Resenha de O Passado de uma Ilusão, de François Furet

O passado de uma ilusão

O comunismo foi ( e ainda é) um sistema, ou filosofia, que atraiu a adesão de milhões de pessoas no século passado. Vários intelectuais do ocidente, inclusive pessoas religiosas, se sentiram identificadas com a Revolução de Outubro de 1917. François Furet busca nesse livro uma reflexão sobre o passado do comunismo, de forma a demonstrar às semelhanças ou diferenças entre a revolução de Lenin e a Revolução Francesa de 1789.

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A História da Revolução Russa

 

 

 

Orlando Figes A tragédia de um povoTerra vasta, parcialmente habitada e com climas extremos e selvagens, a Rússia só pelo seu tamanho já teria sua importância garantida no cenário internacional. Mas não é somente isso: a Rússia tem uma história rica, repleta de invasões, tiranos e derramamento inútil de sangue. Uma parte dessa história é contada por Orlando Figes, em a Tragédia de um Povo.

Os livros sobre a história russa costumam se concentrar na revolução de 1917, pouco oferecendo ao leitor uma visão sobre a história do século XIX e início do século XX desse país. Figes vai aos primórdios do movimento revolucionário, e descreve muito bem as condições em que viviam os camponeses russos daquela época.

A Rússia foi um país que não viveu as transformações do renascimento e do iluminismo. A população camponesa ainda vivia na servidão, e o país não possuía uma filosofia desenvolvida o suficiente para colocar freios nos conspiradores e radicais. O analfabetismo era disseminado por todo o país, e a igreja ortodoxa não educava o povo, mas se preocupava muito em sustentar o poder dos czares corruptos. O cesaropapismo sempre foi a doutrina oficial da igreja oriental.

O imperialismo dos czares resultou em uma enorme quantidade de nações submetidas ao poder russo. Finlãndia, Polônia e Geórgia eram apenas alguns dos países que eram dependentes do governo autocrata russo. Os movimentos nacionalistas nesses países forneceriam alguns dos revolucionários mais perigosos do bolchevismo, mas o czar era surdo e cego em relação a essas nações.

O livro começa demonstrando que o que caracterizava o regime czarista era a ausência de controle. A ignorância e a superstição do camponês eram estimulados pela Igreja Ortodoxa, e o culto do czar era propagado pela direita, que teve dificuldade em perceber o surgimento de sentimentos nacionalistas. Apenas os socialistas abraçaram as idéias de autonomia e independência. A origem da agitação revolucionária estava nos movimentos de libertação nacionais.

O camponês russo era bárbaro, como fica claro no livro, e o burguês russo era ávido por filosofias que viessem do ocidente. Toda a novidade era rapidamente absorvida e consumida. A Rússia sabia do seu próprio atraso, e buscava tornar-se mais ocidental de uma maneira um tanto confusa. Figes descreve os costumes selvagens dos camponeses como denunciado por Tchekhov e Máximo Gorki, em contraste com a visão romântica de Tolstoi e Dostoievski.

Quando Marx chegou à Rússia, não havia uma teologia e ontologia que pudessem lhe fazer frente. A igreja ortodoxa sempre tinha se preocupado muito com o poder, mas havia sempre desconfiado da filosofia e teologia da igreja latina. A igreja católica preocupava-se muito com a razão e a filosofia, dizia a igreja ortodoxa. O resultado é que a burguesia e o povo não tinham em que se apoiar para sustentar uma luta contra o socialismo.

A revolução foi possível graças a uma combinação de desastres naturais( fome), um campesinato ignorante e abandonado pelo czar e uma burguesia que acolheu Marx com mais fanatismo e dogmatismo do que nenhuma outra nação.Podemos conhecer a história da fome de 1891, da revolução de 1905 e as revoluções de fevereiro e outubro de 1917

Enfraquecido primeiramente pela revolução de 1905 e pela guerra contra o Japão, o czar não soube aproveitar as lições desses acontecimentos para reforçar a democracia. A Rússia continuou sendo governada por grupos de interesse. Enquanto isso acontecia, Lenin, Trotsky e Stalin iam crescendo em suas retóricas e atitudes revolucionárias. O czar não sabia lidar com os camponeses, com os operários das fábricas e com os movimentos nacionalistas das nações satélites do governo czarista. No final do século XIX havia uma crescente desigualdade no campo, o que provocou uma migração em massa para as cidades. Essa mão de obra barata ajudou a tardia revolução industrial russa.O governo czarista ignorou a classe dos trabalhadores das fábricas, e isso seria decisivo para a queda do regime.

A revolução foi inevitável? sim, porque os soldados do exército branco nada tinham a oferecer em troca. Somente representavam o feudalismo e o antissemitismo do tempo do czar. Entre os brancos, muitos referiam-se aos revolucionários como agentes do judaísmo. A vitória vermelha foi justa.

A parte do livro que conta como foi o governo de Lenin não é tão boa quanto o livro de Robert Service, de mesmo nome. Há o relato dramático das negociações do tratado de Brest-Litovsk, que por pouco não destruiu a revolução.A parte que narra a guerra civil é muito detalhada.O exército reacionário dos brancos nada tinha a oferecer a não ser uma nostalgia pela velha monarquia, o ódio antissemita e a volta do feudalismo. O exército vermelho ainda teve que lutar contra a intervenção das potências estrangeiras e sua cruzada anticomunista, que tinha em Churchill ( sempre ele!) o seu maior entusiasta.

A importância que os comunistas davam à educação é enfatizada, assim como a revolução que Lenin levou ao campo através da NEP, como a introdução da eletricidade e de novas técnicas agrícolas. Figes não atribui tão claramente assim a fome de 1921 a Lenin e aos comunistas, ao meu ver isso é justo. Houve a intervenção estrangeira e uma guerra de sabotagem contra o governo central.

No geral, achei o livro equilibrado.É dado muito destaque à história do camponês reformista Sergei Semenov e a do escritor Máximo Gorki, que acabou se decepcionando um pouco com a revolução. Para uma narrativa mais simpática da vida de Lenin, recomendo a biografia de Robert Service. O autor também se mostra equivocado em relação a Stalin. Ele tinha muito mais educação do que Orlando Figes imagina.

 

Minha resenha sobre o livro negro do comunismo

Uma Tragédia em Escala Global

Prometeu: só tenho uma palavra: odeio a todos os deuses, que depois de receber meus benefícios, me ferem injustamente.

Mercúrio: tens a razão conturbada, bem se vê; o mal é violento.

Prometeu: pois que ele se agrave ainda,se é um mal detestar seus inimigos!

Mercúrio: COMO SERIAS INSUPORTÁVEL SE GOVERNASSES UM DIA!…

Ésquilo- Prometeu Acorrentado

Essa presente obra lançada no final dos anos 1990 pretendeu mostrar ao mundo os segredos da tragédia do comunismo em vários cantos do planeta. Escrito por comunistas que tinham a intenção de adiantarem-se à direita na denúncia dos crimes da extrema-esquerda. Os autores no início do livro demonstram, não sem denunciar uma suposta hipocrisia, que a igreja católica já havia denunciado o comunismo em algumas ocasiões, como na encíclica Divini Redemptoris. A pergunta inicial é o porquê do projeto ter se desviado uma suposta retidão ao longo dos anos. Faço essa resenha anos depois de haver lido ao menos duas vezes esse livro.

A pátria mãe do socialismo foi a Rússia, onde a obra O Capital de Marx havia feito mais sucesso no continente europeu. Lá o casamento do otimismo marxista com a retórica explosiva de Lenin gerou a revolução comunista. Existiram, claro, outros fatores mais complexos, como narrados com maestria por Orlando Figes em A Tragédia de um Povo.

Lenin sempre havia achado que a Rússia estava madura para uma revolução socialista, que de fato aconteceu, mas depois que a revolução veio, o que fazer? Como no título da obra famosa de Lenin, essa era a questão principal. Como governar um país ainda feudal, com uma imensa população analfabeta, semi-industrializado e devastado economicamente pela primeira guerra? O resultado era que Lenin, Trotsky e os outros camaradas não sabiam o que fazer, pois achavam que a revolução deveria ter começado por um país mais avançado, principalmente a Alemanha.

Tentar fazer com que os camponeses aderissem ao sistema socialista e impor um sistema de requerimento de grãos fora da realidade, deu início ao desastre da fome. Os autores não enfatizam isso, mas quando as potências internacionais intervieram na União Soviética, o que gerou o comunismo de guerra de Lenin, certamente favoreceu a fome de 1921.

Os autores certamente denunciaram a insensibilidade de Lenin durante a campanha de ajuda às vítimas da fome, da mesma forma como ele havia ignorado a campanha de ajuda às vítimas da fome de 1891. O caráter irascível de Lenin é exposto no livro, assim como sua tática sinistra de comparar seus inimigos políticos a insetos e aranhas.
A desconfiança comunista em relação ao povo, especialmente aos camponeses e à oposição, gerou a terrível Tcheka, dirigida pelo polonês Dzerjinsky. A tcheka é a antepassada da KGB.

Depois da morte de Lenin, aconteceu a luta entre Trotsky, um fanático da militarização da indústria e da expansão do socialismo através de guerra, e Stalin, um homem sinistro, mas extremamente inteligente, defensor do socialismo em um único país. Stalin vence, e dá início a um gigantesco projeto de industrialização, da mesma forma que criou um novo método de punição dos inimigos do socialismo: o Gulag. Esses horripilantes campos de trabalho forçado era uma verdadeira máquina de matar por exaustão e doença os inimigos da extrema-esquerda. Stalin também deu início a uma guerra sem tréguas contra os Kulaks, que junto com as diversas minorias que habitavam o território soviético, foram fuzilados ou enviados para lugares desolados do território russo, especialmente o Casaquistão.

Existe um capítulo dedicado ao grande terror, também conhecido na Rússia como tempo de Iejov. É impressionante a quantidade de supostos inimigos do povo que foram fuzilados. Centenas de milhares perderam a vida por causa da paranoia de Stalin.

Algumas afirmações falsas da extrema-direita que ficaram populares entre alguns círculos nos últimos anos, de que Stalin foi o responsável pelo início da Segunda Guerra por ter traído Hitler, não são endossadas pelos autores.

Assim como Lenin teve a ajuda de capitalistas para estabelecer e revolução e teve que restabelecer o capitalismo com a NEP, Stalin contou com a ajuda de engenheiros especializados norte-americanos para fazer sua campanha de industrialização. Esse fato não é mencionado no livro, se não me engano. Mas é surpreendente como a Rússia soviética muitas vezes foi financiada por grandes capitalistas ocidentais.

Estou fazendo essa resenha buscando mais analisar o projeto comunista, do que em fazer as contas de quantos milhões teriam sido mortos, porque esses números muitas vezes são discutíveis. Da mesma forma, seria injusto atribuir a Karl Marx o números da tragédia soviética.
Lenin, Stalin, Khrushchov e outros contribuíram para que o território soviético se tornasse um grande cemitério, de forma que suas glórias esportivas e espaciais não podem apagar essa história de horror.

Existem outros capítulos no livro que mostram a ação da KGB para expandir a ação do comunismo na Europa e a utilização do terrorismo. Os autores demonstram uma curiosa obsessão do comunismo soviético: a mística do aço e seus recordes de produção, em um país em que bens manufaturados básicos eram escassos. Essa mística também existiu no Camboja com o arroz e em Cuba com o açúcar.

Stéphane Courtois notou que a derrota do mal absoluto( o nazismo, que sem dúvida é muito pior do que o comunismo) fez o comunismo ser legitimado internacionalmente como o campeão do antifascismo, e saltou automaticamente para o campo do bem.

A história trágica do comunismo também é contada em capítulos sobre sua atuação nos governos da Ásia e da América central. O livro possui um capítulo dedicado a história do comunismo chinês e seus campos de concentração( laogai). Lá é contada a história de um de seus presos, que era católico, e percebeu a estranha obsessão dos comunistas chineses com o sacramento da confissão, de forma que os seguidores de Mao tentaram reproduzir a confissão católica no sistema prisional chinês.

No Camboja, o terror comunista atingiu o seu auge, e alcançou o status de genocídio, com um governo louco do Khmer vermelho e sua obsessão em transformar o país em um imenso campo de plantação de arroz e sua luta em tentar fazer uma gigantesca lavagem cerebral na população. Os autores perceberam um fato curioso: a destruição da população do Camboja pelo Khmer vermelho foi auxiliada pela crença da população desse país na reencarnação, porque um dos efeitos dessa crença é a desvalorização da vida atual, que passa a valer muito pouco em meio a um turbilhão de futuras reencarnações. Daí vem a apatia do povo do Camboja diante do massacre.

Faço uma pequena passagem pela ilha-prisão de Fidel Castro, para ficar claro que os autores do livro denunciam Che Guevara como um incompetente em matéria de economia, pois sua desastrada administração quase destruiu a economia de Cuba. Outra característica da ditadura cubana era a perseguição aos homossexuais, cujos direitos a esquerda reclama para si no ocidente, mas nega nas ditaduras comunistas.

Existem ainda, voltando ao comunismo soviético, alguns mitos que precisam de esclarecimentos. Trotsky seria uma alternativa melhor do que Stalin no poder? Como o livro possui citações abundantes de Trotsky, fica demonstrado como isso seria difícil, devido ao caráter intolerante e guerreiro( no pior sentido da palavra) da personalidade de Trotsky.

Outro mito: é sabido que o comunismo denunciava ferozmente a natureza hierárquica da idade média, com a sociedade dividida entre a nobreza, o clero e os camponeses, estrutura essa que o comunismo queria destruir para implantar um socialismo igualitário. Mas, estudando melhor o assunto, na União soviética esse quadro também não existia? Vejamos: Stalin era o rei, com um poder infinitamente maior do que qualquer rei feudal jamais sonhou; os comissários eram o clero, com todos os benefícios em assistência médica especializada que a população soviética não tinha acesso; e os camponeses, que continuaram existindo.

Isso demonstra que a situação medieval correspondia sim, a um esquema válido, e que não é fácil de ser substituído. O livro demonstra bem o processo de desumanização presente na mente de alguns comunistas. Existe até uma citação de Jean-Paul Sartre de que “todo anticomunista é um cão”. O livro também possui a denúncia de um pensamento biológico-eugenista para explicar o comportamento dos que não apoiam o regime.

Uma explicação minha sobre a citação de Ésquilo no início da resenha: é fato conhecido que Marx citou a afirmação de Prometeu de que odiava todos os deuses de uma forma isolada em sua tese de doutorado. Como demonstrou Eric Voegelin, essa foi uma desonestidade de Marx, pois fica claro que Ésquilo pretende demonstrar através do personagem de Mercúrio, que Prometeu estava com a mente perturbada por dizer que desprezava os deuses e a religião. Essa passagem foi sempre muito citada entre os comunistas para justificar a sua repulsa à religão cristã, mas a verdade é mesmo profética pela boca de Mercúrio: como uma pessoa com essa mentalidade seria um desastre em um futuro governo. A perseguição dos regimes comunistas contra as diversas religiões comprovam essa profecia.

Por fim, os autores rejeitam a comparação entre o terror comunista e a inquisição católica. Ao contrário do comissário comunista, o padre católico possui a verdade, e sabia que era um ato de caridade advertir ao próximo sobre seu erro. Como disse Miguel Del Castillo, citado pelos autores do livro: “ a finalidade não é torturar ou queimar: consiste apenas em fazer as perguntas certas”. Os autores podem ter exagerado no número de mortes, que nunca saberemos ao certo. O que é verdadeiro é que as vítimas do comunismo, ao contrário do nazismo, não possuem voz, nem memoriais, mas esse é o objetivo do livro: dar voz aos milhões de vítimas de uma utopia.

Para saber mais sobre a natureza gnóstica do comunismo, leiam o livro de Eric Voegelin, Science, Politics and Gnosticism.Imagem