Sobre o quinto livro do De Divisione Naturae de João Escoto Erígena

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Exivit igitur a Patre et venit in mundum, humanam videlicet naturam accepit in qua totus mundus subsistit; nihil enim in mundo est quod non in humana natura comprehendatur : et iterum reliquit mundum et ivit ad Patrem, hoc est humanam quam acceperat naturam, super omnia visibilia et invisibilia, super omnes virtutes coelestes, super omne quod dicitur et intelligitur, suae deitate quae Patri est aequalis, adunans sublimavit. Quanquam enim totam humanam naturam, quam totam accepit, totam in seipso et in Toto humano genere totam salvavit; quosdam quidem in pristinum naturae statum restituens, quosdam vero per excellentiam ultra naturam deificans: in nullo tamen nisi in ipso solo humanitas deitati in unitatem substantiae adunata est, et in ipsam deitatem mutata omnia transcendit.

 

E Ele saiu do pai e veio ao mundo, e tomou para si a natureza humana no qual todo o mundo subsiste, e não há nada na natureza humana que não compreenda. E novamente ele saiu do mundo e foi para o Pai, ou seja, a natureza humana que recebeu, acima de todas as coisas visíveis e invisíveis, acima de todas as virtudes celestes, sobre tudo aquilo que é dito e compreendido, sua divindade que é igual à do Pai, na união sublimou-se. Ao mesmo tempo, para a totalidade da natureza humana, à qual recebeu, ele salvou todo o conjunto da raça humana em si mesmo: para alguns, deve ser restaurado seu estado original na natureza; em outros a excelência está na deificação; no entanto, de modo algum a humanidade em si é unida em uma substância única, mas transcendemos todos na Divindade.

João Escoto Erígena, De Divisione Naturae, Quinto Livro. [Read more…]

Resenha: O Outono da Idade Média, de Johan Huizinga

O outono da idade media

Clássica visão da Idade Média 
O livro revela os ideais da vida na corte na França e Países Baixos nos séculos XIV e XV. A visão do amor e da morte e os ideais da cavalaria; a vida religiosa e os seus excessos, que muitas vezes caem na superstição. Huizinga nota como a Igreja era tolerante com os mais estranhos desvios doutrinários. A parte mais famosa do livro é a que fala do sentimento estético. O melhor do espírito medieval foi preservado na pintura flamenga, mais do que na poesia. Há uma análise detalhada da obra de Van Eyck, e uma parte que mostra o desprezo de Michelangelo pela arte medieval, que ele não compreendia. [Read more…]

As características da pólis ( madîna) no islã: a visão de Al-Farabi

Madina

Abu Nasr al- Farabi foi um filósofo muçulmano de provável origem turca que foi o segundo filósofo de língua árabe depois de al-Kindi a ter como base de seu pensamento a filosofia grega de Platão e Aristóteles. Seu livro sobre a Política apareceu no mundo islâmico no século X quando a Europa ainda estava longe de fazer semelhante debate sobre os regimes políticos e as cidades. As reflexões de Al-Farabi estão contidas no seu livro Kitâb Al- Siyâsa Al- Madaniyya. Nele há um início que fala sobre a constituição dos seres de acordo com a filosofia aristotélica. A causa primeira e as causas segundas, assim como o intelecto agente são definidos por Al-Farabi, O intelecto agente é chamado por ele de Espírito Santo, sendo que essa terminologia também seria usada por Avicena mais tarde. A forma e a matéria são explicadas à maneira da filosofia grega como ato e potência. “Quando não existem formas, a existência da matéria é vã”. A matéria é o princípio e a causa, mas existe para sustentar a forma. Al-Farabi explica isso pela visão: essa é a substância, o olho é a sua matéria e a maneira como vê é a sua forma. Toda a cosmografia desse filósofo é tirada de Aristóteles e Ptolomeu. Os corpos celestes que influenciam a vida aqui na Terra, a política e a cidade. Determinada localização favorece uma cidade com mais ou menos liberdade e com essas ou aquelas características. Toda essa introdução é necessária, pois Al-Farabi não diferencia sua filosofia de sua política. Influenciado pela filosofia grega e bem pouco muçulmano nesse aspecto, Al-Farabi define à felicidade como o bem absoluto. Nessa parte a filosofia política de Aristóteles e Platão se alternam na mente do filósofo turco. Ele aceita a definição do homem como animal político e que se une para alcançar o maior bem para si e para sua comunidade. Agora vamos partir para as cidades.

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A Filosofia de Ibn Sina ( Avicena)

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Médico e filósofo persa, Avicena foi de uma enorme influência na filosofia escolástica, sem falar na sua obra Canôn de Medicina, que foi durante séculos a base do ensino desse ciência no Ocidente.

A filosofia de Avicena caracteriza-se por tentar fazer uma síntese do pensamento de Platão com Aristóteles. Essa tentativa foi duramente criticada no século XII por Averróis. Vamos a alguns dos principais pontos da sua filosofia:

O universo, para Avicena, é constituído por três ordens: o mundo terrestre, cujo ponto mais alto é a alma humana; o mundo celeste, cujo ponto mais alto é o primeiro causado; e Deus, que é o cimo supremo.

Avicena explica o mundo à maneira de Aristóteles, pois sua filosofia repete as teorias do ato e potência, matéria e forma e as quatro causas. A diferença é que Avicena propõe uma tese original sobre a inteligência humana, que segundo o filósofo persa, estabelece a união entre o mundo material e o mundo celeste pelos seus cinco graus. Thonnard assim os resume:

A inteligência material, que é a faculdade antes de qualquer operação, e também é potência pura, mas na ordem intencional;

A inteligência possível, que é a faculdade que possui apenas os primeiros princípios intelectuais;

A inteligência em ato, que é o ato primeiro, ou faculdade disposta a agir, porque possui a ideia ( a espécie impressa) e a ciência em ato;

A inteligência adquirida, que conhece o ato segundo;

A faculdade intuitiva de ordem mística, chamada por Avicena de O Espírito Santo, porque une a alma a Deus. Essa faculdade também é conhecida como o Espírito de profecia que, segundo Gilson, era o lugar que Avicena reservou para o profeta Maomé.

Na sua filosofia, essas inteligências estão em potência, e para passarem ao ato, requerem a influência de um Intelecto Agente.

Avicena insiste que a nossa alma está separada do intelecto agente, sendo espiritual e imortal. A existência de Deus, para Avicena, é demonstrada pela noção de Ato puro e do primeiro motor de Aristóteles, de forma que para o filósofo persa, Deus é o único ser cuja essência é idêntica à existência. Avicena esforçou-se para conciliar a noção platônica de participação, a astronomia de Ptolomeu e o Deus aristotélico.

Mas Avicena negava uma crença fundamental da filosofia aristotélico-tomista, que é a união da alma e do corpo. Sua filosofia, segundo Gilson, está amarrada à noção de necessidade dos filósofos gregos, e essa doutrina teve que ser combatida pelos filósofos da escolástica. Avicena também nega o ato da criação, pois admitia que causas inferiores atuavam como instrumentos da causa primeira.

A doutrina da inteligência ativa e da inteligência passiva em Avicena causou um espanto entre os cristãos, como diz Gilson. No livro da Alma, Avicena diz que a alma é inteligente em potência, e só depois se torna inteligente em ato. Ele compara a iluminação do sol na nossa visão com a nossa faculdade intelectual, que vê os particulares que estão na imaginação e brilha sobre eles.

Bibliografia: F.J.Thonnard, Compêndio de História da Filosofia

Étienne Gilson, A Filosofia na Idade Média

Resenha do Espírito da Filosofia Medieval, de Etienne Gilson

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A filosofia já havia atingido o seu ponto máximo com a doutrina aristotélica, e o que o filósofo Tomista Etienne Gilson pretende nos apresentar nesse livro, é o que a filosofia cristã ou árabe trouxe de novo para o pensamento do homem ocidental.

Gilson analisa a teologia cristã desde o início da patrística até a filosofia de Guilherme de Ockham. A primeira questão a ser respondida é: Aristóteles e Platão tiveram a noção de um Deus único e se aproximaram do Cristianismo de alguma forma? De certa forma eles chegaram, sim, a ter uma ideia da revelação cristã, mesmo que de forma imperfeita. Platão com o seu mundo das ideias muito influenciou Santo Agostinho, mas sua filosofia tinha uma concepção errônea da matéria ( mundo sensível), o que levava a um pessimismo e desconfiança do corpo humano e dos trabalhos manuais. Isso se refletiu na filosofia de Plotino, por exemplo. Já Aristóteles com sua filosofia realista, que foi praticamente ignorada na antiguidade, pois mesmo Santo Agostinho a conhece pouco, teve muita influência no islã e no cristianismo da escolástica. A noção aristotélica do primeiro motor foi à que mais se aproximou do Deus único do cristianismo e do islã. Os cristãos perceberam, no entanto, que Aristóteles, apesar de não considerar à matéria como má, tinha a opinião de que nela havia alguma potência de causar a desordem.

O cristianismo teve que lutar logo no início contra a heresia dos gnósticos, que tinham como base muita influência da filosofia dos neoplatônicos. Os filósofos cristãos combateram o pessimismo gnóstico com um otimismo de um Deus que não está exposto à nenhuma causa intermediária. Quem mais contribuiu para afirmar a dignidade da matéria foi Santo Agostinho, que afirmava que a matéria não é a causa do mal, pois o mundo como Deus criou é excelente, e teria continuado a ser, se uma falta nascida no reino do espírito e não no da matéria, não houvesse introduzido a desordem até na matéria. Para a filosofia católica, toda a natureza é boa e não nega o mal, mas mostra seu caráter negativo e acidental.

O cristianismo é um avanço em relação à filosofia da antiguidade pela novidade das virtudes teologais, assim como a noção de humildade, desconhecida dos antigos. Outra contribuição da filosofia cristã é a afirmação que Deus criou tudo a partir do nada, que os filósofos antigos, especialmente Aristóteles, não puderam compreender.

A filosofia cristã atingiu o seu auge com São Tomás de Aquino, com suas provas racionais da existência de Deus a partir dos efeitos por nós conhecidos, e da sua doutrina da afirmação da união do corpo e da alma, afastando o perigo do espiritualismo exagerado dos platônicos.

É claro que a Escolástica teve muita influência de Avicena e Averróis, por causa de que os filósofos do islã tiveram acesso primeiro à filosofia aristotélica. Avicena, em especial, dará a São Tomás de Aquino a definição célebre de que a verdade é a adequação do intelecto ao objeto. Entretanto, mesmo Avicena teve os seus erros e imperfeições detectados pela escolástica.

O grande problema foi que a filosofia de São Tomás de Aquino foi desde o início combatida por Duns Scot e Guilherme de Ockham, que introduziram no Ocidente a noção de dúvida muito antes de Descartes. Nasce então a crença de que fé e razão estavam separadas; que o conhecimento geral e teórico era inútil, pois só a experiência aplicada aos particulares seria válido. Com o surgimento do fideísmo, a fé passa a ser sentimental e particular, abrindo caminho para Lutero.

A filosofia católica já tinha as respostas para as incertezas trazidas pelo Renascimento. Por exemplo,Lutero e Calvino nos dão a imagem de um universo cristão cuja natureza é corrompida pelo pecado; mas a teologia católica de Santo Agostinho faz verdadeiros elogios à natureza decaída.Ele deplora o que perdemos, mas nunca pensa em desprezar o que nos resta.Para Gilson, a Renascença marca o início da era em que o homem se declara satisfeito com o estado de natureza decaída.

Foi a filosofia cristã da patrística e da escolástica que declararam o trabalho manual como digno, e o ser humano como o centro da criação divina, concedendo à espécie humana uma enorme dignidade. O espírito da filosofia medieval foi a busca de uma fé racional, que possibilitasse ao homem reconhecer à sua natureza de pecador pelo pecado de Adão, mas que pela Graça divina pudesse saber que Deus caminha sempre ao seu lado na história, e que ele não está abandonado em um mundo com muitas adversidades, mas que o cristão sabe que é o que Deus poderia ter feito de melhor. O resultado foi um grande otimismo que impulsionava o homem medieval, que via no mundo e no universo a imagem do Deus criador. Sabemos que tudo isso viria a ser destruído depois pela filosofia moderna, que transformou o homem em um híbrido de macaco com ser racional, e que vê o mundo, da mesma forma como os gnósticos do início da nossa era, como sendo essencialmente mau pela própria existência do homem, no qual acreditam que seria melhor que não existisse.

 

Resenha de A Burguesia, de Régine Pernoud

A Burguesia

 

O surgimento da burguesia
Desde o aparecimento da palavra Burguês no longínquo ano de 1007, historiadores, economistas e filósofos se perguntam: o que é um burguês?

A excelente historiadora Régine Pernoud define o burguês da Idade Média como um homem da cidade, que é sobretudo um comerciante e que idolatra o direito romano. A influência do direito romano na Idade Média foi enorme e se fez sentir no direito canônico da Igreja, no Romance da Rosa e nas universidades.

Nos séculos XVII e XVIII a burguesia fará triunfar duas mentalidades: o livre comércio e o liberalismo econômico. Surge então a prática do açambarcamento e do monopólio, que haviam sido condenadas na Idade Média.

O filósofo que dá a base à burguesia é Descartes, ele próprio um burguês, que rejeitava o passado e a filosofia escolástica. Diz Régine Pernoud: ” Descartes ensinava uma filosofia estritamente racional; ele desconfiava instintivamente de tudo o que não se podia contar ou formular de maneira evidente”. Tal como Descartes, a burguesia deixa a Metafísica fora de suas investigações.

Já o burguês do século XIX pode ser definido como um capitalista, uma pessoa especialmente preocupada com a propriedade e que gosta de aplicar seu dinheiro em bens imobiliários. Seu credo é a declaração de direitos do homem, especialmente a parte que diz que a propriedade é ” um direito inviolável sagrado”.

O burguês é um homem que despreza as províncias, que paga imposto, sendo, portanto, um eleitor. É um homem culto, que baseia sua educação na cultura clássica. Sua mulher tem qualidades de dona de casa e recebeu uma educação religiosa, que é importante para as mulheres. Tem somente um filho e sua mulher suporta que tenha uma amante. O burguês do século XIX se escandaliza por a Igreja ter renovado sua condenação dos juros.

Marx estava certo sobre o papel revolucionário da burguesia na história, e Lenin, que era um burguês, está aí para comprovar a tese.

Resenha do livro Arte e Beleza na Estética Medieval, de Umberto Eco

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A Beleza da Idade Média
Para começar, eu recomendo que se leia esse livro junto com o Outono da Idade Média, de Huizinga. Eco cita Huizinga que demonstra que os medievais convertiam rapidamente o sentimento do Belo com a pura e simples alegria de viver. O Belo deveria coincidir com o bom e o verdadeiro. Uma das crenças mais fortes da Idade Média era a da beleza e bondade do mundo e de todos os seres. A imagem do universo é cheia de luz. Os medievais baseavam-se no livro do Gênesis e o da Sabedoria.

Eco diz que a metafísica medieval irá refutar o gnosticismo demonstrando que a unidade, verdade e bondade não são valores acidentais, mas são inerentes ao ser em nível metafísico. Disso resultará que toda a coisa que existe é verdadeira e boa.

A escola de Chartres dirá que a natureza e não o número é que rege este mundo. Alain de Lille cantará:

Ó filha de Deus e mãe das coisas,
que manténs unidos e tornas estável o mundo,
gema para os homens, espelho para os mortais,
luz do mundo.
Paz, amor, virtude, governo, poder,
ordem, lei, fim, caminho, guia, origem,
vida, luz, esplendor, forma, figura,
regra do mundo.

O livro destaca uma das características mais notáveis da arte medieval: o gosto pela luz. Isso fará nascer a catedral gótica e seus magníficos vitrais e irá gerar uma das mais espetaculares invenções medievais: os óculos. Dirá Suger sobre a sua obra: ” e o que uma luz nova inunda, brilha como nobre obra”.

As grandes maravilhas da idade média, como suas catedrais românicas e góticas, suas cidades e pequenas vilas, sua arte e sua escultura, nos maravilham até hoje. A idade média produziu uma beleza e uma estética que eu considero a mais bela de todos os tempos. Tudo nos fala de fé, esperança, amor a Deus e combate ao mal, nos lembrando sempre que quem não combater irá se perder. A poesia medieval nos deixa o Lauda Sion, o Stabat Mater e o Dies Irae, e sua arquitetura criará cidades como York e Carcassone.

O alegorismo artístico de Van Eyck, os vitrais e das esculturas como o belo Deus de Amiens podem ser representadas novamente pela poesia de Alain de Lille:

Toda a criatura do mundo,
como se fosse livro ou pintura,
é para nós como um espelho.
Da nossa vida, da nossa morte,
da nossa condição, da nossa sorte,
fiel signo.

Essa beleza da idade média que nos atrai atá hoje é devido à sua proporção, como nos diz São Tomás: ” o belo consiste na devida proporção, pois nosso sentidos deleitam-se nas coisas bem proporcionadas”. O sentido como qualquer outra faculdade cognoscitiva é uma espécie de proporção. Três coisas são requeridas para serem consideradas belas segundo São Tomás: integridade, harmonia e clareza ou esplendor.

Treze, O Maior de Todos os Séculos

Estou lendo agora o livro de James Walsh, The Thirteenth Greatest of Centuries. É um livro antigo e fantástico sobre o último século em que a humanidade foi verdadeiramente religiosa. Os capítulos desse livro falam sobre as Universidades que surgiram como uma constelação no século XIII, o que os alunos estudavam, a quantidade de estudantes e a disciplina, a educação popular, as escolas técnicas de artes, as origens da pintura, as bibliotecas. Também fala sobre os grandes Hinos latinos da época, os livros mais lidos, a prosa e a origem do drama.

Grandes personagens da época como São Francisco de Assis, São Tomás de Aquino, São Luís, Dante Alighieri e as mulheres do século XIII, são nos apresentados com grande profundidade.

O grande esforço da igreja em construir hospitais, as origens da lei, do comércio; a evolução da democracia e do socialismo cristão e os grandes exploradores e suas contribuições geográficas também são narrados por Walsh.

O século treze é considerado por Walsh como o maior da história. Esse século é uma consequência de uma continuidade da filosofia grega e sua união com a religião cristã. O último século antes da revolução do século XIV, com Guilherme de Ockham e o início da fé sentimental.

O século XIII foi aquele que soube unir definitivamente a a fé e a razão com a filosofia de São Tomás e o nascimento das universidades. Depois de São Tomás, ninguém mais ousou escrever tão profundamente sobre Deus e a teologia nos séculos seguintes.

O século XIII nos deu também um dos personagens mais importantes e inspiradores da história que foi São Francisco. Sua vida e o seu exemplo até hoje são uma das maiores riquezas da religião católica em sua história.

As universidades também são fruto do gênio católico e são a maior contribuição da Idade Média à humanidade, junto com a filosofia de São Tomás e os hospitais. Existem também várias outras contribuições desse século que são mencionadas no livro.

Esse livro é fundamental para quem é apaixonado pela história medieval, pela filosofia e teologia da época, e pela biografia de personagens que marcaram a vida da igreja da época.

A filosofia na Idade Média, de Étienne Gilson

Toda a filosofia medieval
Uma obra completa e, certamente, não para iniciantes, com importantes capítulos sobre a patrística e a filosofia oriental.Pude conhecer a filosofia de João Escoto Erígena e Avicena, e ter ótimas explicações sobre o argumento ontológico de Santo Anselmo e a doutrina do intelecto agente, de Averróis.No capítulo sobre Duns Scot, vemos a reação contra a filosofia de Santo Tomás. Para Santo Tomás, as provas da existência de Deus são apenas demonstrações pelo efeito, mas são demonstrações; para Duns Scot, as provas da existência de Deus são demonstrações apenas relativas. Com Duns Scot, temos o início do fideísmo, diferente da escolática do século XIII que soube unir a fé e a razão. Este teólogo afirmava que a existência de uma alma imortal não poderia ser provada pela razão, nem a priori, nem a posteriori; apenas a fé nos garante que a alma existe. Com Guilherme de Ockham, a existência de Deus torna-se apenas provável. Não podemos provar que Ele seja o Ser Supremo ou que seja Onipotente. Ockham irá afirmar a livre vontade de Deus, ou seja, se Deus quisesse que os pecados como roubo e assassinato fosses bons, assim seria.

O universo da filosofia de Avicena compõe-se de essências ou naturezas, que constituem o objeto próprio do conhecimento metafísico. Cada indivíduo é singular de pleno direito: a ciência tem por objeto os indivíduos. Um pensamento de Avicena se tornou célebre na idade média. Por exemplo: a essência, ou natureza, é indiferente tanto à singularidade como à universalidade. A “cavalidade” é a essência do cavalo, independente de que se tome a ideia geral de cavalo, ou seja um cavalo particular. “equinitas est equinitas tantum”. Ser um cavalo é apenas ser um cavalo. A doutrina da inteligência agente de Avicena causará espanto entre os cristãos. Ele admite em cada alma um intelecto que lhe é próprio. No primeiro grau esse intelecto é vazio; no segundo, já está dotado de sensações e imagens;o intelecto já não está em potência, mas em ato; no terceiro grau, ele se volta para a inteligência agente separada para dela receber as formas inteligíveis correspondentes a suas imagens sensíveis. Possuir a ciência é aptidão adquirida pelo exercício a recebê-la da inteligência agente. Avicena coloca um só intelecto agente para toda a espécie humana, ao mesmo tempo que se atribui um intelecto possível para cada indivíduo.

Para Duns Scot o homem deve tirar seu conhecimento do sensível. Não temos nenhum conceito direto do que possam ser as substâncias imateriais como os anjos e Deus. Tendo Duns Scot colocado como sendo Deus o ser necessário acessível à especulação metafísica, separa-se de Avicena para quem o possível emanava do necessário via necessidade. Para Duns Scot, o possível vem do necessário por um ato de liberdade. É o que caracteriza a sua filosofia a insistência da livre vontade de Deus. Se Deus quer uma coisa, essa coisa será boa; e se ele tivesse querido outras leis morais diferentes das que estabeleceu, essas leis teriam sido justas. Ele defende a liberdade da vontade, que tem primado sobre a inteligência e é mais voluntarista do que intelectualista.

Todas as provas da existência de Deus são relativas, porque só alcançamos Deus a partir dos seus efeitos. Com Duns Scot toda uma série de teses que pertenciam até então à filosofia se veem remetidas à teologia. Mesmo se a razão natural bastasse para provar que a visão e o amor a Deus são a finalidade do homem, ela não poderia provar que essa visão deve ser eterna, e que o homem deve ter a Deus como fim. Gilson demonstra que esse pensamento vai levar à separação entre a metafísica e a teologia positiva. O Deus de Duns Scot está preso à necessidade grega dos filósofos árabes. É o necessitarismo puro de Aristóteles que se esconde atrás de Averróis e Avicena.

Ockham acredita que o conhecimento intuitivo é o único que permite alcançar os fatos e rejeita o conhecimento abstrato. Quer saber se uma essência existe? É preciso saber se ela coincide com o particular. O único meio de provar que uma coisa é causa de outra é recorrer à experiência e raciocinar pela presença e ausência. Para o tomismo, a ciência tem por objeto o geral; para Ockham a ciência tem por objeto o particular. Um universo em que nenhuma necessidade inteligível se interpõe, mesmo em Deus, entre sua essência e suas obras, é radicalmente contigente, não só em sua existência, mas em sua inteligibilidade. As teses de Ockham se traduziu para Gilson em um ensimesmamento da ciência Sagrada que se colocará a partir de então como capaz de se bastar sem recorrer aos ofícios da filosofia.

A História do Ocidente Medieval

Esse livro antigo do medievalista francês Jacques Le Goff ainda é uma referência para sabermos de diversos aspectos do mundo medieval. Le Goff nesse livro estudou toda a idade média, ao contrário do que faria depois em sua carreira, de se concentrar mais na Baixa Idade Média.

O começo do livro fala um pouco sobre como era a civilização romana, que era extremamente fechada em seu próprio mundo, e de como após sua queda, a Europa teve que suportar não só a invasão de diversos povos, mas também as influências culturais deles, especialmente dos celtas e germânicos.

Na alta Idade Média houve um declínio de população, e os centros de ensino foram destruídos, restando apenas os mosteiros como escolas e bibliotecas. A filosofia grega foi toda transferida para Bizâncio e a Síria, e o Ocidente teve que se contentar com as sobras que Boécio conseguiu juntar.

O dinheiro sumiu de circulação e a escravidão desapareceu, sendo substituída pela servidão. Se isso foi uma influência da igreja, ou apenas uma consequência econômica do feudalismo é algo que ainda pode ser debatido. A Europa então passou a viver momentos dramáticos, como estar sujeita a governos bárbaros que mal tinham se convertido ao cristianismo, ao analfabetismo e a uma baixíssima expectativa de vida.

Para piorar, surgiram nas fronteiras da Europa duas grandes ameaças: os Vikings e, principalmente, os árabes. No norte a Europa viu-se arrasada pelos saques dos Vikings, que tiveram seu auge no século IX. Ao sul, na Espanha, no sul da França e da Itália, estava uma ameaça muito maior: a religião muçulmana. Vários desses locais foram arrasados; populações inteiras nesses locais sofreram durante séculos com os ataques piratas dos árabes em busca de escravos para seus haréns. Parecia que a Europa estava perdida.

Mas nessa época surgiram dois personagens que livraram a Europa de seus piores dias: Carlos Martel e Carlos Magno. O primeiro derrotou as tropas árabes em Tours, permitindo a sobrevivência da civilização cristã; o segundo reconstruiu a Europa politicamente e economicamente, também dando início a um processo de alfabetização e reconstrução das escolas, no que ficou conhecido como o renascimento carolíngio.

A obra de Carlos Magno, porém, durou pouco, por causa dos ataques dos vikings. O surgimento da Europa como potência teria que esperar mais um pouco.

O renascimento da Europa

No século XI, graças aos avanços na agricultura e no crescimento do comércio, a civilização europeia surge como uma nova força no mundo medieval. A população passa a crescer como nunca, gerando uma nova força de trabalho. Com o início das cruzadas em 1096, a europa dá seu aviso ao mundo islâmico e a Bizâncio, como diz Chesterton em A Nova Jerusalém: ” Roma está acordada; Roma ressurgiu dos mortos”. Uma nova e confiante civilização está pronta para dominar o mundo.

A técnica e as invenções

Le Goff demonstra que a técnica do ocidente medieval não era inferior à bizantina e à islâmica. No início sofrendo pela destruição das invenções e tecnologias romanas, a Europa medieval soube se reinventar, e sua mentalidade era como uma esponja, absorvendo tudo que podia aprender com os outros, e sabendo ser criativa criando suas próprias invenções. O colar para cavalo, as ferraduras, a cavalaria, a bússola( que é uma invenção independente dos europeus e muito superior à chinesa), os óculos e os relógios mecânicos, sendo essas três últimas invenções exclusivas dos europeus durante séculos, transformariam a civilização medieval para sempre.

As fomes e a fragilidade econômica

Talvez o aspecto que cause mais resistência às pessoas modernas para aceitarem a Idade Média, é o fato do feudalismo ter provocado situações inusitadas e fatais em determinados momentos. Na alta idade Média, o dinheiro praticamente deixou de circular, e os banqueiros dos reis eram os judeus, muito tolerados nessa época. Na baixa Idade Média o dinheiro volta a circular por causa das cruzadas e do surgimento dos bancos. Sim, o sistema bancário é uma invenção da Idade Média.

Uma situação absurda citada por Le Goff é a existência das alfândegas interiores, que cobravam pedágio dos alimentos de uma cidade vizinha para a outra. Isso revelou ser uma armadilha, pois quando havia um baixo estoque de alimentos em uma cidade, a que estava mais próxima não conseguia enviar ajuda imediata, e o resultado disso eram as fomes frequentes, principalmente nps séculos X e XI, e doenças sinistras como o fogo de Santo Antão, conhecida hoje como ergotismo.

Mentalidade

O mito diz que os europeus eram atrasados e que viviam com medo do diabo e do inferno, com uma igreja que controlava todo o saber. Le Goff diz que apesar de certas ideias dos medievais serem para nós hoje uma coisa distante, a igreja daquele tempo soube conciliar a fé com a razão, graças à filosofia escolástica, e que a mentalidade cristã favoreceu sempre a ideia de progresso. Os medievais, apesar das dificuldades, sempre acreditaram que a história progredia, e que o homem tinha um fim, que seria com Deus no paraíso. A ideia de que Deus agia na História, e que as invenções e o progresso eram algo desejado por Deus.

O grande legado da Europa para a civilização: as universidades e o nascimento da ciência.

A Europa não era uma civilização fechada como Bizâncio ou o islã a partir do século XI. Os europeus souberam absorver os conhecimentos das civilizações vizinhas como os algarismos hindus e a ciência médica árabe, mas no entanto, a grande contribuição à medicina veio da europa medieval: as dissecações de cadáveres, que tiveram início no século XIII. Proibida na antiguidade e no mundo islâmico, as dissecações foram uma grande contribuição da ciência medieval para o nosso mundo.

Para quem acha que o conhecimento na Idade Média era dogmático e fechado, a invenção mais genial desse tempo, as universidades, são a prova de que os medievais discutiam ideias contrárias às suas, e que o livre debate e a autonomia dessas instituições estavam garantidos desde o princípio. As universidades também permaneceram uma instituição cristã exclusiva durante séculos.

Esse livro de Le Goff foi escrito em uma época em que ele parecia ser mais pessimista a respeito dessa época do que viria ser depois. Nos livros mais recentes, Le Goff é mais otimista e menos preocupado com a luta de classes daquela época, na década de 1960. É um ótimo livro para quem deseja conhecer toda a Idade Média.