Os Sermões Alemães, de Mestre Eckhart

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A Mística Medieval
Na presente obra são apresentados 60 sermões do Mestre Eckhart. Eu achei seus sermões muito parecidos uns com os outros. Eckhart tem um grande conhecimento das escrituras, assim como dos grandes teólogos e filósofos como Aristóteles, Santo Tomás, Santo Agostinho, Avicena, Maimônides, entre outros. Destaco o sermão 30, onde Eckhart diz que o que Deus criou milênios atrás, continua criando ainda hoje. Deus cria no mais íntimo e no mais alto da alma.

Eckhart nos recomenda que amemos a Deus de boa vontade na pobreza e na riqueza, na doença e na saúde, na tentação e na sua ausência. Ele lembra-nos dos apóstolos que quanto mais sofriam mais facilmente suportavam o sofrimento.Poderíamos fazer uma comparação entre Eckhart e o padre Antônio Vieira. Eckhart é mais metafísico, enquanto Vieira é mais político. Mas na construção de imagens frases e citações de autoridades, assim como na riqueza do uso da língua, Vieira é muito superior.

Eckhart foi acusado em vida de ter sido um herético, mas nos seus sermões não dá para perceber nenhum desvio da ortodoxia. Recomendo esse livro para quem gosta da filosofia medieval, e que esteja interessado em conhecer um de seus maiores místicos.

Resenha: A Cidade de Deus, de Santo Agostinho

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Santo Agostinho sempre foi considerado um teólogo de inspiração platônica mas, quando lemos sua obra principal, A Cidade de Deus, e a comparamos com a sobriedade das metafísicas de Plotino, Proclo, Jâmblico e Damáscio, vemos que o seu platonismo fica já obscurecido pela teologia bíblica. Agostinho dá um tom excessivamente bombástico e emocional ao seu texto, talvez porque misture a uma tentativa de filosofar teologia e história. Este caráter histórico de seu texto é um dos grandes pontos fracos do Cristianismo, e mesmo filósofos muçulmanos criticam este aspecto da religião cristã. Quando a filosofia é diminuída para dar espaço a uma religião que pretende ser histórica, e que vê seus antecessores como meros pretextos para seu aparecimento, a razão cede lugar para o emocional. [Read more…]

Duns Scot e o Dogma da Imaculada Conceição

 

 

 

Duns Scot imagemDuns Scot estabelece para sempre o dogma da Imaculada Conceição nesse texto abaixo da sua Ordinatio:

http://www.marymediatrix-resourceonline.com/library/files/franciscan/scotus_ic.htm

Was the Blessed Virgin conceived in sin? The answer is no, for as Augustine writes: “When sin is treated, there can be no inclusion of Mary in the discussion.” And Anselm says: “It was fitting that the Virgin should be resplendent with a purity greater than which none under God can be conceived.” Purity here is to be taken in the sense of pure innocence under God, such as was in Christ.

The contrary, however, is commonly asserted on two grounds. First, the dignity of Her Son, who, as universal Redeemer, opened the gates of heaven. But if blessed Mary had not contracted original sin, She would not have needed the Redeemer, nor would He have opened the door for Her because it was never closed. For it is only closed because of sin, above all original sin.

In respect to this first ground, one can argue from the dignity of Her Sonqua Redeemer, Reconciler, and Mediator, that She did not contract original sin.

For a most perfect mediator exercises the most perfect mediation possible in regard to some person for whom he mediates. Thus Christ exercised a most perfect act of mediation in regard to some person for whom He was Mediator. In regard to no person did He have a more exalted relationship than to Mary. Such, however, would not have been true had He not preserved Her from original sin.

The proof is threefold: in terms of God to whom He reconciles; in terms of the evil from which He frees; and in terms of the indebtedness of the person whom He reconciles.

First, no one absolutely and perfectly placates anyone about to be offended in any way unless he can avert the offense. For to placate only in view of remitting the offense once committed is not to placate most perfectly. But God does not undergo offense because of some experience in Himself, but only because of sin in the soul of a creature. Hence, Christ does not placate the Trinity most perfectly for the sin to be contracted by the sons of Adam if He does not prevent the Trinity from being offended in someone, and if the soul of some child of Adam does not contract such a sin; and thus it is possible that a child of Adam not have such a sin.

Secondly, a most perfect mediator merits the removal of all punishment from the one whom he reconciles. Original sin, however, is a greater privation than the lack of the vision of God. Hence, if Christ most perfectly reconciles us to God, He merited that this most heavy of punishments be removed from some one person. This would have been His Mother.

Further, Christ is primarily our Redeemer and Reconciler from original sin rather than actual sin, for the need of the Incarnation and suffering of Christ is commonly ascribed to original sin. But He is also commonly assumed to be the perfect Mediator of at least one person, namely, Mary, whom He preserved from actual sin. Logically one should assume that He preserved Her from original sin as well.

Thirdly, a person reconciled is not absolutely indebted to his mediator, unless he receives from that mediator the greatest possible good. But this innocence, namely, preservation from the contracted sin or from the sin to be contracted, is available from the Mediator. Thus, no one would be absolutely indebted to Christ as Mediator unless preserved from original sin. It is a greater good to be preserved from evil than to fall into it and afterwards be freed from it. If Christ merited grace and glory for so many souls, who, for these gifts, are indebted to Christ as Mediator, why should no soul be His debtor for the gift of its innocence? And why, since the blessed Angels are innocent, should there be no human soul in heaven (except the human soul of Christ) who is innocent, that is, never in the state of original sin?

 Tradução do Texto de Duns Scot

Foi a Bem-Aventurada Virgem Maria concebida em pecado? A resposta é não, pois Agostinho escreve: ” Quando o pecado é tratado, não pode haver a inclusão da Virgem Maria na discussão”. E Santo Anselmo escreve:” Foi correspondendo que a Virgem deve ser resplandescente com uma pureza que ninguém mais debaixo de Deus pode ser concebido”.

O contrário, entretanto, é frequentemente defendido em dois pontos: Primeiro, a dignidade de seu Filho, que, como redentor universal, abriu os portões do céu. Mas se a Bem-Aventurada Virgem Maria não contraiu o pecado original, ela não precisaria de um redentor, nem ele teria aberto os portões do céu para ela, porque o portão nunca estaria fechado. Porque está fechado apenas pelo pecado, acima de todo o pecado original.

Em resposta ao primeiro ponto, alguém pode argumentar que da dignidade de Seu filho qua Redentor, reconciliador e Mediador, que ela não contraiu o pecado original.

Porque o mais perfeito mediador exercita a mais perfeita mediação possível a favor de uma pessoa de quem ele faz a mediação. Por isso Cristo exercitou a mais perfeita mediação a favor de alguma pessoa de quem ele foi mediador. A favor de nenhuma pessoa Ele teve uma relação mais exaltada do que com Maria. Isso, entretanto, não seria verdade se Ele não a tivesse preservado do pecado original.

Existem três provas disso: Em termos de Deus a quem ele reconcilia; em termos do mal que Ele liberta; e em termos da dívida da pessoa a quem Ele reconcilia.

Primeiro, ninguém absoluta e perfeitamente amansa alguém que será ofendido de nenhuma maneira a não ser que ele consiga prevenir a ofensa. Porque aplacar tendo em vista apenas redimir a ofensa já cometida é não aplacar de maneira mais perfeita. Mas Deus não suporta a ofensa  por causa de alguma experiência Nele mesmo, mas por causa somente do pecado da alma de uma criatura. Assim, Cristo não aplaca a Trindade mais perfeitamente pelo pecado a ser contraído pelos filhos de Adão se ele não previne a Trindade de ser ofendida em alguém, e se a alma de algum filho de Adão não contraiu tamanho pecado; e assim é possível que um filho de Adão não tenha esse pecado.

Segundo, os méritos do mais perfeito mediador é remover toda a punição daquele a quem Ele reconcilia. O pecado original, entretanto, é uma maior privação do que a falta da visão de Deus. Por isso, se Cristo mais perfeitamente nos reconcilia com Deus, Seu mérito é mais pesado do que todas as punições removidas da pessoa reconciliada. Esta deve ser a sua mãe.

Além do mais, Cristo é primeiramente nosso redentor e reconciliador do pecado original, mais do que do pecado atual, por isso a necessidade da Encarnação e sofrimento de Cristo é mais comumente atribuída ao pecado original. Mas se Ele é atribuído o fato de ser o perfeito mediador de ao menos uma pessoa, nomeadamente, Maria, quem Ele preservou do pecado atual. Logicamente, deveríamos assumir que Ele preservou-a de todo o pecado original, também.

Em terceiro, a pessoa reconciliada não está absolutamente  endividada com seu mediador, a não ser que receba desse mediador o maior bem possível. Mas esta inocência, nomeadamente, a preservação do pecado contraído, ou do pecado a ser contraído, está disponível pelo mediador. Assim, ninguém está absolutamente livre do débitos  com Cristo como mediador, a não ser que esteja livre do pecado original. É um bem maior ser preservado do mal do que cair nele e depois ser libertado dele. Se Cristo garantiu o mérito da Graça e da Glória para tantas almas, que, por causa desses presentes estão endividadas com Cristo como mediador, por que nenhuma alma seria sua devedora pelo presente de sua inocência? E por que, desde que os abençoados anjos são inocentes, deveria não haver nenhuma alma humana no céu( exceto a alma humana de Cristo), que é inocente, ou seja, que nunca esteve em estado de pecado original?

Psyché, de Bouguereau

 

A alma, o objeto de estudo da psicologia foi muito bem reproduzida nessa pintura de Bouguereau, no qual uma mulher jovem e muito bonita está olhando para o alto, e com as mãos no peito, simbolizando recato. A beleza da alma humana é representada nessa pintura.

São Tomás de Aquino reproduz o pensamento de Santo Agostinho que dizia que a alma contém a mente, o conhecimento e o amor, que estão nela essencialmente.  Santo Agostinho acrescenta que a memória, a inteligência e a vontade são uma só vida, um só espírito e uma só essência.São Tomás nega que a essência da alma seja sua potência, porque a potência e o ato dividem o ente e qualquer gênero de ente, sendo preciso que um e outro se refiram ao mesmo gênero, de forma que se o ato não pertence ao gênero substância, a potência não pode pertencer a esse gênero. A operação da alma não se encontra no gênero substância, pois somente em Deus sua operação é sua substância, de forma que a potência divina é a essência mesma de Deus.

Que a essência da alma não seja sua potência também pode ser visto na alma, pois esta é ato. A alma enquanto forma não é um ato ordenado para um ato superior, mas é o termo último da geração. Se ela está em potência para outro ato, isso não lhe cabe por sua essência, enquanto é uma forma, mas por sua potência. A alma enquanto sujeito de sua potência é o ato primeiro, ordenada para  um ato segundo. Aquilo que tem a alma não está sempre em ato nas operações vitais. A definição da alma ( Psyché) diz que ela é um ato de um corpo tendo a vida em potência. A potência, portanto, não exclui a alma. A essência da alma não é a sua potência. Nada está em potência com relação a um ato.