O amor como a primeira das paixões segundo São Tomás de Aquino

A filosofia cristã reflete repetidas vezes sobre a concupiscência, que é o amor aos bens desse mundo especialmente aos amores sensuais. Santo Agostinho escreveu sobre isso e São Tomás, na Idade Média, frequentemente alude a esse tema. Existe uma parte da Suma Teológica que fala sobre a ordem das paixões. Está na questão XXV. É curioso ler São Tomás escrevendo sobre o amor sensual pois ele nunca teve qualquer tipo de experiência nessa área. Mencionando Santo Agostinho, que diz que ” o amor desejando ardentemente possuir o seu objeto, é desejo; quando porém já o possui e o goza é alegria”, diz  São Tomás que o bem vem antes do mal, e todas a paixões que visam o bem são anteriores àquelas que querem o mal. Para ele o amor precede o desejo e este o deleite. Segue-se a afirmação de que o prazer é o gozo do bem, e este é o fim. Dessa forma foi possível São Tomás afirmar que o amor é a primeira das paixões do concupiscível, pois quando o objeto amado já é possuído, ele se torna uma fonte de prazer; porém, quando ainda está distante, o sentimento que existe é o de desejo ou de concupiscência, e Santo Agostinho diz que ” sente-se mais o amor quando é produzido pela carência”.

[Read more…]

Anúncios

Resenha das Confissões de Santo Agostinho

Confissões

“Tarde te amei…”

As confissões de Santo Agostinho foi o primeiro livro de filosofia que eu estudei mais profundamente, isso ainda na minha juventude, e esse fato me marcou profundamente. Essa autobiografia nos faz reviver e refletir sobre a vida de falsos caminhos e pecados de Agostinho. Seu desenvolvimento intelectual, a relação com seus amigos e com sua fantástica mãe- santa Mônica- podem nos servir como exemplo vida. É claro que alguns dos pensamentos de Santo Agostinho sobre sua vida pecadora são exagerados, como quando ele fala sobre seus maus pensamentos quando criança, sua sexualidade de jovem e a relação com uma mulher que ele não nomeia, parecem-nos ingênuos nos dias de hoje. É muito mais interessante a história de sua vida de estudante e sua adesão ao maniqueísmo.

[Read more…]

Resenha da Introdução ao estudo de Santo Agostinho, de Étienne Gilson

Agostinho Etienne Gilson

Étienne Gilson foi um filósofo da tradição tomista e um dos maiores historiadores da filosofia patrística e medieval. Nessa ótima introdução ao pensamento de Santo Agostinho, Gilson faz um pequeno resumo de algumas das principais características da “filosofia” do santo. Filosofia está entre aspas porque o próprio Gilson reconhece que o pensamento de Agostinho é difícil de ser definido como uma filosofia. Complexa e inacabada, a obra de Santo Agostinho inspirou toda a Idade Média e filósofos modernos desde Descartes até Heidegger.

[Read more…]

O debate sobre a existência de Deus entre Frederick Copleston e Bertrand Russell

Russell022copleston

O debate aconteceu em 1948 ,na rádio BBC. Bertrand Russell, filósofo e matemático, enfrentou um debate sobre a existência de Deus com o padre jesuíta Frederick Copleston. Russell era ateu e Copleston era obviamente católico. Segue abaixo minha tradução.

Copleston: Como nós vamos discutir a existência de Deus, deve ser benéfico chegarmos a um acordo provisório sobre o que nós entendemos pelo termo “Deus”. Eu presumo que nós entendemos um Ser supremo e pessoal, distinto do mundo e criador dele. Você estaria de acordo- provisoriamente, ao menos- em aceitar esta exposição como o significado do termo “Deus”?

[Read more…]

Resenha de Crime e Castigo, de Dostoiévski

crime e castigo

Crime e Castigo é um dos maiores romances da história e tem como uma característica o fato de ser um livro que reproduz a angústia psicológica de um personagem que desde o início já sabemos ser um assassino. O estilo de Dostoiévski é inconfundível, já que ele reproduz os pensamentos e as dúvidas mais íntimas dos personagens. O romance começa narrando a história de Raskólnikov, um estudante que vive de aluguel em um pequeno apartamento, no qual ele tem cada vez mais dificuldade em honrar seu compromisso . Raskólnikov ganha dinheiro fazendo pequenas traduções, no entanto, vive à beira da miséria. Como é um jovem muito neurótico e introspectivo,o estudante ( na verdade ex-estudante) durante seus vários momentos ociosos formula uma tese que pensa ser original: homens como César e Napoleão foram responsáveis por milhares de mortes, entretanto, foram considerados pela história como grandes heróis e conquistadores. Por que Raskólnikov pensa dessa maneira? Porque ele se vê oprimido pela velha- que no livro simboliza o capitalismo  devastador que  Dostoiévski tanto odiava.

[Read more…]

O fim último do homem segundo São Tomás de Aquino

Dante Paaraíso

Na Suma Teológica, São Tomás escreve sobre  o fim último da vida humana que ele crê ser a bem-aventurança. É importante em termos de filosofia sabermos se o homem age em busca de um fim, se todos os homens possuem um único fim e se todas as criaturas coincidem naquele último fim.

São Tomás toma como base a afirmação de Aristóteles no Livro II da Física, que diz que o fim é o princípio das ações humanas. A partir disso, São Tomás afirma que os homens possuem livre-arbítrio e que suas ações estão sob o seu domínio.Essas ações procedem de uma potência, por ela causados de acordo com a razão de seu objeto; daí o Santo pode afirmar que o objeto da vontade é o fim e o bem, sendo assim, todas as ações humanas têm em vista o fim. É claro que nem todos os atos humanos procedem da deliberação da razão, como movimentar-se ou coçar-se, por isso, essas atitudes têm um fim imaginado apenas.

[Read more…]

Resenha do Compêndio de Teologia, de São Tomás de Aquino

compendio.sao.tomaz

Escrito no fim da vida de São Tomás, o Compêndio de Teologia resume algumas das principais doutrinas do Aquinate. Questões relativas à Trindade, do Filioque e sobre a perfeição de Deus são esclarecidas logo no início do livro. A linguagem utilizada por São Tomás é simples, da mesma forma como os exemplos de fenômenos da natureza, como o fogo, o qual ele se refere repetidas vezes. São Tomás tinha concepções errôneas em filosofia herdadas de Aristóteles como, por exemplo, a redução da mulher a um papel passivo, pois o filósofo grego acreditava que o sêmem do homem gerava a alma, e a mulher, o corpo. São Tomás repete esse erro, assim como adotou com algumas reservas o universo Ptolomaico, negando, porém, que os astros tivessem algum poder sobre o destino do homem. Seu maior equívoco foi em relação à Imaculada Conceição da Virgem Maria, exibindo um pensamento contraditório e titubeante. Foi outro escolástico, Duns Scot, que corrigiu o erro de São Tomás e estabeleceu o Dogma.

[Read more…]

O Dogma de Imaculada Conceição na Teologia de São Tomás de Aquino e Duns Scot

Duns Scot imagem

 

Esse artigo é a demonstração do erro terrível da teologia de São Tomás de Aquino sobre a questão da Imaculada Conceição de Maria. Existe uma verdadeira praga de católicos “tradicionalistas” que se recusam a admitir algumas visões desastrosas de São Tomás de Aquino sobre a alma. Demonstrar que ele errou não é coisa de protestante ou de um espírito anticatólico; é ser,sim, honesto em filosofia. No comentário que fiz sobre as 24 teses de Édouard Hugon, já havia percebido que São Tomás negava que o feto tivesse alma até um determinado período da gestação, e que essa tese foi aprovada pela Igreja Católica pelo menos até o início do século XX.

Vamos à doutrina (errônea) de São Tomás de Aquino sobre a Imaculada Conceição, e como Duns Scot estabeleceu corretamente o dogma, sendo justamente beatificado séculos mais tarde.

Para São Tomás de Aquino, a Virgem Maria estava purificada de modo extremo, sendo isenta do pecado mortal e venial, mas ela foi purificada do pecado original, pois convinha  a Ela ser concebida com o pecado original, porque foi concebida pela união dos sexos. Ela teve o privilégio de conceber o Filho de Deus. Como São Tomás de Aquino afirma de forma equivocada, a união dos sexos só pode ser realizada com libidinagem após o pecado original, por isso transmite esse pecado aos filhos, no caso, os pais da Virgem Maria transmitiram o pecado à filha.

Nas palavras de São Tomás de Aquino: ” Além disso, se ela não tivesse sido concebida com pecado original, não teria necessidade de ser redimida por Cristo, assim, Cristo não teria sido o redentor de todos, e isso degradaria a dignidade de Cristo.” A Virgem Maria, para São Tomás de Aquino, permaneceu após sua santificação inclinada ao pecado, porém, quando o Anjo Gabriel lhe anunciou que iria conceber o Filho de Deus, essa inclinação foi extinta, mas até a anunciação, a doutrina Tomista errou de modo desastroso, pois admitia que a Virgem estava inclinada ao pecado.

Essas palavras de São Tomás de Aquino foram retiradas de sua obra Compêndio de Teologia.

Duns Scot corrige o erro de São Tomás de Aquino e estabelece corretamente o dogma. O texto citado está na sua Ordinatio.

“Foi a Bem-Aventurada Virgem Maria concebida em pecado? A resposta é não, pois Agostinho escreve: ” Quando o pecado é tratado, não pode haver a inclusão da Virgem Maria na discussão”. E Santo Anselmo escreve:” Foi correspondendo que a Virgem deve ser resplandescente com uma pureza que ninguém mais debaixo de Deus pode ser concebido”.

O contrário, entretanto, é frequentemente defendido em dois pontos: Primeiro, a dignidade de seu Filho, que, como redentor universal, abriu os portões do céu. Mas se a Bem-Aventurada Virgem Maria não contraiu o pecado original, ela não precisaria de um redentor, nem ele teria aberto os portões do céu para ela, porque o portão nunca estaria fechado. Porque está fechado apenas pelo pecado, acima de todo o pecado original.

Em resposta ao primeiro ponto, alguém pode argumentar que da dignidade de Seu filho qua Redentor, reconciliador e Mediador, que ela não contraiu o pecado original.

Porque o mais perfeito mediador exercita a mais perfeita mediação possível a favor de uma pessoa de quem ele faz a mediação. Por isso Cristo exercitou a mais perfeita mediação a favor de alguma pessoa de quem ele foi mediador. A favor de nenhuma pessoa Ele teve uma relação mais exaltada do que com Maria. Isso, entretanto, não seria verdade se Ele não a tivesse preservado do pecado original.

Existem três provas disso: Em termos de Deus a quem ele reconcilia; em termos do mal que Ele liberta; e em termos da dívida da pessoa a quem Ele reconcilia.

Primeiro, ninguém absoluta e perfeitamente amansa alguém que será ofendido de nenhuma maneira a não ser que ele consiga prevenir a ofensa. Porque aplacar tendo em vista apenas redimir a ofensa já cometida é não aplacar de maneira mais perfeita. Mas Deus não suporta a ofensa  por causa de alguma experiência Nele mesmo, mas por causa somente do pecado da alma de uma criatura. Assim, Cristo não aplaca a Trindade mais perfeitamente pelo pecado a ser contraído pelos filhos de Adão se ele não previne a Trindade de ser ofendida em alguém, e se a alma de algum filho de Adão não contraiu tamanho pecado; e assim é possível que um filho de Adão não tenha esse pecado.

Segundo, os méritos do mais perfeito mediador é remover toda a punição daquele a quem Ele reconcilia. O pecado original, entretanto, é uma maior privação do que a falta da visão de Deus. Por isso, se Cristo mais perfeitamente nos reconcilia com Deus, Seu mérito é mais pesado do que todas as punições removidas da pessoa reconciliada. Esta deve ser a sua mãe.

Além do mais, Cristo é primeiramente nosso redentor e reconciliador do pecado original, mais do que do pecado atual, por isso a necessidade da Encarnação e sofrimento de Cristo é mais comumente atribuída ao pecado original. Mas se Ele é atribuído o fato de ser o perfeito mediador de ao menos uma pessoa, nomeadamente, Maria, quem Ele preservou do pecado atual. Logicamente, deveríamos assumir que Ele preservou-a de todo o pecado original, também.

Em terceiro, a pessoa reconciliada não está absolutamente  endividada com seu mediador, a não ser que receba desse mediador o maior bem possível. Mas esta inocência, nomeadamente, a preservação do pecado contraído, ou do pecado a ser contraído, está disponível pelo mediador. Assim, ninguém está absolutamente livre do débitos  com Cristo como mediador, a não ser que esteja livre do pecado original. É um bem maior ser preservado do mal do que cair nele e depois ser libertado dele. Se Cristo garantiu o mérito da Graça e da Glória para tantas almas, que, por causa desses presentes estão endividadas com Cristo como mediador, por que nenhuma alma seria sua devedora pelo presente de sua inocência? E por que, desde que os abençoados anjos são inocentes, deveria não haver nenhuma alma humana no céu( exceto a alma humana de Cristo), que é inocente, ou seja, que nunca esteve em estado de pecado original?”

 

Os Sermões Alemães, de Mestre Eckhart

SermoesAlemaes1

 

A Mística Medieval
Na presente obra são apresentados 60 sermões do Mestre Eckhart. Eu achei seus sermões muito parecidos uns com os outros. Eckhart tem um grande conhecimento das escrituras, assim como dos grandes teólogos e filósofos como Aristóteles, Santo Tomás, Santo Agostinho, Avicena, Maimônides, entre outros. Destaco o sermão 30, onde Eckhart diz que o que Deus criou milênios atrás, continua criando ainda hoje. Deus cria no mais íntimo e no mais alto da alma.

Eckhart nos recomenda que amemos a Deus de boa vontade na pobreza e na riqueza, na doença e na saúde, na tentação e na sua ausência. Ele lembra-nos dos apóstolos que quanto mais sofriam mais facilmente suportavam o sofrimento.Poderíamos fazer uma comparação entre Eckhart e o padre Antônio Vieira. Eckhart é mais metafísico, enquanto Vieira é mais político. Mas na construção de imagens frases e citações de autoridades, assim como na riqueza do uso da língua, Vieira é muito superior.

Eckhart foi acusado em vida de ter sido um herético, mas nos seus sermões não dá para perceber nenhum desvio da ortodoxia. Recomendo esse livro para quem gosta da filosofia medieval, e que esteja interessado em conhecer um de seus maiores místicos.

Resenha: A Cidade de Deus, de Santo Agostinho

cover

Santo Agostinho sempre foi considerado um teólogo de inspiração platônica mas, quando lemos sua obra principal, A Cidade de Deus, e a comparamos com a sobriedade das metafísicas de Plotino, Proclo, Jâmblico e Damáscio, vemos que o seu platonismo fica já obscurecido pela teologia bíblica. Agostinho dá um tom excessivamente bombástico e emocional ao seu texto, talvez porque misture a uma tentativa de filosofar teologia e história. Este caráter histórico de seu texto é um dos grandes pontos fracos do Cristianismo, e mesmo filósofos muçulmanos criticam este aspecto da religião cristã. Quando a filosofia é diminuída para dar espaço a uma religião que pretende ser histórica, e que vê seus antecessores como meros pretextos para seu aparecimento, a razão cede lugar para o emocional. [Read more…]