Resenha: Os Cátaros, de René Nelli

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A história do nascimento do movimento cátaro na Europa Ocidental é bem difícil de ser traçada, porém o autor René Nelli -admirador confesso dos cátaros- conseguiu descrever o movimento herético de maneira bastante satisfatória na maioria das vezes. Digo isso porque Nelli não consegue explicar as origens do catarismo da maneira que alguém interessado em um estudo mais profundo da seita esperaria; nem foi muito convincente em descrever o movimento como uma variação do Cristianismo. [Read more…]

Resenha: Tipos Psicológicos, de Carl Gustav Jung

Jung

 

Estudei muitas matérias de psicologia na faculdade, mesmo assim não creio que estou qualificado para fazer uma análise mais profunda da obra de Jung devido à sua complexidade. Tipos psicológicos foi o primeiro livro que li do psiquiatra suíço. A tese de Jung é sobre dois tipos de personalidade: a extrovertida e a introvertida. No começo do livro ele faz uma comparação entre esses dois tipos de personalidade fazendo um estudo sobre a vida de alguns personagens históricos. Somente no capítulo X, ou seja, no final do livro, é que Jung divide as personalidades extrovertida e introvertida em alguns subgrupos. Ali é que ele escreve sobre suas concepções da psique humana em seus próprios termos. Antes de finalizar esse livro, Jung escreveu uma espécie de dicionário esclarecendo diversos termos de psicologia para quem quiser melhor compreender seu pensamento. Isso é muito útil para quem é novo nessa ciência.

Achei a parte puramente filosófica mais interessante do que a parte psicológica da segunda metade do livro. Nela, Jung expressa suas opiniões sobre temas como o debate medieval sobre a questão dos universais, que levou a um confronto entre nominalistas e realistas. O que percebi é que Jung não compreendia ( e não tinha simpatia) por uma filosofia e teologia que fossem ortodoxas. Ele claramente está do lado daqueles que foram rejeitados pela Igreja como Orígenes, Abelardo, Mestre Eckhart, etc. Jung seleciona esses personagens históricos e os define segundo seus critérios como extrovertidos ou introvertidos. A respeito dessas classificações, elas não parecem ter a mesma importância que o capítulo X.  Esse último acaba por definir entre introvertidos e extrovertidos homens e mulheres do mundo moderno em um sentido geral. Jung tem predileção por elementos gnósticos e fantasiosos ( irracionais) do pensamento de Mestre Eckhart, do Hinduísmo e de Nietzsche. É claro que a psicologia de Jung valoriza muito, eu creio, a fantasia e a gnose; no entanto, para quem está acostumado com os termos racionais da filosofia, isso pode parecer estranho. A psicanálise freudiana é vista por Jung como uma forma de repressão ao elemento fantasioso e de supervalorização da sexualidade. Existe uma passagem no Fausto de Goethe que Jung cita e que pode exprimir o que ele pensa. Fausto diz: ” o sentimento é tudo”. O elemento fantasioso faz parte da natureza humana para Jung. Entretanto, a fantasia só possui valor se transformada em matéria-prima aproveitável, ele diz.A divisão final entre tipos irracionais e racionais, tipo perceptivo extrovertido, tipo intuitivo extrovertido, entre outros, é interessante, porém, eu não compreendi essa parte.Gnosticismo, elementos bíblicos e mitológicos, e obras poéticas alemãs ajudam a tornar o livro de agradável leitura. Tudo isso é uma antecipação para a tese final de Jung sobre os tipos psicológicos.

 

 

 

A distorção da Filosofia: Zósimo de Panópolis e Karl Marx

Zosimos Of Panopolis

No livro Science, Politics and Gnosticism, o filósofo alemão Eric Voegelin analisa a tentativa de Karl Marx de transformar a filosofia em um modelo de ação e revolução. Voegelin demonstra como a utilização por parte de Marx de uma citação mal feita e isolada do Prometeu Acorrentado era uma das vigarices desse sociólogo.

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A Tentativa de Imanentizar o Eschaton, por Eric Voegelin

Eschaton

O filósofo alemão Eric Voegelin criou essa expressão na sua obra Nova Ciência da Política. Na edição brasileira da  Universidade de Brasília, ela é mencionada na página 92, no capítulo “gnosticismo-a natureza da modernidade”. Voegelin escreve: “o homem e a humanidade agora têm sua realização, mas ela está além da natureza. Mais uma vez, nesse caso, não há um eidos da história, porque a sobrenatureza escatológica não é uma natureza no sentido filosófico e imanente. Portanto, o problema do eidos na história só se põe quando a realização transcendental cristã é imanentizada. Contudo, tal hipótese imanentista do eschaton é uma falácia teórica. As coisas não são coisas, nem possuem essência, em virtude de uma declaração arbitrária. O curso da história como um todo não é objeto da experiência; a história não possui um eidos, e isso porque seu curso se estende ao futuro desconhecido. Assim,o significado da história é uma ilusão; e esse eidos ilusório é criado ao se tratar um símbolo de fé como se fosse uma proposição relativa a um objeto da experiência imanente.”

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Resenha de O amor e o Ocidente, de Denis de Rougemont

O amor e o Ocidente

 

 

O conflito entre paixão e casamento
Nesse livro famoso, Denis de Rougemont estabelece a ligação entre a poesia dos trovadores e a heresia cátara. Para os cátaros Deus é bom, mas o mundo é mau, por conseguinte, Deus não poderia ser o autor do mundo.

O mundo material seria criação do Anjo revoltado, ou seja, Lúcifer. Os cátaros rejeitavam o dogma da Encarnação e os sacramentos, tinham repulsa pela mulher ( apesar da seita ter atraído milhares de mulheres), a gravidez e o casamento.

A doutrina cátara exigia que se terminasse a vida “não por fadiga, nem por medo ou dor, mas num estado de perfeito desprendimento da matéria”. Os cátaros pretendiam passar da noite para o dia sem nenhum intermediário. “Aquele que pretende chegar a Deus sem passar por Cristo vai ao encontro do Diabo” dizia Lutero. Quando se ignora o caminho, precipita-se na noite; isso acontece quando se tenta unir-se ao Transcendente quando o fim não é a Luz, nas belas palavras de Rougemont. Mas a acusação de excessos sexuais por parte dos cátaros não parece ser verdadeira.

Os trovadores ridicularizavam o casamento, desprezavam os clérigos e seus aliados feudais e se lançavam a dois pelas estradas como faziam os sacerdotes cátaros. Da necessidade dos trovadores de esconderem suas simpatias cátaras, nasce a escola do TROBAR CLUS, acessível apenas aos iniciados.

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A tese de Rougemont de que o culto à Virgem Maria, surgido com maior força no século XII, seria uma reação da Igreja contra o crescimento das doutrinas maniquéias é contestável. A veneração à Virgem já existia há séculos, e nem mesmo certas objeções feitas por São Bernardo e Santo Tomás de Aquino invalidaram a Veneração à Virgem.

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Para Rougemont, a crise atual do casamento tem origem no conflito entre o catolicismo e a heresia cátara. Segundo o autor, o problema é que o jovem é educado desde cedo para acreditar que a paixão é a experiência suprema que todo homem deve um dia conhecer, e que somente quem viveu a paixão experimentou a vida em sua plenitude, sem perceber que paixão(ideal dos trovadores cátaros) e casamento( ideal cristão) são por essência incompatíveis.

A tensão entre paixão e casamento nos lembra do problema da infidelidade. Rougemont lembra que a fidelidade é contrária aos valores do mundo moderno. O objetivo da fidelidade não é a felicidade e nem representa a obrigação da pessoa amada de reunir o maior número de qualidades possíveis. A fidelidade é antes de tudo uma obediência a uma verdade em que se acredita, e em segundo lugar a vontade de executar uma obra.

Rougemont declara que se a promessa de casamento é o tipo de ato sério, ela só será se for feita por toda a vida, pois só o irrevogável é sério.

A importância do mito nos fala da diferença entre Eros( pagão) e Ágape( Cristão); a diferença entre se apaixonar e amar, que é o primeiro mandamento do Decálogo. Foi o amor pagão de Eros que difundiu a crença da ascese idealista, o que Nietzsche critica injustamente no Cristianismo, segundo o autor.

Eros quer exaltar a vida através da paixão acima de nossa condição finita, enquanto Ágape sabe que o amor liberta e que a vida terrestre não merece ser adorada, mas ser aceita em obediência a Deus e ao eterno.

Os pagãos divinizavam o desejo, que é a grande tentação e o pior inimigo da vida.

O problema da paixão já havia sido analisado por Santo Tomás de Aquino, que dizia que a paixão é um movimento do apetite sensitivo. Santo Tomás diz que a paixão diminui o pecado na medida que diminui o voluntário; mas quanto à paixão que segue ao ato, ela não diminui o pecado, mas o aumenta. E o pecado é maior quanto mais prazer se sinta.

Aristóteles já havia dito que o silogismo daquele que não se domina tem duas proposições universais; Uma: não se deve cometer adultério; a outra: é preciso procurar o prazer. A paixão amarra a razão para que não se tire nenhuma conclusão da primeira e tire conclusão da segunda.

Esse culto do desejo que é tão comum em nossa sociedade, em que as pessoas muitas vezes desesperadas saem pelo mundo em busca de experiências, e que tornam os relacionamentos tão instáveis, faz nascer as filhas do desejo, que são a cegueira da mente, o amor de si, a irreflexão e a inconstância. E a inconstância é inimiga dos relacionamentos e, principalmente, do casamento.

Rougemont, em algumas palavras belíssimas, diz que só é possível superar a paixão, nascida de um desejo mortal de uma união mística através do encontro de um outro, pela aceitação de uma pessoa diferente de nós, mas que oferece uma aliança sem fim. Então deixamos de buscar a felicidade sensível, aceitamos a vida, e então o casamento se torna possível.

Conclusão

O mito que mantinha o casamento estável desapareceu junto com as coerções sagradas, sociais e religiosas. Por exemplo: na coerção religiosa o compromisso é feito para todo o sempre, sem levar em conta diferenças de temperamento, de caráter, de gostos e de fatores extremos. Ora, para o autor os casais modernos condicionaram sua felicidade justamente a esses fatores.

Rougemont faz uma extensa análise do mito de Tristão e Isolda, e diz que o mais importante no mito não é a divinização da mulher, mas o conflito entre duas místicas: A católica que conduz ao “casamento espiritual” de Deus com a alma, mas com uma distinção entre criatura e criador, e para quem o amor profano longe de ser negado, acaba sendo santificado através do casamento; e a cátara que espera a união e fusão total da alma depois da morte dos corpos e para quem não há redenção possível nesse mundo, e em consequência disso o amor profano seria a infelicidade absoluta.

Para um melhor entendimento da história dos cátaros recomendo a obra de René Nelli, e para o tema da Gnose a obra de Hans Jonas “The Gnostic Religion”. A questão da paixão, assim como os vícios capitais, foram tratados por Santo Tomás no Livro IV da Suma Teológica. O Silogismo de Aristóteles foi retirado do livro VII da Ética a Nicômaco.

Resenha de Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa

Grande Sertão Veredas

Uma tese sobre o romance de Rosa
“Tudo flui e nada permanece; tudo se afasta e nada fica parado…Você não consegue se banhar duas vezes no mesmo rio, pois outras águas e ainda outras vão sempre fluindo…É na mudança que as coisas acham repouso…” Heráclito- Fragmentos

“ O senhor mire e veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando.” Riobaldo- Grande Sertão:Veredas

Após um começo com as lembranças confusas do personagem Riobaldo, de repente, na página 116, ele atravessa o rio ainda adolescente, e encontra um misterioso menino de sua idade, pelo qual se sente atraído. Ao narrar a travessia do rio, sua mente passa a organizar melhor as lembranças, e começa, como em um ritual iniciático, a sua vida. Riobaldo é um homem dotado de grande imaginação e de espírito poético. Por longas páginas, Guimarães Rosa narra as aventuras do personagem principal e seu grupo de jagunços pelo interior de Minas, Bahia e Goiás. O sertão descrito pelo autor é um local mágico, habitado por bois, araras, papagaios, pássaros diversos e com os buritis enfeitando a paisagem. A linguagem utilizada por Rosa não tem precedentes em nossa literatura. O autor foi buscar palavras que, às vezes, têm origem no próprio início da língua portuguesa, com diversos arcaísmos.

Riobaldo possui crenças que são um reflexo das crenças do próprio Guimarães Rosa. Como o personagem Riobaldo mesmo diz, ele bebe água de diversos rios. É supostamente católico, mas também aceita ensinamentos do protestantismo e do espiritismo, através de seu compadre Quelemém, que é espírita. É ao mesmo tempo o retrato da fé do homem do sertão, onde o catolicismo quase não penetrou, misturado com crenças diversas, e uma mentalidade gnóstica, onde busca-se o conhecimento acima de tudo.

O romance é uma verdadeira viagem pelo sertão , com o autor descrevendo minuciosamente as paisagens e localidades. Árvores, plantas, pássaros e diversos bichos que povoam o sertão são testemunhas das aventuras dos personagens. Quanto às características do personagem Riobaldo, ele possui uma grande inteligência, assim como senso de lealdade, e como na citação de Heráclito, Riobaldo está sempre se transformando, exibindo um vir-a-ser em sua personalidade e crenças. Acredita em diversas religiões, e está sempre experimentando paixões e desejos sexuais diversos por alguns personagens.

Riobaldo necessita do sexo sem compromisso com algumas prostitutas e também com mulheres casadas, onde a paixão não existe. Mas Riobaldo também é capaz de um amor romântico, como aquele que sente pela personagem Otacília e, claro, aquele amor impossível e proibido que sente por Reinaldo/Diadorim, em que o possível desejo homossexual é narrado com grande delicadeza por Rosa.

O mundo sertanejo é quase medieval em sua religiosidade, na noção de honra pelos jagunços, e nas suas misérias e pestilências. Rosa descreve as doenças como a lepra e a varíola que assolam as cidades do interior, cenas que ele provavelmente presenciou enquanto era médico no interior de Minas.

Percorrendo o sertão, Riobaldo fica sabendo da traição de Hermógenes, e daí em diante busca a vingança. Riobaldo torna-se líder do grupo e vê crescer sua autoridade. A questão do mal e da existência ou não do Demônio é algo que os leitores de Grande Sertão:Veredas mais se questionam. O único personagem do grupo que não se contamina moralmente é Diadorim, como podemos ler na passagem em que os jagunços matam José dos Alves, que foi confundido com um macaco, e cuja carne os jagunços, com exceção de Diadorim, vão provar em um ato de canibalismo. Diadorim também não irá deitar-se com nenhum homem ou mulher durante a história, ao contrário de Riobaldo.

O caso de Riobaldo chama a atenção. Ele parece não ver pecado em ter relações sexuais com diversos personagens, inclusive com uma mulher casada. Parece ser que é nas diversas mudanças de paixões que Riobaldo vive que ele encontra energia para viver. Grande Sertão não parece ser um romance cristão. Quase no final do romance, acontece o suposto pacto com o Diabo feito por Riobaldo. O personagem chama pelo Demônio, mas não ouve resposta. Hermógenes também teria feito esse pacto, mas isso não impede que ele seja morto.

No fim, Riobaldo pergunta a Quelemém se ele teria de fato vendido sua alma para o Diabo, e Quelemém diz que comprar ou vender é um fato da vida. Como espírita, Quelemém não acredita no Demônio, assim como Riobaldo, que então passa a acreditar que o Demônio não existe, mas somente a travessia, o vir-a-ser, a transformação, pois o Diabo nunca é, de fato.

Em uma história cristã, o personagem pode redimir-se,e a existência do Maligno é certa, mas em Grande Sertão: Veredas o personagem está sempre fluindo, em um constante vir-a-ser. Considero esse livro nosso maior romance,mas não creio que possamos caracterizá-lo como um romance cristão, mas sim uma obra gnóstica, onde nada parece ser o que é.

Resenha de Ciência, Política e Gnosticismo ( Science, Politics and Gnosticism), de Eric Voegelin

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Livro fundamental para se compreender a Gnose
Voegelin identifica a presença do pensamento gnóstico em movimentos modernos como o nazismo, comunismo, progressismo , positivismo e em pensadores como Hegel e Marx. A tese de doutorado de Marx contém um elemento de revolta segundo Voegelin. Marx teria citado a frase de Prometeu ” em algumas palavras, eu odeio todos os deuses” fora de contexto, pois o sentido que Ésquilo deu a essas palavras indicavam que quem disse essa frase estaria com a mente doente.Na sequência de Prometeu Acorrentado, Mércúrio diz:” Tens a razão conturbada, bem se vê; o mal é violento…” E mais adiante Mercúrio é profético: “Como serias insuportável se dominasses um dia!…”
O autor não poupa Marx e Nietzsche, a quem chama de gnósticos especulativos. Para os gnósticos, o problema do mal não deve ser buscado na questão moral ou na existência do pecado original; para o gnóstico religioso o problema do mal é uma questão metafísica( criação do deus do mal e a prisão do corpo); para o gnóstico político é a falta de saúde, educação, etc. Ou seja, com ações políticas o ser humano poderia ser aperfeiçoado. Nenhum deles atribui o mal ao fato do ser humano ser inadequado.

Para se aprofundar no tema da gnose, recomendo “The Gnostic Religion” de Hans Jonas

Resenha de A Religião Gnóstica ( The Gnostic Religion), de Hans Jonas

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Hans Jonas e a religião gnóstica
Décadas após ser publicado, The Gnostic Religion mantém-se como a principal fonte para o conhecimento do fenômeno gnóstico. Jonas inicia seu livro situando o leitor na história da Grécia e do oriente próximo. Os impérios do oriente como a Pérsia e a Babilônia eram instáveis, e na época a conquista de Alexandre, estavam enfrentando uma decadência cultural. O que havia de novo no oriente era o sincretismo religioso, o monoteísmo judaico, a astrologia Babilônia e o dualismo iraniano. Nessa mesma época na Grécia, o mundo da Pólis desaparecia aos poucos.

A grande contribuição dos orientais era o sincretismo religioso, ou a mistura de deuses, enquanto o espírito grego havia criado o Logos, o método teórico de exposição, sendo que os orientais tinham o seu pensamento marcado por imagens e símbolos exemplificados nos mitos e rituais, sem expô-los de uma maneira lógica. Jonas explica que muito da cultura oriental foi assimilado pelo pensamento grego, mas que existia uma outra parte que foi rejeitada e circulava nos subterrâneos e que estava por explodir.

Era uma mistura de mitologia oriental e elementos da filosofia grega, especialmente do platonismo. No início da era cristã, a onda oriental manifesta-se com maior força: o judaísmo helenístico, principalmente a filosofia judaico-alexandrina, a expansão da astrologia babilônica, coincidindo com a manifestação do pensamento fatalista no ocidente, com cultos orientais misteriosos, o início do neo-pitagorianismo e a ascensão da escola neo-platônica.

Depois de situar o leitor nesse mundo do sincretismo helênico, Jonas define essa onda oriental e o termo gnose. O movimento tinha uma característica religiosa, estavam preocupados com a salvação, exibem uma concepção transcendente de Deus e possuem um acentuado dualismo como Deus e o mundo, espírito e matéria, bem e mal, vida e morte, fazendo que esse movimento seja caracterizado como uma religião dualística e transcendente de salvação.

O termo gnose é grego e significa conhecimento. Santo Irineu irá identificar a gnose como uma heresia cristã, mas Hans Jonas também falará sobre um gnosticismo judaico pré-cristão, um gnosticismo helênico-pagão e a religião de Mani. A gnose é o conhecimento de Deus e também a tentativa do possuidor do conhecimento de fazer parte da essência de Deus. Adolf Von Harnack, em uma frase famosa, definiu a gnose como a “aguda helenização do cristianismo”. Jonas estabelece alguns dos principais dogmas do pensamento gnóstico:

Teologia: exibe um dualismo radical, sendo a divindade estranha ao universo o qual não criou e não governa. O mundo foi criado pelos poderes mais baixos( arcontes),e o Deus transcendente está oculto de todas as criaturas, e não é compreensível por conceitos naturais.
Cosmologia: o universo é o domínio dos Arcontes ,sendo considerado uma vasta prisão, cujo calabouço é a Terra, a cena da vida do homem. Os arcontes dominam o mundo e utilizam, por exemplo, a lei mosaica para escravizar o homem. Os arcontes têm como líder o Demiurgo, o deus-criador do Timeu de Platão.

Antropologia: existe o mundano e o extra-mundano. Tanto o corpo como a alma são produtos de poderes cósmicos que o formaram na imagem do primeiro homem( arquétipo). Preso na alma está o espírito, ou pneuma, a parte divina que caiu na prisão do mundo. Preso na carne, o pneuma está adormecido e intoxicado pelo veneno do mundo. Está na ignorância. Seu despertar e libertação se dará com o conhecimento.

Escatologia: o mais importante é o conhecimento do Deus transcendente, como diz uma famosa fórmula dos valentinianos( seita gnóstica). “ o que liberta é o conhecimento do que nós éramos e do que nos tornamos; de onde estávamos e onde nós fomos lançados; o que é nascimento e o que é renascimento”.

Moralidade: os pneumáticos, ou seja, os possuidores da gnose estão separados do resto dos homens. Daí seguem dois tipos de caráter: o ascético e o libertino. O primeiro possuidor da gnose evita todo o contato com o mundo; o segundo está livre da tirania da lei de Moisés. Tu deves ou tu não deves está abolido. O gnóstico já está salvo, portanto a lei não se aplica a ele. Com essa moral antinomista, o pneumático viola as leis do Demiurgo e confunde o domínio dos Arcontes, permitindo assim de forma paradoxal o caminho para a salvação.

Segue um capítulo destinado à exposição do imaginário gnóstico e sua liguagem simbólica como a luz e a escuridão, vida e morte, a queda e a saudade da verdadeira morada, a intoxicação do mundo, a noção do chamado e o mito gnóstico da queda de Adão e Eva.

Na segunda parte do livro, Jonas apresenta os sistemas de pensamentos gnósticos, começando com Simão, O mago, na sequência o conhecido hino da pérola que é um dos mitos mais famosos do gnosticismo. O gnóstico Marcião de Sinope merece um capítulo à parte, pois sua heresia foi uma das maiores ameaças à fé cristã e suas ideias voltaram a aparecer ao longo da história. Jonas diz que o pensamento de Marcião estava livre de toda a fantasmagoria dos gnósticos comuns e que o mais importante em seu pensamento é que o Deus criador é estranho ao mundo.

Na teologia de Marcião existe a antítese entre o deus-criador( Demiurgo) e o Deus escondido e desconhecido. A mais importante antítese é entre o Deus justo e o bom Deus. O Deus justo é o Deus da lei do antigo testamento e o bom Deus é o do evangelho. O bom Deus é estranho ao mundo, desconhecido do homem, o qual não é seu criador. A sua conclusão a respeito da existência de dois deuses resultará em um ascetismo que condena o casamento e a reprodução, sendo que seu ascetismo, ao contrário do cristão, não buscará a santificação da existência, mas é resultado de uma revolta contra o cosmos.

O livro ainda possui dois capítulos relativos à gnose Valentiniana e a de Mani. Jonas demonstra que o pensamento gnóstico era não só hostil à religião cristã, mas também ao pensamento clássico. A gnose destruía a noção de cosmos da filosofia grega. A visão de encanto e beleza que o céu produzia para os antigos filósofos foi completamente desvirtuada pelos gnósticos. A música das esferas não era mais ouvida e o céu passa a ser visto com terror. A visão gnóstica não é nem pessimista nem otimista, mas é escatológica. O mundo é uma prisão e mau, mas existe a salvação no Deus extra-mundano.

Outra coisa que faltava aos gnósticos e o filósofo Plotino percebeu isso, era a falta da ideia de virtude. Para os gnósticos nada de bom poderia vir deste mundo. Santo Irineu conta que os gnósticos achavam que não precisavam de obras para a salvação porque ela viria pelo simples fato do fiel ser espiritual, sendo o pecado permitido. Algumas seitas gnósticas pregavam que através de sucessivas reencarnações o homem teria que experimentar todo o tipo de vida e pecados para ser libertado do poder dos anjos criadores, assim podendo ascender até Deus.

A gnose voltaria a surgir em diversos períodos da história como no caso do catarismo, nas diversas seitas do protestantismo, basta ver o lema de Lutero “crê firmemente e peca muitas vezes”, claramente de origem gnóstica, assim como sua crença e a de Calvino na existência de um duplo deus ( ver Max Weber). Eric Voegelin também identificará a gnose no comunismo e no nazismo. A religião gnóstica é um tema complexo e fascinante e essa obra de Hans Jonas é a melhor introdução que possuímos sobre esse tema.

Eric Voegelin, a Política e o Gnosticismo.

 

” A Tentação de se cair de uma verdade incerta em uma inverdade certa”

Science, Politics and Gnosticism é um dos livros mais importantes de Eric Voegelin em que ele denuncia a infiltração gnóstica no protestantismo americano, em Marx, Nietzsche, no comunismo e Nazismo. Voegelin define Marx como um gnóstico especulativo, que definia o homem como um produto da natureza, mas que dizia não saber de onde nós viemos e nem mesmo queria que fizéssemos essa pergunta. Segundo Voegelin, essa é a maneira marxista da proibição de se fazer perguntas. Quando o homem socialista fala, o homem tem que ficar em silêncio.Voegelin então define Marx como um vigarista. Sendo um gnóstico especulativo, Marx deseja destruir a realidade para construir uma segunda realidade, como disse Robert Musil.

Hegel é classificado como o maior dos gnósticos por Voegelin, por pretender que a filosofia seja o próprio conhecimento. É a transformação da filosofia na própria gnose. Na nova sociedade desejada por Comte e Marx, toda a especulação filosófica e Teológica estão banidas pela proibição de se fazer perguntas como de onde o homem veio, por exemplo.

Como diz Voegelin, a morte de Deus e a afirmação gnóstica da existência de um novo homem nazista ou comunista resulta na aniquilação do próprio homem.

Voegelin define o pensamento gnóstico e socialista como a tentativa de modificar um mundo muito pouco organizado por Deus. A salvação desse mundo maligno é possível. No caso socialista, isso é possível com ações revolucionárias que estejam dispostas a mudar a realidade e criar um homem novo.

O alerta de voegelin está aí para que todos leiam. A gnose, ou a busca da própria salvação através do conhecimento, e tentativa de aniquilação do próprio ser para que possa ser gerado o homem novo, sempre esteve aí como uma tentação para os cristãos. O que é preciso é ficar alerta sobre este perigo.