“Porque não devemos dizer que a liberdade de vontade obteve o poder que possui no universo para a destruição, mas para a salvação de quem a possui.”

Proclo Lício, o Sucessor

Abordar o tema da liberdade em filosofia é algo que exige uma reflexão que parece nunca ter fim. O livre-arbítrio humano, se ele existe ou não, se somos um sistema fechado ou aberto, se podemos recriar-nos ou se somos determinados, sempre forneceu material para abordagens maravilhosas como para sofismas abomináveis. Temos além disso a liberdade política, liberdade de religião, liberdade sexual, etc. É impossível mencionar todos esses temas sem incluir Teologia e religião no meio. Liberdade é algo que todos falam, mas poucos querem exercê-la, ou mesmo sabem como fazer isso. É necessário responsabilidade individual e uma poderosa metafísica por detrás para que a liberdade apareça. [Read more…]

Resenha da Introdução ao estudo de Santo Agostinho, de Étienne Gilson

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Étienne Gilson foi um filósofo da tradição tomista e um dos maiores historiadores da filosofia patrística e medieval. Nessa ótima introdução ao pensamento de Santo Agostinho, Gilson faz um pequeno resumo de algumas das principais características da “filosofia” do santo. Filosofia está entre aspas porque o próprio Gilson reconhece que o pensamento de Agostinho é difícil de ser definido como uma filosofia. Complexa e inacabada, a obra de Santo Agostinho inspirou toda a Idade Média e filósofos modernos desde Descartes até Heidegger.

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Resenha do Espírito da Filosofia Medieval, de Etienne Gilson

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A filosofia já havia atingido o seu ponto máximo com a doutrina aristotélica, e o que o filósofo Tomista Etienne Gilson pretende nos apresentar nesse livro, é o que a filosofia cristã ou árabe trouxe de novo para o pensamento do homem ocidental.

Gilson analisa a teologia cristã desde o início da patrística até a filosofia de Guilherme de Ockham. A primeira questão a ser respondida é: Aristóteles e Platão tiveram a noção de um Deus único e se aproximaram do Cristianismo de alguma forma? De certa forma eles chegaram, sim, a ter uma ideia da revelação cristã, mesmo que de forma imperfeita. Platão com o seu mundo das ideias muito influenciou Santo Agostinho, mas sua filosofia tinha uma concepção errônea da matéria ( mundo sensível), o que levava a um pessimismo e desconfiança do corpo humano e dos trabalhos manuais. Isso se refletiu na filosofia de Plotino, por exemplo. Já Aristóteles com sua filosofia realista, que foi praticamente ignorada na antiguidade, pois mesmo Santo Agostinho a conhece pouco, teve muita influência no islã e no cristianismo da escolástica. A noção aristotélica do primeiro motor foi à que mais se aproximou do Deus único do cristianismo e do islã. Os cristãos perceberam, no entanto, que Aristóteles, apesar de não considerar à matéria como má, tinha a opinião de que nela havia alguma potência de causar a desordem.

O cristianismo teve que lutar logo no início contra a heresia dos gnósticos, que tinham como base muita influência da filosofia dos neoplatônicos. Os filósofos cristãos combateram o pessimismo gnóstico com um otimismo de um Deus que não está exposto à nenhuma causa intermediária. Quem mais contribuiu para afirmar a dignidade da matéria foi Santo Agostinho, que afirmava que a matéria não é a causa do mal, pois o mundo como Deus criou é excelente, e teria continuado a ser, se uma falta nascida no reino do espírito e não no da matéria, não houvesse introduzido a desordem até na matéria. Para a filosofia católica, toda a natureza é boa e não nega o mal, mas mostra seu caráter negativo e acidental.

O cristianismo é um avanço em relação à filosofia da antiguidade pela novidade das virtudes teologais, assim como a noção de humildade, desconhecida dos antigos. Outra contribuição da filosofia cristã é a afirmação que Deus criou tudo a partir do nada, que os filósofos antigos, especialmente Aristóteles, não puderam compreender.

A filosofia cristã atingiu o seu auge com São Tomás de Aquino, com suas provas racionais da existência de Deus a partir dos efeitos por nós conhecidos, e da sua doutrina da afirmação da união do corpo e da alma, afastando o perigo do espiritualismo exagerado dos platônicos.

É claro que a Escolástica teve muita influência de Avicena e Averróis, por causa de que os filósofos do islã tiveram acesso primeiro à filosofia aristotélica. Avicena, em especial, dará a São Tomás de Aquino a definição célebre de que a verdade é a adequação do intelecto ao objeto. Entretanto, mesmo Avicena teve os seus erros e imperfeições detectados pela escolástica.

O grande problema foi que a filosofia de São Tomás de Aquino foi desde o início combatida por Duns Scot e Guilherme de Ockham, que introduziram no Ocidente a noção de dúvida muito antes de Descartes. Nasce então a crença de que fé e razão estavam separadas; que o conhecimento geral e teórico era inútil, pois só a experiência aplicada aos particulares seria válido. Com o surgimento do fideísmo, a fé passa a ser sentimental e particular, abrindo caminho para Lutero.

A filosofia católica já tinha as respostas para as incertezas trazidas pelo Renascimento. Por exemplo,Lutero e Calvino nos dão a imagem de um universo cristão cuja natureza é corrompida pelo pecado; mas a teologia católica de Santo Agostinho faz verdadeiros elogios à natureza decaída.Ele deplora o que perdemos, mas nunca pensa em desprezar o que nos resta.Para Gilson, a Renascença marca o início da era em que o homem se declara satisfeito com o estado de natureza decaída.

Foi a filosofia cristã da patrística e da escolástica que declararam o trabalho manual como digno, e o ser humano como o centro da criação divina, concedendo à espécie humana uma enorme dignidade. O espírito da filosofia medieval foi a busca de uma fé racional, que possibilitasse ao homem reconhecer à sua natureza de pecador pelo pecado de Adão, mas que pela Graça divina pudesse saber que Deus caminha sempre ao seu lado na história, e que ele não está abandonado em um mundo com muitas adversidades, mas que o cristão sabe que é o que Deus poderia ter feito de melhor. O resultado foi um grande otimismo que impulsionava o homem medieval, que via no mundo e no universo a imagem do Deus criador. Sabemos que tudo isso viria a ser destruído depois pela filosofia moderna, que transformou o homem em um híbrido de macaco com ser racional, e que vê o mundo, da mesma forma como os gnósticos do início da nossa era, como sendo essencialmente mau pela própria existência do homem, no qual acreditam que seria melhor que não existisse.

 

Resenha da Introdução às Artes do Belo, de Etienne Gilson

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A Arte e a Filosofia
O excelente filósofo tomista Étienne Gilson propõe o que é filosofar sobre a arte. O que é uma coisa bela? Uma condição obrigatória é de que o objeto seja inteiro, que não falte nele nenhuma parte, ou seja, que ele seja perfeito. Ele é perfeito na medida em que é em ato e não apenas em potência. Belo para Gilson é aquilo que Santo Agostinho denomina de Claritas( o brilho) que retêm o olhar e aumenta a percepção da beleza.

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Gilson escolhe dois nomes para simbolizar a concepção ocidental de mundo: Platão, o qual Gilson considera que vivemos em uma era de antes e depois da filosofia platônica, e Nietzsche, que iniciou uma revolução contra o universo na qual não há lugar mais para o homem. Nietzsche representa a revolta contra o mundo cristão e platônico, pois Nietzsche quer fazer do homem senão vontade, liberdade e poder. Para Gilson, Nietzsche quer se libertar do ÁNTHROPOS THEORETIKÓS, o homem contemplativo.

Depois de a pintura ter alcançado o auge no fim da idade média e no renascimento, com uma perfeita imitação da natureza, o que restou de tais conquistas, pergunta Gilson. O homem moderno revoltou-se contra essa concepção, e fez-se um Demiurgo, que contrário ao de Platão, não precisa de modelos inteligíveis e racionais para criar a sua arte.

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Gilson discutirá ainda a distância que existe entre a filosofia e a arte. Ele alerta que essa distância é perigosa pois um homem que se engana sobre si mesmo pode muito bem enganar-se sobre Deus.
O cristianismo irá influenciar muito a arte com a sua noção de criação. Para Platão, o Demiurgo não é um o mais importante na sua filosofia, mas a Ideia do bem que nada faz. O primeiro motor de Aristóteles também nada cria.

Durante séculos o cristianismo buscou conciliar a sua visão de criação com a filosofia grega. Só conseguiria isso no século XIII, com Santo Tomás de Aquino e sua filosofia, em que Deus exerce sua atividade criadora a todo momento.

Creio que faltou nessa obra de Gilson um aprofundamento maior sobre essa revolta da arte moderna contra a ideia cristã de criação e sua noção de uma arte que buscasse a transcendência. Faltou também um maior destaque à escolástica e sua estética. Santo Tomás de Aquino foi citado poucas vezes, o que me decepcionou um pouco. Mas Gilson foi um dos maiores divulgadores da filosofia Tomista e por isso vale a pena comprar esse livro.

A definição de livre-arbítrio em São Tomás

Do livro Le Thomisme, de Etienne Gilson.

” Mas nós vimos que existe algo a mais. A vontade não é apenas livre de toda a restrição por definição, mas também por necessidade. Negar essa verdade, é remover dos atos humanos todas as coisas que poderiam conferir a eles uma censura ou um caráter meritório. Nós dificilmente podemos dar mérito ou demérito produzindo atos impossíveis de terem sido feitos. Qualquer doutrina que no final remova a noção de mérito, remove também a noção de moral, e deve ser considerada como uma filosófica-extranea philosophie.  Se não há nada livre em nós, se nós somos necessariamente determinados pela nossa vontade, então deliberações e exortações, preceitos e punições, elogios e críticas, em uma palavra, tudo aquilo que a filosofia moral lida, iria rapidamente desaparecer e perder todo o significado.

Tal doutrina, nós dizemos, é afilosófica, como, de fato, são todas as opiniões que destroem os princípios de qualquer parte que seja da filosofia. Isso seria o efeito de um princípio como aquele que diz que ” nada move”, porque iria eliminar toda a filosofia da natureza. Agora, a negação do livre-arbítrio, exceto quando meramente expressa a impotência de certos homens de dominar suas paixões, é baseada apenas em sofismas. Demonstra ignorância das operações produzidas pela alma humana e a relação dessas operações com seu objeto.”

O Otimismo da Filosofia Tomista

Do livro Le Thomisme, de Etienne Gilson.

“Além do mais, não só a matéria é boa em si mesma, mas é boa e uma fonte do bem para todas as formas que podem unirem-se a ela. Seria completamente estranho à filosofia Tomista achar que o universo material é o resultado de alguma calamidade, e a união da alma e do corpo uma consequência de uma queda. Um otimismo radical percorre sua doutrina ( a de São Tomás), porque representa um universo criado a partir da pura bondade. Ela interpreta todas as suas partes, na medida em que subsistem, como os muitos reflexos da perfeição infinita de Deus.

O ensinamento de Orígenes ( e de Platão) de que Deus criou os corpos para aprisionar almas pecaminosas dentro deles é a ideia mais repulsiva para o pensamento de São Tomás. O corpo não é a prisão da alma, mas um servo e um instrumento colocado a serviço da alma por Deus Todo-Poderoso. A união da alma e do corpo não é o castigo da alma, mas um salutar elo através do qual a alma humana vai atingir sua máxima perfeição.”

O Ato de Criação em São Tomás e na Filosofia Árabe

Do livro Le Thomisme, de Etienne Gilson.

Gilson diz que um ato começando com o Esse termina diretamente e imediatamente com o Esse. Em virtude disso, ” criar é propriamente um ato de Deus e Dele somente”. E o justo efeito dessa conveniente atividade divina é também o efeito mais universal de todos, aquele pressuposto por todos os outros efeitos, o ato-de-ser: ” de todos os efeitos, o mais universal é ser em si mesmo…agora, para produzir o ser totalmente, e não meramente este ou aquele ser, pertence à natureza da criação. Portanto, é manifesto que a criação é um ato próprio de Deus somente.” Isto é o porquê, quando São Tomás pergunta o que está em Deus a rota da atividade de criação, ele recusa em colocá-la em uma das pessoas divinas.” Criar, de fato, é propriamente causar ou produzir o ser das coisas. Desde que qualquer coisa que produz, produz um efeito reproduzindo a si mesma, nós podemos ver pela natureza de um efeito aquela ação que a produz. O que produz o fogo é o fogo. Isto é o porquê da ação criativa pertencer a Deus, de acordo com o seu ato-de-ser, que é a sua essência, que é comum às três pessoas.” Uma instrutiva aplicação teológica, desde que traz à luz o supremo, o significado existencial da noção Tomista de criação:” Desde que Deus é o ser por si mesmo por sua própria essência, coisas criadas devem ser Seu próprio efeito”.

Esse é o tipo de produção designado pela palavra ” criação”, que nós vimos o porquê Deus somente pode criar. Os filósofos árabes, e notavelmente Avicena, negam isso. O último, enquanto admitindo que a criação é propriamente uma ação de uma causa universal, considera certas causas inferiores, atuando como instrumentos da causa primeira, como sendo capaz de criar. Avicena ensina particularmente que a primeira substância separada criada por Deus, cria após si mesma, a substância da primeira esfera e sua alma, e que depois disso, a substância dessa esfera cria a matéria dos corpos inferiores.

Similarmente, o Mestre das Sentenças diz que Deus pode comunicar o poder de criação para a criatura, mas somente como Seu ministro, e não por sua própria autoridade. Agora, essa noção de criatura/criador é contraditória. Qualquer criação através da mediação da criatura iria evidentemente pressupor nada anterior, e isto aplica-se tanto para a causa eficiente como para a matéria. Isso causa o ser suceder o não-ser, pura e simplesmente. O poder criativo é, portanto, incompatível com a condição da criatura, pois a criatura não possui o ser em si mesmo, e não pode conferir uma existência que não pertença à sua própria essência. Só pode agir em virtude do ato-de-ser que recebeu previamente. Deus, de outra maneira, é ser per se e pode causar o ser. Ele somente é Ser per se, e Ele somente pode produzir a verdadeira existência de outros seres. Ao seu único modo de Ser corresponde um único método de causalidade. A criação é uma ação de Deus somente.

É interessante olharmos para as razões dadas pelos filósofos árabes para concederem às criaturas o poder de criação. De acordo com eles, uma causa que é única e simples pode produzir somente um único efeito. Somente o um pode proceder do único. Se então nós vamos explicar como um número de coisas podem proceder de uma primeira e simples causa ( Deus), nós devemos conceder uma sucessão de causas únicas produzindo cada uma um único efeito cada. Então, é bem verdadeiro dizer que de um princípio que é único e simples, somente o um pode proceder; mas isso somente se mantém para aquilo que age pela necessidade da natureza. Portanto, é basicamente por que eles consideram a criação ser uma produção necessária, que os filósofos árabes propõem criaturas que são ao mesmo tempo criadoras. Se nós devemos providenciar uma completa refutação dessa doutrina, nós devemos examinar se Deus produz coisas pela necessidade da natureza, ou se a multidão de seres criados vêm de Sua única e simples essência.

Haec Sublimis Veritas

Quando São Tomás escreveu na Suma Contra os gentios e na Suma Teológica as suas famosas cinco vias da existência de Deus, ele não estava procurando ser original, pois tinha consciência de outros filósofos antes dele, como Avicena, e, principalmente, Maimônides, já haviam pensado nessas teses sobre a existência de Deus. Mas isso não quer dizer que São Tomás não tenha sido profundamente original nas suas próprias teses. É isso o que demonstra Etienne Gilson em alguns capítulos desse livro dedicados a mostrar como São Tomás compreendia a noção de Ente e Essência.

Vejamos a palavra do santo que Gilson nos apresenta: ” O Ser ( esse ) é usado em dois sentidos. Primeiramente denota o ato-de-ser ( actum essendi). Em segundo lugar denota a composição da proposição feita pela mente juntando um predicado ao sujeito. Se tomamos o Ser no primeiro sentido, não podemos saber o que o Ser divino é ( non possumus scire esse Dei), não mais do que nós sabemos sobre sua essência. Mas podemos saber que a proposição que formamos sobre Deus quando dizemos ” Deus é” é verdade; e nós sabemos isso por causa dos Seus efeitos”.