Resenha: A Quádrupla Raiz do Princípio da Razão Suficiente, de Arthur Schopenhauer

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Se Platão e Kant já haviam defendido a existência de um conhecimento a priori, Schopenhauer acredita que deu uma grande ( e a melhor ) contribuição para o chamado Princípio de Razão Suficiente. Com sua linguagem clara e de uma beleza só superada pela de Platão, Schopenhauer rejeita as filosofias de  Hegel,Schelling e Fitche, e considera que ele é o continuador da tradição kantiana. [Read more…]

Resenha: Os Buddenbrooks, de Thomas Mann

Budenbrooks

Excelente livro escrito por Thomas Mann em sua juventude, que garantiu-lhe o prêmio Nobel em literatura em 1929, os Bruddenbrooks é um romance, que como diz o subtítulo, trata da decadência de uma família burguesa alemã do século XIX. No início, a família constrói uma sólida reputação comercial com o patriarca Jean. Com o decorrer da narrativa, o foco passa a ser as vidas dos filhos do patriarca, que são Thomas, Christian e Antonie. Há um tom de pessimismo em toda a obra por uma influência do filósofo Arthur Schopenhauer no jovem Mann. Os personagens têm um tom trágico que revelam o sofrimento inerente à vida. Antonie quer uma vida confortável e de luxo, mas todas as suas ações são desastradas. Christian é irresponsável e preguiçoso, e termina o romance de maneira sofrida e lamentável. Thomas é o responsável por manter a firma da família funcionando e é o personagem mais complexo. Pude identificar nesse personagem um tom de Machado de Assis. Isso se deve, é claro, pela influência de Schopenhauer na obra dos dois grandes autores. Thomas percebe o mundo caindo à sua volta por causa dos sucessivos fracassos de seus irmãos. Ele vai se tornando cada vez mais cínico e pessimista com o desenrolar da história. A semelhança com o Bentinho de Dom Casmurro é evidente na maneira como Thomas se relaciona com seu filho Hanno, por causa da frieza com que esse trata seu filho. [Read more…]

O Sofrimento no Mundo Animal, por Arthur Schopenhauer

Leão e Javali

“Nós veremos mais tarde, a partir de um alto ponto de vista, que é possível justificar os sofrimentos da humanidade. Mas esta justificação não pode ser aplicada aos animais, cujos sofrimentos, que em grande medida são trazidos pelo ser humano, são frequentemente consideráveis mesmo à parte de seu agente. E assim nós somos forçados a perguntar, por que e para qual propósito todo este tormento e agonia existem? Não há nada aqui para dar à vontade uma pausa; não é livre para negar a si mesma e assim obter a redenção. Há apenas uma consideração que pode servir para explicar o sofrimento dos animais. É a seguinte: que a vontade de viver, que fundamenta todo o mundo fenomênico, deve, em seu caso,satisfazer seus desejos alimentando-se de si mesma. Isto forma uma gradação do fenômeno, no qual todos existem ao custo de outro.”

Arthur Schopenhauer- Do sofrimento do mundo.

Resenha: O Fundamento da Moral, de Arthur Schopenhauer

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O fundamento da moral foi a primeira obra que eu li de Schopenhauer e, desde então, esse filósofo alemão tornou-se uma das minhas referências na filosofia. Partindo de uma crítica à filosofia moral de Kant, Schopenhauer demonstra como esse cometeu uma espécie de “monstruosidade filosófica” ao identificar o ato de caridade e de amor ao próximo com o agir racionalmente. Nunca antes de Kant, diz Schopenhauer, isso havia sequer sido imaginado. O que esse livro maravilhoso e muito humano tenta estabelecer é um tipo de moralidade que não dependa da Bíblia e nem de Deus, uma vez que o comando da ética Kantiana “tu deves” só tem valor e poder partindo de uma ordem divina. Outro tipo de moral completamente rejeitada por Schopenhauer é aquela que parte do Estado ( desejo de Hegel e de todo esquerdista), pois conceder a essa instituição o poder de tirar dos homens a liberdade individual é, no fundo, pavimentar o caminho para uma nova inquisição, guerras religiosas e outros tipos de perseguição ( a história dos século XX provou esse fato). Rejeitada a moral vinda de uma ética religiosa, de um comando do tipo “tu deves” e a moral estatal, Schopenhauer propõe uma ética baseada na compaixão por todos os seres vivos. Segundo ele, essa é a única maneira de evitarmos o egoísmo no momento de ajudar ao próximo, porque já não pensamos que ao fazer isso estamos agindo racionalmente ou evitando futuras penas do inferno. O filósofo cita essa passagem de Calderon para provar o que prega:

“que entre el ver

Padecer y el padecer

Ninguna distancia habia.”

As dores do próximo fazem você se identificar com o sofrimento alheio, e com isso o sentimento de compaixão é despertado. O mais surpreendente na ética de Schopenhauer é a sua preocupação com os animais. Não que isso seja totalmente novo, pois as civilizações asiáticas não estabeleciam uma grande separação entre os homens e os outros seres vivos. Na Grécia antiga a escola de Pitágoras via os animais com muito respeito. No ocidente isso foi perdido, de acordo com Schopenhauer, por causa da influência judaica no Cristianismo. Essa opinião de que os animais não possuem alma e que estão nesse mundo exclusivamente para servir ao homem pode ser vista, infelizmente, nas obras de São Tomás de Aquino. A filosofia moderna vai repetir esse pensamento com Descartes. Na prática o tratamento dado aos animais no Cristianismo sempre foi superior ao judaísmo, no entanto a igreja continua negando que os animais possuam alma, o que é algo incompreensível pela simples observação do quanto muitos animais podem agir com bondade. Na filosofia de Schopenhauer os homens e os animais são vistos como uma manifestação de Vontade. Esses últimos são nossos companheiros de sofrimento nesse mundo, e o agir com compaixão em relação às mazelas dessa vida vale tanto para a ajuda aos homens como para os animais. A ética de Schopenhauer é baseada no testemunho dos antigos gregos e Hindus; não é bíblica e nem depende de Deus. Como Schopenhauer é o maior dos escritores em filosofia ao lado de Platão, seus livros não necessitam da explicação de professores universitários para serem entendidos. Não partindo nem de Deus nem da razão, o pensamento de Schopenhauer estava destinado a ser condenado tanto pelas universidades quanto pelos religiosos. O reconhecimento do valor de sua filosofia veio pelas artes, pela literatura e, especialmente, pela psicologia.

 

Resenha de A Metafísica do Belo, de Schopenhauer

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Um verdadeiro curso de estética
A metafísica do belo compreende as aulas que Schopenhauer deu na universidade de Berlim em 1820, na mesma época em que Hegel dava aulas nessa universidade. As aulas ministradas por Schopenhauer ficavam com as salas de aula vazias, por causa disso ele desistiu de seguir carreira universitária desde então.

Schopenhauer parte do idealismo de Platão e Kant, considerados por Schopenhauer os dois maiores filósofos do ocidente. No idealismo de Platão, um cavalo que estivesse diante de nós não possuiria uma existência verdadeira, mas apenas um constante vir-a-ser. Somente a ideia daquele animal, que nunca veio-a-ser ,é o que importa. Portanto, é indiferente se o cavalo que temos diante de nós é esse cavalo ou seu ancestral que viveu séculos atrás. Unicamente a ideia do cavalo é objeto do conhecimento real. Para Kant, esse cavalo é apenas um fenômeno em relação ao nosso conhecimento e nunca a coisa-em-si.
Uma grande diferença entre Schopenhauer e Hegel é que Hegel é o filósofo da história, e Schopenhauer é a-histórico, pois para Schopenhauer a história é somente a forma casual do fenômeno da ideia. A história nada cria de novo e os papéis que os seres humanos exercem são sempre os mesmos. Não haveria assim um objeto final da história.

A satisfação estética para Schopenhauer é o estado do puro conhecimento destituído de vontade, que é o único que pode nos fornecer um exemplo da possibilidade de uma existência que não consiste no querer. É através da supressão do querer que o mundo pode ser redimido. A impressão do sublime pode ser despertada em locais onde a paisagem não fornece à vontade nenhum meio de se manifestar. É nessa ocasião que o sujeito pode contemplar a ideia. O homem nessa ocasião poderá sentir-se angustiado pelo pensamento de que um dia irá desaparecer. Mas Schopenhauer nos diz que essa é uma aparência enganosa, pois o mundo existe apenas na nossa representação. A grandeza do mundo e sua existência repousa na nossa consciência.

É tarefa da filosofia tornar claro que somos uma única e mesma coisa com o mundo: “ todas essas criações em sua totalidade são eu, e fora de mim não existe ser algum” ( Upanixade). Depois de dizer que todas as coisas são belas e demonstrar um otimismo prático, que muito recusam-se a reconhecer em sua filosofia, Schopenhauer reabilita a poesia e demonstra sua importância para a filosofia, criticando a famosa intolerância de Platão nesse assunto.

Schopenhauer discute o valor e a beleza de diversas artes como a arquitetura, no qual ele defende a arquitetura grega e critica a gótica, opinião essa na qual eu discordo pois considero a arquitetura gótica como a mais bela que existe; depois ele analisa a jardinagem, a pintura, que ele vê como a mais bela e correta a arte flamenga, criticando somente essa arte quando alguns pintores reproduzem imagens de comidas e bebidas diversas, pois isso produziria um desejo ou vontade no espectador.

Por fim, existe a música, considerada por Schopenhauer a melhor de todas as artes, pois assim como a filosofia, a música permite a alma penetrar na essência do mundo. Para quem gosta de estética e quer conhecer outras visões sobre a arte, recomendo o curso de estética: o belo na arte ,de Hegel, assim como a introdução às artes do belo, de Etienne Gilson.

Resenha de O Mundo Como Vontade e Representação, Volume II, de Schopenhauer

capa

 

O segundo volume de O Mundo como Vontade e Representação escrito por Arthur Schopenhauer não é uma nova filosofia, antes trata-se de uma ampliação madura dos temas dos 4 livros do volume I. Schopenhauer manteve-se fiel à sua filosofia elaborada enquanto ainda estava na casa dos 20 anos. Apesar do reconhecimento tardio que teve ainda em vida, em geral, o filósofo alemão nunca conseguiu adentrar nas universidades e nem influenciou decisivamente os filósofos posteriores. Seu maior resultado foi na psicologia de Freud e Jung, e nada disso causa surpresa, pois Schopenhauer foi o filósofo do corpo, do inconsciente e com nenhuma preocupação política ou histórica. Ele não fez qualquer esforço para adequar-se ao pensamento universitário alemão de sua época, e nem acenou tentando justificar a religião de seu tempo. Sua valorização do Cristianismo é apenas parcial, ao mesmo tempo em que abomina a Bíblia em sua maior parte. Seu espírito era Oriental, e como ele dizia de Giordano Bruno e de Spinoza, possivelmente ele também teria tido maior sorte se tivesse nascido na Índia e filosofasse às margens do Ganges. [Read more…]

Resenha de O Mundo como Vontade e Representação, de Arthur Schopenhauer

Schopenhauer O mundo como vontade

Arthur Schopenhauer é um dos maiores -e mais injustiçados- filósofos de todos os tempos. Todas as suas obras foram escritas com uma linguagem transparente e que permitem ao leitor compreendê-las sem maiores dificuldades em seu núcleo principal. O Mundo como Vontade e Representação foi publicado quando o filósofo tinha apenas 30 anos, o que é muito raro em filosofia. Schopenhauer viveu ainda muitos anos após sua obra principal, mas seu pensamento manteve-se fiel às suas ideias de juventude. [Read more…]

Por que Laocoonte não grita?

Schopenhauer Laocoonte

Esse é um tema apaixonante, relacionado a uma das mais famosas esculturas gregas da antiguidade. É sobre a escultura de Laocoonte e seus filhos sendo devorados por serpentes marinhas. A questão filosófica que se coloca é: Por que Laocoonte não está gritando em sua representação na escultura? Johann Joachim Winckelmann escreveu que Laocoonte não podia gritar porque era um estóico, e que o fato dele agir conforme à natureza, era contrário à sua dignidade. Para ele, Laocoonte não grita pois é um mártir.

Gotthold Ephraim Lessing discorda de seu compatriota Winckelmann.Ele atribui o fato do personagem não gritar a um fato puramente estético, ou seja, um princípio artístico impede que o escultor reproduza o grito em sua obra. Outro fator seria que um ato passageiro não ficaria bem reproduzido em uma escultura, que é permanente e imóvel.

Arthur Schopenhauer critica à opinião dos dois outros filósofos, e propõe uma nova explicação. Para o filósofo idealista alemão, uma escultura não suporta a reprodução exata do grito, pois isso estaria fora de seu domínio. Laocoonte, na poesia e no teatro necessariamente deveria gritar, porque essas artes devem estimular à imaginação do leitor/espectador. Como o escultor não pode imitar o som do grito, teve que sugerir a expressão de dor no movimento do corpo e da face.

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Meu comentário

Na verdade, as três opiniões se complementam. A escultura não poderia mesmo reproduzir o grito, mas o autor sugere a dor pela expressão do rosto de Laocoonte. Pode ser que o personagem realmente tenha como filosofia de vida suportar a dor e o sofrimento, por isso não abre a boca para gritar. A opinião de Schopenhauer também está certa, porque na poesia, que pretende influenciar as emoções do leitor, Laocoonte realmente precisa gritar. No teatro, isso é indispensável, já que no teatro as emoções estão mais estimuladas do que em uma visão de uma escultura. É realmente estimulante pensar que Laocoonte fosse um estóico que suportava a dor por um ideal mais alto, mas essas são apenas especulações.

Essas três opiniões foram tiradas da obra de Schopenhauer O Mundo Como Vontade e Representação.