Sobre o Destino

 

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“Não alimentes o Destino, ou seja, não agregues ao Destino aquilo pelo qual você é responsável, pois assim não escaparás dele, e sim o aumentarás.”

Proclo, Comentário aos Oráculos Caldeus

Destino

No dia em que você foi gerado para o mundo,
Pelo modo no qual o sol permaneceu saudando os planetas
Controlou sua fortuna a partir daquele momento em diante,
Pelo horóscopo que prevaleceu em seu nascimento.
Você deve ser assim: não pode escapar de si mesmo;
Assim foi decretado pelas Sibilas e pelos profetas.
Nenhum poder, nenhuma extensão do tempo, pode quebrar a forma
Impressa no desenvolvimento da vida.

Esperança

Contudo, pode ser aberto, o portão assustador
Que conduz através de muros e barreiras sólidas,
Ainda que mantenha-se firme como rochas antigas.
Um espírito gentilmente se agita, e liberta a si mesmo;
Para fora das nuvens, da neblina e da água da chuva,
Ergue-se conosco e nos dá asas.
Você sabe muito bem, ele passeia por toda parte;
Uma batida de asa, e as eras caem por trás de nós.

Goethe, Palavras Órficas (tradução nossa a partir do inglês)

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Sobre os tempos sombrios da política

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Imagem: Karl Briullov, os Vândalos saqueiam Roma no ano 455 da Era Cristã.

“As formas do bem-estar constitucional são a justiça e a temperança. A causa criativa é a vida contemplativa. O paradigma é o cosmos, desde que o estadista organiza tudo com seus olhos no universo, que é a plenitude com a ordem, pois Platão denominou o universo ‘organização’- e não ‘desorganização’. E hábitos e a educação são os instrumentos. O fim é o bem. E perceba que o bem é duplo, uma parte vinda conosco quando amadurecemos, e a outra quando declinamos. O primeiro é o bem constitucional, e o segundo é o bem contemplativo.”

Olimpiodoro, o Jovem Ὀλυμπιόδωρος ὁ Νεώτερος (495-570), Comentário ao Górgias, de Platão. Editora Brill, 1998 (tradução nossa a partir do inglês)

Olimpiodoro ensina que quem não quer sofrer injustiça deve ser um amigo da constituição em vigor, assimilando-se a ela e, portanto, perdendo sua alma. A constituição interna do homem justo é sempre superior à da constituição vigente.

“Platão diz que o universo é nossa cidade, e que seu governante é Deus. Assim sendo, nós devemos nos assimilar a Deus e ao Cosmos, e viver de acordo com aquela constituição, e não com esta.”

Olimpiodoro, o Jovem Ὀλυμπιόδωρος ὁ Νεώτερος (495-570), Comentário ao Górgias, de Platão. Editora Brill, 1998 (tradução nossa a partir do inglês) p.251

“Marinus, o biógrafo do filósofo neoplatônico Proclo, descreve a situação política dramática na qual viviam os últimos pagãos da Antiguidade:

“Não somente os cristãos são estranhos ao nosso mundo, mas também detêm o poder. Eles são os grandes abutres e os espíritos Tifônicos (Tifão é o monstro que rege os ventos) que subverteram a vida do Direito e da Lei.

Diante de um inimigo mais poderoso, era melhor não provocá-lo, assim dizia a teologia pagã.

Proclo fazia a seguinte reflexão: “podemos sofrer violência, mesmo que sejamos mais pios do que nossos adversários.”

Como remédio para aquele tempo de trevas, o filósofo Porfírio recomendava preservar a ordem racional intacta, praticar a catarsis intelectual, e evitar a todo custo a amathia (ignorância) dos sofistas (os cristãos).”

Niketas Siniossoglou, Radical Platonism in Byzantium: Illumination and Utopia in Gemistos Plethon ((tradução nossa a partir do inglês)

Dionísio como a mônada dos Titãs

 

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Imagem: Antínoo 110-130 d.C , amante do imperador Adriano, como o Deus Dionísio. Roma, Vaticano, Sala Rotonda

“Eu, filho de Zeus, vim para a terra de Tebas- Dionísio, a quem Sémele, filha de Cadmo, deu à luz, persuadida a fazer isto por um relâmpago, após ter modificado minha feição divina para uma forma humana.” (p.55)

“Tendo mudado sua aparência mortal de modo a revelar seu poder aos incrédulos Tebanos, e para punir Penteu, seu rei. Então ele diz: Por esta razão, mostrar-lhe-ei que sou um deus.” (p.57)
 
Os antigos oponentes do Cristianismo demonstraram o contraste entre a morte impotente de Jesus com o poder de Dionísio nas Bacantes! O filósofo Celso, que viveu no segundo século da Era Cristã, percebeu que Dionísio afirma: “o próprio Deus libertar-me-á quando eu quiser”, e o comparou com Jesus, que não pôde libertar-se a si mesmo. De acordo com Orígenes, Celso também escreveu assim: mas aquele que condenou a Jesus não conseguiu nem mesmo sofrer o destino de Penteu tornando-se louco ou sendo feito em pedaços” (p.150)
 
Dennis R. Macdonald, The Dyonisian Gospel, Fortress Press, 2017. (tradução nossa a partir do original em inglês)
 
“A alma, quando vive com as virtudes éticas e físicas, simboliza o reino de Dionísio; então ele é cortado em pedaços, porque estas virtudes não implicam uma a outra, portanto os Titãs comem da sua carne, e este mastigar implica na divisão extrema, pois Dionísio é o patrono deste mundo, onde a separação prevalece do que é meu e o que é teu. Nos Titãs, que o cortam em pedaços, o “tí” (algo, em grego) representa o particular, porque o universal é quebrado na gênesis (nascimento), e Dionísio é Mônada dos Titãs.
 
A explicação do neoplatônico Olimpiodoro, o Jovem (Ὀλύμπιόδωρος ὁ Νεώτερος), é que o assassinato de Dionísio representa o sofrimento da alma humana quando entra no domínio da gênesis.” (p.233)
 
Robbert Maarten van den Berg. Proclus’ Commentary on the Cratylus in Context: Ancient Theories of Language, Brill, 2007 (tradução nossa a partir do original em inglês)
 

Platão: Por que o suicídio é proibido?

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Imagem: Suicídio de Judas, Gislebertus, 1120, Cathédrale de Saint-Lazare

 

Segundo o neoplatônico Olimpiodoro, o Jovem (Ὀλύμπιόδωρος ὁ Νεώτερος), o argumento de Platão contra o suicídio, retirado da mitologia órfica, é assim:

“O primeiro é o Céu, a quem Saturno atacou, cortando fora os genitais de seu pai; após Saturno, Júpiter sucedeu o governo do mundo, tendo lançado seu pai no Tártaro; após Júpiter, Baco veio à luz e, de acordo com o relato, graças aos estratagemas de Juno, foi rasgado em pedaços pelos Titãs, pelos quais foi cercado, e que depois provaram de sua carne: mas Júpiter, enfurecido por tal ato, lançou seus raios sobre os culpados, que os fez consumir até as cinzas.

Daí uma certa matéria, formada pelo vapor e pela fumaça, começou a subir dos corpos inflamados, e foi a partir disso que a humanidade surgiu. Portanto, é proibido cometer suicídio, não por causa que Platão parece dizer que estamos presos a um corpo, como se estivéssemos vigiados por um guarda, mas por que nosso corpo é Dionisíaco, ou seja, é propriedade de Baco, por isso somos compostos pelos vapores dos Titãs que comeram sua carne. Na Terra, nossa alma vive a vida dos Titãs.”

Por causa deste pensamento, Proclo ensina que nosso corpo é uma junção de partes retiradas de uma totalidade, sendo, portanto, mais propriedade desta totalidade do que nossa. Desta maneira, ao praticarmos o suicídio, estamos lançando uma imensa desordem ao universo.

Carl Jung afirma que “nossa vida não foi feita inteiramente por nós. Sua parte principal foi trazida à existência por fontes que estão ocultas para nós”. Jung, Letters Vol. 1, Pages 435-436.

Sobre a origem da vida

 

“Como um terrível daimon, Métis, sustentando a honrada Sé dos Deuses, a quem os benditos no Olimpo estavam acostumados a chamar de Phanes, o Primogênito. Métis é um outro nome para Phanes, concebido como um magnífico ser alado, que possui tanto a genitália masculina quanto feminina, que acasala consigo mesmo, e faz nascer o ovo cósmico. Métis é a representação da ordem inteligível.” 

in Damáscio, Problèmes et Solutions touchant les Premiers Principes (ἀπορίαι καὶ λύσεις περὶ τῶν πρώτων ἀρχῶν) Paris: Ernest Leroux Éditeur, 1898.

“Equipado de corpo inteiro com a força de uma luz muito viva, e armado no intelecto e na alma com uma espada de três pontas, produz em sua inteligência o signo (Sÿnthëma) total da Tríade, e não utiliza os canais de fogo dispersamente, mas sim com concentração.”

“Dali brota a gênesis da matéria multifacetada; dali o turbilhão ígneo se lança violentamente e debilita a flor de fogo (Ánthos pyrós) e penetra todas as cavidades do mundo; porque desde aqui tudo começa a lançar para baixo raios admiráveis.”

Oráculos Caldeus

“Mas o organismo não é nada além da Vontade se tornando visível…as necessidades e os desejos daquela Vontade darão a cada fenômeno as regras para que os meios sejam empregados, e estes meios deverão harmonizar-se um com o outro.”

Arthur Schopenhauer, Sobre a Vontade na Natureza

“O verdadeiro filósofo não tem tempo a perder com bufões (pensadores ou cientistas) que, como Heráclito, pensam que tudo está em fluxo.”

Proclo Lício, o Sucessor, Comentário ao Crátilo

 

 

Uma perspectiva metafísica sobre o aborto e a embriologia

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“Andas triste por algo que tristeza não merece – e tuas palavras carecem de sabedoria. O sábio, porém, não se entristece com nada, nem por causa dos mortos nem por causa dos vivos.”

“Nunca houve tempo em que eu não existisse, nem tu, nem algum desses príncipes – nem jamais haverá tempo em que algum de nós deixe de existir em seu Ser real.”

“O verdadeiro Ser vive sempre. Assim como a alma incorporada experimenta infância, maturidade e velhice dentro do mesmo corpo, assim passa também de corpo a corpo – sabem os iluminados e não se entristecem.”

Bhagavad-Gîtâ

Um dos temas mais desafiadores para quem lida com Bioética é a questão do aborto, que envolve o status moral do feto, uma abordagem às vezes metafísica da embriologia, e que nos leva a muitas polêmicas entre ciência e religião. Recentemente, através da leitura da obra de James Wilberding Formas, Souls and Embryos, fiquei fascinado por como os neoplatônicos entendiam o desenvolvimento do embrião humano. O autor fez um trabalho excelente em fornecer dados pouco acessíveis para um tema bastante atual, e com isso ajudou muito em ampliar o nosso campo de visão sobre o tema. É claro que os neoplatônicos possuíam um ponto-de-vista inteiramente metafísico sobre a embriologia, o que não poderia ser diferente, haja visto os meios precários ou inexistentes que havia na época. [Read more…]