Platão, Lutero e o homem justo

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O seu cadáver não permanecerá no madeiro, mas certamente o enterrarás no mesmo dia; porquanto o pendurado é maldito de Deus; assim não contaminarás a tua terra, que o Senhor teu Deus te dá em herança.

οὐκ ἐπικοιμηθήσεται τὸ σῶμα αὐτοῦ ἐπὶ τοῦ ξύλου ἀλλὰ ταφῇ θάψετε αὐτὸν ἐν τῇ ἡμέρᾳ ἐκείνῃ ὅτι κεκατηραμένος ὑπὸθεοῦ πᾶς κρεμάμενος ἐπὶ ξύλου καὶ οὐ μιανεῖτε τὴν γῆν ἣν κύριος ὁ θεός σου δίδωσίν σοι ἐν κλήρῳ.

Deuteronômio, 21:23 (Septuaginta, a versão grega do Antigo Testamento)

“Se você pergunta por que não acreditamos em Moisés é por causa de nosso amor e reverência por Cristo. A pessoa mais imprudente não pode ter prazer em considerar alguém que amaldiçoou seu pai. Nós abominamos Moisés, nem tanto por sua blasfêmia a todas as coisas divinas e humanas, mas sim pela sua horrível maldição que ele pronunciou contra Cristo o Filho de Deus, que por nossa salvação foi pendurado em uma árvore.

[…] suas palavras são: “maldito seja aquele que foi pendurado em uma árvore”. Você me diz para acreditar neste homem, apesar de que, se ele foi inspirado, ele deve ter amaldiçoado Cristo conscientemente e intencionalmente; se ele fez em ignorância, ele não pode ter sido divino. Escolha uma das alternativas.”

Fausto, Bispo maniqueu, em resposta a Santo Agostinho

“Assim sendo, o justo será flagelado, torturado, amarrado; seus olhos serão queimados e, por fim, depois de sofrer todos os males, será crucificado (άναοχινδυλευϑήσεται, que em grego significa “será atado ao tronco”)”

ἐκκαυθήσεται τὠφθαλμώ, τελευτῶν πάντα κακὰ παθὼν ἀνασχινδυλευθήσεταικαὶ γνώσεται ὅτι οὐκ εἶναι δίκαιον ἀλλὰ δοκεῖν δεῖ ἐθέλειν

Platão, A República, 362a

“Mesmo que as considerações de Platão sejam  apenas um momento da preparação dialética para a compreensão da justiça e para mostrar o caminho do verdadeiro entendimento da mesma, fica claro (no Mito do Anel de Giges) como são ambíguos os motivos da ação humana, e como é problemático dizer que você faz alguma boa para seu próprio bem.

De modo significativo é o sofrimento do homem justo que traz a motivação de Platão- e de Lutero- à luz. A questão de seu caráter único é o que leva à filosofia da cruz, no qual o senso de moralidade ameaça entrar em colapso.

Na figura do sofredor justo de Glaucon, dada as complexidades dos motivos humanos,  a questão da vontade de justiça, em volta do motivo da retidão, passa a girar em torno da pureza da motivação; então agora é a pureza, ao invés da justiça, que passa a ser a motivação.

A concepção de Lutero do quaerere quae sua sunt (buscar o que é seu) em comparação com Platão busca certamente o pensamento moral e metafísico, mas Paulo o faz em Romanos capítulo 7 ao modo da teologia; porém, Lutero vai muito além da moral em seu entendimento do pecado.

Experiência e autoconhecimento podem levar à clareza que a pessoa procura o que é seu em muitas coisas, mas não é o caso que o faça “em todas as coisas” (Romanos 6).”

Theodor Dieter, Der junge Luther und Aristoteles, P.93, 94, Editora De Gruyter, 2001(tradução nossa a partir do original em alemão)

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Algumas opiniões de Lutero sobre Aristóteles

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Aristoteles male reprehendit ac ridet Platonicarum idearum meliorem sua philosophiam.

“Aristóteles refuta muito mal as Ideias platônicas, que são melhores do que sua filosofia.”

Cui per omnia contrarius Aristoteles ridet illa separata et intelligibilia et trahit ad sensilia et singularia penitusque humana et naturalia. Verum id facit astutissime: Primo, quia non potest negare illa individua esse fluxa, finxit aliud formam, aliud materiam, et ita res ut materia non est scibilis, sed ut forma. Ideo dicit formam esse causam sciendi, et hanc vocat “divinum, bonum, appetibile” et huic intellectum tribuit. Et sic eludit omnium mentes, dum eandem rem dupliciter considerat.

“Sendo em tudo contrário às Ideias, Aristóteles ridiculariza as coisas inteligíveis e separadas e as coloca nas coisas sensíveis e separadas, completamente humanas e naturais. Mas ele faz isso muito astutamente.

Primeiro, porque ele não pode negar que o individual está em fluxo, ele inventa uma forma e uma matéria diferente, então a coisa não é conhecida como matéria, mas sim como forma. Portanto, assim ele diz que a forma é a causa do conhecimento, e a isso ele denomina “divino, bom e desejável”, e ele atribui ao intelecto. Então ele frustra toda mente, pois examina a mesma coisa duas vezes.”

Martinho Lutero, Probationes (tradução nossa a partir do original em latim)

“Na vigésima oitava prova da tese da disputa de Heidelberger, Lutero delineia um argumento contra um teorema aristotélico fundamental. Em contraste com a crítica de Lutero à compreensão aristotélica da virtude da justiça, ainda não ganhou ainda a atenção devida. Embora a objeção de Lutero tenha sido percebida e parafraseada, mas não de maneira sistemática, a intenção é examinar a consideração de Lutero, pois Aristóteles, em sua doutrina psicológica, descreve a estrutura ôntica do pecador, que busca suas próprias coisas em tudo. Mas o fato do pecador ser pensado como um homem autoritário está em contradição com a Teologia.”

“A segunda parte, está claro, é toda do filósofo e do teólogo, pois o objeto é a causa do amor, colocando Aristóteles toda a potência da alma passiva para receber o material, e demonstra que a filosofia é contrária à teologia, enquanto em todas as coisas pede aquelas que são suas, e aceita mais do que o bem que contribuiu. “ Lutero

Theodor Dieter, Der junge Luther und Aristoteles (Tradução nossa a partir do original em Alemão/Latim)

“Parece que aquele que deseja coletar todas as coisas de uma só vez está apenas adquirindo para si mesmo o desespero com grandes lamentos, pois ficará cheio de desespero se espera que Deus vai fazer chover boas coisas para ele neste presente momento, mas não depois. E tornar-se-á cheio de infidelidade se não acredita que a Graça Divina não irá, agora e em todos os tempos, cair sobre aqueles que são dignos dela; e será um tolo se pensa que será um guardião competente aquele que coleciona coisas contrárias à vontade de Deus…”

Fílon de Alexandria, The Allegories of the Sacred Laws, after the work of the six days of the Creation (tradução nossa a partir do inglês)