Sobre o pensamento político de Nicolau Maquiavel

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Em tempos sombrios como o que estamos vivendo em nosso país, nada melhor que nos voltarmos para o estudo da ciência política para uma melhor compreensão das ações de qualquer governo. Como afirmou São Tomás de Aquino em seu Comentário à Ética a Nicômaco, “a ciência política dá ordem sobre quais ciências devem ser buscadas em um Estado, quais ciências o homem deve aprender e por qual período”. Sem uma ciência política adequada, como as outras ciências ou a educação poderão florescer em um Estado?

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Resenha: The Destruction of Reason, de György Lukács

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O historiador de origem húngara John Lukacs, compatriota do filósofo György Lukács, em seu livro O Hitler da História, afirma que The Destruction of Reason é o livro mais fraco do filósofo húngaro de inegável talento. O historiador Lukacs é confessadamente conservador, ao contrário do filósofo Lukács, que foi um dos grandes intelectuais do marxismo. Não conheço em toda sua extensão a obra do filósofo marxista, mas, comparando The Destruction of Reason com os outros livros de Lukács, creio que ele está dentro do mesmo nível tanto em seus erros como em suas verdades. [Read more…]

Resenha: Getúlio, 1882-1930, de Lira Neto

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Lira Neto é um dos melhores escritores de biografias atualmente. Seu livro sobre o padre Cícero, já resenhado por mim, é muito bom e foi bastante elogiado. Agora, com o lançamento da trilogia sobre a vida do político mais importante da história do Brasil, Getúlio Vargas, a tarefa tornou-se muito mais complicada, pois se trata de um personagem polêmico e que ainda hoje é muito citado por políticos do de nosso tempo, pois Lula o defende, e Fernando Henrique Cardoso, quando entrou para a presidência, prometeu acabar com aquilo que ele considerava a “pesada” herança do getulismo. [Read more…]

Resenha: Salazar-A biografia definitiva, de Filipe Ribeiro de Meneses

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A imensa obra a respeito de Antônio Salazar escrita por Filipe Ribeiro de Meneses lançada no Brasil com o título bombástico de Salazar: a biografia definitiva, busca compreender os acontecimentos que marcaram Portugal durante a longa ditadura do Estado Novo. Pouco conhecido no Brasil, mas facilmente identificado com o título de “fascista”, Salazar foi um fenômeno bem mais complexo do que velhos clichês. O autor em nenhum momento reduz Salazar ao Fascismo- até porque ele não era um fascista e o Estado português jamais chegou ao nível autoritário nem mesmo da Espanha de Franco, muito menos da Alemanha nazista. Caso único entre os ditadores do século XX, Salazar se destacou pelos méritos acadêmicos desde cedo e até o fim da vida orgulhava-se de seu diploma pela universidade de Coimbra. Mesmo durante seu longo período no poder, comportou-se como se ainda fosse um professor, e foi sempre avesso às aparições públicas e aos grandes discursos. Para se ter uma ideia, diz Filipe Meneses, Salazar nunca viajou para fora de Portugal, com a exceção de breves viagens de carro até a Espanha. [Read more…]

Resenha: Joseph Goebbels-uma biografia, de Peter Longerich

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Confesso que esperava muito mais dessa biografia de Joseph Goebbels escrita por Peter Longerich; não que o livro seja mal escrito, mas sim porque ele oferece pouquíssimas revelações sobre um dos nazistas mais sinistros fora Hitler. Já era de se esperar que o livro fosse baseado em grande parte nos famosos diários escritos por Goebbels durante mais de 20 anos, mas basicamente o livro prende-se a essas informações. O autor tenta em vários momentos, especialmente no início do livro, fazer uma abordagem psicanalítica canhestra, e, fora isso, nada oferece de algum fato novo, ou de alguma interpretação original a respeito do biografado. Tudo isso compromete- e muito- a expectativa que temos ao ler esse livro. [Read more…]

Resenha: O Capital no século XXI, de Thomas Piketty

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O Capital no Século XXI é o mais importante e mais discutido livro sobre economia escrito nas últimas décadas. O economista francês Thomas Piketty fez o possível para demonstrar sua tese sem cair no uso abusivo de termos excessivamente técnicos e utiliza bem pouco a matemática. Tudo isso permite uma leitura muito agradável dessa obra que pretende oferecer algumas soluções para alguns dos problemas mais graves do capitalismo. [Read more…]

Resenha: História das Ideias Políticas- Volumes II e III- Idade Média, de Eric Voegelin

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Sempre gostei muito da história medieval e procurava ler e estudar sobre esse período a partir de alguns autores como Huizinga, Le Goff e Régine Pérnoud. O problema sempre foi que alguns dos aspectos mais importantes sobre a Idade Média, que são a Teologia e a Filosofia, não eram tão enfatizados assim por aqueles autores. Lendo a História das Ideias Políticas Volume II e III de Eric Voegelin, que abordam a Alta Idade Média e a Idade Média Tardia respectivamente, esse período de fundamental importância para a Europa fica muito mais compreensível.

Com a queda do império romano, o Ocidente caiu em um período de “trevas” que só não foi pior porque havia a igreja católica para iluminar o que restava de civilização. O livro de Voegelin pretende explicar a gênese de algumas das ideias políticas que prevaleceriam na Cristandade e até mesmo na política do século XX. Muito do poder que a Igreja viria a possuir pode ser explicado pelo fato de que ela representava o que havia de mais alta cultura e civilização no Ocidente, enquanto que em Bizâncio essa tarefa foi incorporada no império, e não na Igreja do Oriente. [Read more…]

Resenha: A Ditadura Escancarada, de Elio Gaspari

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Considero essa série sobre a ditadura brasileira escrita por Elio Gaspari excelente e uma referência para quem quer estudar esse período fundamental de nossa história. Isso não quer dizer, no entanto, que Gaspari não cometa erros ou que a série não tenha falhas óbvias. O primeiro volume explicava o processo do golpe (e não revolução) de 1964. Esse segundo volume concentra-se nos governos de Costa e Silva e de Médici.

É preciso avisar a quem lê essa resenha que Gapari não se propõe a explicar vários dos aspectos do governo militar como, por exemplo, a condução da economia ou alguma medida mais ou menos importante. A Ditadura Escancarada é um livro que contém uma narrativa interminável sobre guerrilhas, mortes e, principalmente, relatos de torturas. Creio que isso é muito importante para um estudo do período ainda que superficial no todo. [Read more…]

Resenha: História das ideias políticas- Volume I, de Eric Voegelin

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Desde a Queda do homem toda filosofia ou teoria política pode visar apenas atenuar os efeitos da maldade e do egoísmo intrínseco à Humanidade. Essa foi a sábia conclusão a que chegou o pensamento cristão desde a Era Patrística. Toda solução política não é definitiva e está sujeita ao desastre pela própria imperfeição dos homens e mulheres. Mesmo Platão já havia fracassado em sua atividade política, e em seu diálogo A República fica claro que todo o filósofo deve exercer a política e a atividade educativa para ensinar ao povo o Bem contemplado após sua libertação da caverna. Isso implica que ele deverá enfrentar a incompreensão da sociedade e manterá sua alma tranquila para um possível sacrifício da sua própria vida por parte de quem tem o poder. Foi o que aconteceu com Sócrates. [Read more…]

A Marcha do Golpe em 2014

GOLPE MILITAR DE 1964 NO BRASIL- RESUMO_

Essa marcha pela família com Deus não passa de golpismo e histerismo. Qualquer tentativa de justificar uma revolta contra o governo por suas supostas simpatias pelo comunismo é puro reacionarismo. Não há por parte de Dilma qualquer ação que tenha como objetivo revolucionar as leis e ao Estado de direito. Eric Voegelin julgava necessário um golpe apenas quando o governante dizia-se enviado da História. John Rawls reconhecia que mesmo quando o presidente formula leis aparentemente injustas, a parte da população que se sente incomodada com tais leis não pode, por conta própria, dar início a uma revolução contra o governo. Para que uma marcha com essa intenção fosse válida, seus representantes teriam que demonstrar que Dilma está implantando uma real ditadura no Brasil, e já respondo que isso não é possível. O fantasma de um Terror Vermelho foi a desculpa que Hitler usou para tomar o poder na Alemanha, e com isso arrastou milhões de iludidos para o partido nazista- inclusive parte das igrejas católica e protestante. Percebo que muitos daqueles que aderiram ao medo do governo  petista no fundo não toleram uma população que vota em quem os desagrada, e acabam por demonstrar uma inegável nostalgia do governo militar. Esse governo funesto que dominou o Brasil por 21 anos foi o responsável por torturas, pelo aumento da violência, da favelização, pela destruição da escola pública (sim, os militares foram aqueles que formularam a tragédia educacional do Brasil); que não investiram nada nas universidades nem em escolas técnicas e que, por último,  deixaram um legado inflacionário e de endividamento que só agora foi controlado. Quem apoia essa marcha -que é golpista- tem a obrigação de provar que o governo atual não merece mais ser obedecido e justificar, filosoficamente e pelas leis, que ele merece ser derrubado. Se não for assim, que declarem abertamente que o que estão fazendo não é o mesmo processo revolucionário que julgam estar combatendo, apenas que o seu tem um lema diferente.

 

 A que vemos naquele que odeia em lugar de amar aquilo que julga ser nobre e bom, ao mesmo tempo que ama e acarinha o que julga ser mau e injusto. Essa falta de harmonia entre os sentimentos de dor e prazer e o discernimento racional é, eu o sustento, a extrema forma da ignorância e também a maior porque é pertinente à maior parte da alma, ou seja, aquela que sente dor e prazer, correspondente à massa populacional do Estado. Assim sempre que essa parte se opõe ao que por natureza são os princípios reguladores ( conhecimento, opinião ou razão), chamo essa condição de estultícia seja num Estado ( quando as massas desobedecem aos governantes e as leis), seja num indivíduo ( quando os nobres elementos racionais que existem na alma não produzem nenhum bom efeito, mas precisamente o contrário). todas estas eu teria na conta das mais discordantes formas de ignorância, seja no Estado ou no indivíduo, e não a ignorância do artesão, se é que me entendeis, estrangeiros.” (Platão, As Leis)